Por Davi Caldas

O cardeal americano James Gibbons (1834-1921) foi uma figura interessante para análise. Ele se destacou por apoiar movimentos trabalhistas e lutar por questões sociais de sua época. É considerado um dos precursores da chamada Doutrina Social da Igreja Católica. Gibbons também ficaria conhecido por ter ajudado a articular, juntamente com lideranças protestantes, uma petição ao congresso em favor de uma lei dominical nacional.

A articulação surgiu efeito e em 21 de Março de 1888 o senador H. W. Blair apresentou um projeto de lei nesse sentido, que seria discutido nos próximos meses. As discussões contariam com uma audiência pública, onde em uma delas o adventista Allonzo Trevier Jones apresentaria um argumento desfavorável à Lei, apelando à liberdade religiosa.

Gibbons também foi escritor. Sua principal obra, “Faith of Our Fathers” [“A Fé de Nossos Pais”] é uma defesa da Igreja Católica Romana. Um dos trechos da obra é especialmente significativo para os adventistas. Ele diz:

“Uma regra de fé, ou um guia competente para o céu, deve ser capaz de instruir em todas as verdades necessárias para a salvação. Ora, as Escrituras sozinhas não contêm todas as verdades nas quais um cristão é obrigado a crer, nem prescrevem explicitamente todos os deveres que ele é obrigado a praticar. Para não mencionar outros exemplos, todo cristão não é obrigado a santificar o domingo e a se abster naquele dia de trabalho servil desnecessário? A observância desta lei não está entre os mais proeminentes de nossos sagrados deveres? Mas você pode ler a Bíblia de Gênesis a Apocalipse, e não encontrará uma única linha autorizando a santificação do domingo. As Escrituras impõem a observância religiosa do sábado, um dia que nunca santificamos.

“A Igreja Católica ensina corretamente que nosso Senhor e Seus apóstolos inculcaram certos deveres religiosos importantes que não são registrados pelos escritores inspirados. Por exemplo, a maioria dos cristãos ora ao Espírito Santo, uma prática que não é encontrada em nenhum lugar da Bíblia. Devemos, portanto, concluir que as Escrituras por si só não podem ser um guia e regra de fé suficiente porque elas não podem, em nenhum momento, estar ao alcance de qualquer inquiridor; porque eles não são claros e inteligíveis, mesmo em assuntos da mais alta importância, e porque eles não contêm todas as verdades necessárias para a salvação” (p. 89-90).

Fica claro aqui que Gibbons relacionava diretamente a guarda do domingo e a rejeição do sábado como um exemplo de que a Bíblia Sagrada não é suficiente, devendo ser complementada pela tradição da ICAR e pelo magistério. Em outras palavras, a Sola Scriptura seria uma fraude. As implicações disso são várias. Uma delas é que quem rejeita o sábado está, de certa forma, rejeitando a Sola Scriptura. A argumentação de Gibbons me lembra um texto de Ellen White. Ela diz:

“Nos ensinos de Cristo, Ele se referia incessantemente às Escrituras. Sempre que uma pergunta era feita a Ele, Sua resposta era: ‘Não lestes?’, ‘O que dizem as Escrituras?’, ‘Como lês tu?’, ‘Examine as Escrituras’. Cristo tinha a sabedoria que é infinita, mas referiu-se a Sua própria instrução inspi-rada dada a homens bons e santos da antiguidade. Este povo, os adventistas do sétimo dia, são leitores e crentes da Bíblia e, em resposta às perguntas feitas a respeito de sua fé, as Escrituras são o fundamento de nossa fé. Não buscamos as palavras dos homens, mas a Palavra de Deus: ‘Está escrito’ para o fundamento da nossa fé. Espero que nosso povo sempre se apoie na Bíblia e na Bíblia somente para o fundamento de nossa fé, para quem a verdade torna livre é realmente gratuito.

Cremos no sábado do quarto mandamento porque está escrito claramente e é o fundamento de nossa fé religiosa. Que nenhum de nós tenha vergonha disso. Vemos a importância de acreditar na verdade e obedecer ao mandamento de Deus, e não dar ouvidos à autoridade instituída do papa, que afirma ter o direito de mudar o sábado do sétimo dia que Deus deu ao homem para o primeiro dia da semana. Não damos ouvidos às palavras que são reiteradas nos púlpitos por toda a terra, que o domingo é o sábado. Não aceitamos a autoridade dos conselhos de homens […]. Uma doutrina que não tem um “Assim diz o Senhor” pode ser aceita por todo o mundo, mas isso não a torna verdade. Queremos a verdade e nos recusamos a correr qualquer risco ao aceitar qualquer outra coisa. […].

Não temos vergonha de nossa fé, o Adventismo do Sétimo Dia, pois é a melhor especificação que podemos ter. Estamos aguardando a segunda vinda de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Os homens podem zombar e ridicularizar nossa fé, mas isso não deve nos provocar ou surpreender. Todas essas demonstrações não tornam a verdade erro, nem tornam o erro verdade. Assumimos nossa posição firme e inamovível na plataforma da Palavra de Deus” (Diário, Maio de 1893. Disponível no link: https://m.egwwritings.org/en/book/14058.6632001?hl).

Há algumas lições que podemos tirar dessa breve reflexão sobre James Gibbons. A primeira é que um líder católico pode unir várias frentes de trabalho que desembocam em uma defesa da doutrina católica. Gibbons uniu preocupação trabalhista, defesa do domingo como dia nacional de guarda e ataque à Sola Scriptura. E nesse processo teve apoio de protestantes que também guardavam o domingo à época.

A segunda lição é que com grande apoio do povo, ideias podem se tornar projetos de lei. Foi o que ocorreu à época com a ideia do domingo como dia nacional de guarda. O projeto acabou não virando lei. Mas só de ter sido discutido mostra que nada é impossível quando boa parte da população apóia.

A terceira lição é que se somos realmente adventistas devemos prezar pela Sola Scriptura. Afinal, é por isso que historicamente guardamos o sábado, não o domingo ou dia nenhum. O desprezo prático da Sola Scriptura por alguns adventistas (muitas vezes fazendo uso indevido de Ellen White para justificar isso) nos torna mais parecidos com os católicos. Devemos retornar às nossas raízes, à nossa identidade como povo que tem a Bíblia como única regra de fé, prática e doutrina. “A Bíblia e a Bíblia somente”, como costumava dizer Ellen White.