Por Carlos Eduardo de Oliveira*

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9).

A Bíblia é bem clara em dizer que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23).O pecado é uma herança que recebemos de Adão, ninguém escapa. Davi diz que desde o seu nascimento, o pecado já estava presente em sua vida (Sl 51:5). A partir do momento que Adão caiu, sua natureza se tornou propensa para o pecado e dá mesma forma todos nós, como seus descendentes herdamos essa inclinação também. “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5:12). Por isso “O justo viverá por fé” (Rm 1:17). Viveremos pela fé na salvação que Cristo nos concedeu por meio de Sua morte, conscientes de que não temos nenhuma capacidade para resolvermos nosso problema com o pecado. Dependemos unicamente e exclusivamente d’Ele

Na tentativa de melhorar a imagem diante de Deus, muitos “guardaram” a lei moral (Os Dez Mandamentos) com o objetivo de serem salvos. Essas pessoas acreditavam que uma série de ordenanças e estatutos eclesiásticos iriam resolver o seu problema de iniquidade, e sua salvação viria após apresentarem-se “dignos” perante Deus por terem guardado seus mandamentos.

Isso vem de um pensamento já existente entre os judeus do século 1 até a Igreja Apostólica Romana no século 15, onde a última tinha venda de indulgências e as boas obras como meios para obter-se o perdão de Deus e ter o passaporte para morar no céu. Inclusive, nesse período,nota-se que vários costumes foram deturpados nesses dois povos e períodos citados. Em referência ao povo romano, eles “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente Amém!” (Rm 1:25).Para se obter o perdão divino era necessário que o crente fosse àautoridade eclesiástica com o objetivodela“conceder” o perdão para o transgressor.

No primeiro capítulo da carta de Romanos, vemos Paulo denunciando a decadência do ser humano em todos os aspectos pecaminosos, desde a deturpação do culto a Deus (Rm 1:22,23, 25), até suas relações afetivas (Rm 1: 24,26,27). Entretanto, a pior parte não é essa, suas falhas eram cometidas de forma consciente e rebelde; eles haviam desprezado as orientações de Deus e colocaram suas vontades no lugar das de Deus (Rm 1:28-32). Por conta dessas coisas “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm1:18).

Nesse ínterim havia também pessoas que se achavam superiores por não cometerem os pecados citados e usavam a guarda da lei como algo para justificarem-se diante de Deus a fim de obter-se o acesso a salvação por intermédio da estrita obediência a todos os regulamentos. Por isso, os judeus consideravam-se superiores aos gentios que cometiam essas faltas.

Porém, logo em seguida encontramos. Paulo censurando os judeus, pois eles acreditavam que por serem descendentes de Abraão circuncidadostinham alguma vantagem sobre os outros e diante de Deus por possuírem esses “privilégios”. Todos os seus argumentos são desfeitos quando o apóstolo admoesta os descendentes de Abraão: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Rm 2:4). Nada do que podemos fazer pode nos levar ao arrependimento, à não ser a bondade e misericórdia do Eterno.

O texto citado foi um “balde de água fria” sobre os judeus, pois eles pensavam que suas ações, conhecidas como boas obras, como guardar o sábado, tirar o dízimo das plantações, não comer carnes impuras os justificavam diante de Deus. Com esse pensamento eles automaticamente tiravam Deus de seu campo de visão e começavam a acreditar que suas caprichosas obras eram suficientes para obter não somente a salvação, mas o perdão d’Ele. Ao falar que a bondade divina conduz a expiação, ele está mostrando que nada pode ser feito para obter o favor de Deus; somente por Sua própria iniciativa que temos a oportunidade de expiação dos nossos pecados. Isso fica mais claro no final do capítulo, onde a circuncisão é mostrada como algo inválido se não for acompanhada por uma vida de obediência; “Porque a circuncisão tem valor se praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão […] Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne” (Rm 2:25,28). O mesmo ocorre conosco em nossos dias. Na maioria das vezes pensamos que uma série de caprichos nos leva ao que se pode chamar de “auto expiação”, porque a ideia continua sendo a mesma: “Farei isso para obter o perdão de Deus, pois não basta simplesmente eu me achegar até Ele”.Com isso, levamos os nossos míseros acertos como uma justificação forense (falarei disso mais a frente). Deve-se ficar fixo em nossa mente de uma vez por todas que nada do que fazemos pode nos levar ao arrependimento, a não ser o Espírito de Deus, pois é Ele quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

Continuando nessa linha de pensamento, surge um questionamento: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” (Rm 3:9). Para deixar de forma mais clara, usarei o seguinte clichê: Não existe ninguém melhor que ninguém, todos somos iguais e nos encontramos nas garras do pecado. O ser humano não possui nada de justo, ele é mal, suas palavras são extensões da iniquidade; pois nós só sabemos enganar, mentir e proferir maldições; os nossos caminhos são maus e Deus não faz parte de nossa vida (Rm 3:10-18). Todas as rotas que a humanidade segue terminará sempreno mal, pois sua natureza apela para isso.

Paulo ainda continua seu argumento mostrando a incapacidade da lei de salvar o pecador, pois sua única função é mostrar que o ser humano é culpado diante de Deus. A função do regulamento divino é mostrar a falha humana, pois sem lei não há conhecimento de pecado (Rm 7:7). Em concordância disso, o apóstolo mostra que cumprir a lei não resultará em nada, porque “ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.” (Rm 3:20).

Tomando conhecimento disso, sabe-se que a guarda dos mandamentos é insuficiente para a salvação do ser humano . Então é o momento que Cristo entra na história; “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixando impunes os pecados anteriormente cometidos” (Rm 3:24,25). A palavra propiciação empregada no verso acima é hilasterion, que significa que Jesus foi o meio pelo qual os nossos pecados foram expiados. Isso relembra o sistema sacrifical estabelecido no Antigo Testamento(Êx 29:38-42), onde a morte de um cordeiro substituía de maneira simbólica o pecador, porém Cristo substituiu de maneira plena nossas transgressões por meio de Sua morte, porque “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9:22).

Dessa forma não há espaço para arrogância da parte daqueles que guardam a lei. A salvação vem única e exclusivamente de Cristo por meio da fé em Seu sacrifício na cruz; “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé.” (Rm 3:27). Nesse momento já entramos na esfera da fé onde o pecador arrependido obtêm o perdão e salvação por meio da fé em Cristo. Quando isso ocorre, nós reconhecemos nossa incapacidade para obtermos a absolvição e salvação. Consequentemente encaminhamo-nos para Ele crendo que Sua entrega vicária nos livrará do pecado. A validade dessa iniciativa equivale tanto para judeus como gregos, circuncisos e incircuncisos (v.29,30). Todavia, não podemos invalidar a lei por conta disso. Com essa atitude nós, só confirmamos ela, pelo simples fato de que Cristo teve que morrer para que a exigência dela fosse cumprida, afinal “o pecado é transgressão da lei” (l Jo 3:4), e “o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23). Concordando com o fato citado, o capítulo 3 termina com a seguinte conclusão: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.” (Rm 3:31). A lei é confirmada por meio da fé, porque sua pena foi cumprida por Cristo. Ele se fez de transgressor, a fim de que tivéssemos a oportunidade de salvação.

Então Abraão é colocado como exemplo de ter sido justificado por meio da fé. “Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça.” (Gn 15:6).

O patriarca não fez algo para obter a justificação, ela não veio pelos seus próprios méritos como seus descendentes pensavam; pelo contrário, ela veio por meio da fé em Deus, que faria tudo por ele; seu único papel era apenas crer. A partir do momento que isso aconteceu, a justiça lhe foi atribuída, como foi citado no texto acima. Ela veio não pelo fato de ele ter sido circuncidado. Seria incoerência afirmar isso, pois a circuncisão só aconteceu 13 anos depois de Deus ter feito a aliança com Abraão no capítulo 15 de Gênesis. A circuncisão foi instituída para Abraão e sua descendência a fim de eles lembrarem que a salvação viria única e exclusivamente de Deus e nada do que eles fizessem faria que eles fossem salvos, pois era (e é) insuficiente. Nosso único meio é crer que Cristo já fez tudo por nós e por isso nós temos a oportunidade de sermos absolvidos pelos nossos pecados e sermos salvos. Por isso Abraão “não duvidou por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça.(Rm 4:20-22). Ele creu nessa promessa mesmo com “seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos” (Rm 4:19).

Assim nós somos justificados pela fé, independentemente de nossas próprias forças, mas por meio de Cristo Jesus, que morreu por nós quando estávamos afetados pelo pecado. Ele não esperou que desenvolvêssemos certos atributos justos para morrer por nós, “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios […] Mas Deus prova seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:6,8).

Em momento algum Deus exigiu uma justificação forense, crença essa onde o indivíduo pecador deve fazer algo para obter o perdão divino. Esse ensinamento não é bíblico, pois a justificação é algo que Cristo fez por nós, isso fica claro no primeiro verso do capítulo 5, que diz que nós somos justificados primeiramente pela fé, onde Cristo é o meio para nos apresentarmos irrepreensíveis diante de Deus. Sua vida de obediência é colocada no lugar de nossa vida desobediente, ocasionada pelo pecado; se isso não acontecesse seria impossível nos apresentarmos diante de Deus, e com certeza seríamos consumidos (Êx 33:20). Com a vida obediente de Cristo nós somos katallage(reconciliados) com Deus, pois Ele está fazendo um novo concerto com seus filhos desobedientes. Não há meio de salvação por meio de nossos “atos de bondade” próprios.

Para ficar mais claro, podemos olhar para a história de Adão. Onde nosso pai errou, Jesus veio para desempenhar sua função (2º Adão) para acertar onde ele havia errado para que a graça viesse e atingisse todos os que primeiramente tinham sido afetados pelo pecado (Rm 5:18). Pela transgressão de Adão todos nós recebemos o pecado como herança e ficamos condenados a morte, mas por intermédio de Cristo e sua morte nós temos a oportunidade de sermos salvos e assim se cumpre a afirmação de que “onde abundou o pecado, superabundou a graça, afim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5:20-21).

Não se deve cair no engano de que devemos continuar no pecado a fim de que a graça continue sendo fértil. Quando nós aceitamos a justificação, deixamos nossa antiga vida, e vivemos uma nova vida; porque “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. […] sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos […] Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6:4,5,6,8). Nossas antigas vontades, desejos e gostos pecaminosos foram mortos com Cristo e agora uma nova natureza entra em nosso ser, porém a luta continua, porque nossa velha vida deseja recuperar o território que foi tomado. Para deixar isso mais claro, uso o seguinte pensamento de Lutero: “Pensei que o velho homem tinha morrido nas águas do batismo, mas descobri que o infeliz sabia nadar. Agora tenho que matá-lo todos os dias”.  Na medida que se tem conhecimento disso a luta expressa em Romanos 7:7-25 ganha sentido. Paulo registra sua luta pessoal, onde o mal deseja reinar em lugar do bem, no final ele diz que a única forma de ser liberto é por meio de Jesus Cristo (Rm 7:25). A morte com Cristo não ocorre uma única vez, ela tem de ser todos os dias. A nossa vontade deve ser submetida a de Cristo diariamente para que possamos ser vencedores.

Ao compreender essa parte, entramos na parte da santificação. Seguida da justificação, esse processo é onde Cristo faz a obra em nós. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim, a vida eterna” (Rm 6:22). Após sermos justificados, Jesus começa a trabalhar em nossa vida para que Seu caráter seja incutido em nossas vidas para que possamos estar de pé diante de Deus naquele dia; “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). Porém, corre-se o risco de pensar que um certo “ápice” será atingido, onde seremos perfeitos. Essa ideia não é bíblica, porque a santificação é um processo que durará toda a vida do crente e que só será coroada com a glorificação, que ocorrerá no retorno de Cristo.

Devemos deixar Cristo agir em nossa vida “pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). A partir do momento que estamos em Jesus o pecado não tem poder sobre nossas vidas e consequentemente o Espírito Santo começa a agir em nosso coração. Além disso Ele intercede por nós (Rm 8:26-30). A vida não se torna fácil pelo fato de Cristo ter entrado nela, pelo contrário, ela fica mais difícil. Todavia podemos ter a certeza de “que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8:18). Tudo o que passamos aqui será recompensado quando formos para o céu. Enquanto estamos aqui na Terra podemos ter a certeza que “nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:39). Não existe nenhum poder que pode separar um filho contrito de coração e arrependido de Deus. O sacrifício feito por Jesus foi suficiente para poder quebrar toda e qualquer interferência do pecado. Quando temos isso em pensamento, entendemos o quanto é desnecessário qualquer justificação própria, ou tentativa de salvação, pois Ele já fez tudo por nós. Nossa única função é aceitar.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31).

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* Carlos Eduardo de Oliveira é um seguidor do Reação Adventista. Aluno do terceiro ano do Ensino Médio da FadMinas, compartilhou conosco esse belo texto. Que Deus seja louvado! Feliz dia da Reforma Protestante!