Por Davi Caldas

Muita gente comentou, nesta semana, sobre a frase de Porchat no Roda Viva: “Quanto mais a gente lê a Bíblia, mais ateu a gente fica”. Eu não ia comentar nada, mas tem algo nessa frase que me saltou aos olhos e como não vi ninguém falando a respeito, acho que vale a pena eu escrever.

Quem estuda um pouco de lógica formal (nem precisa ser muito), percebe que há duas falhas lógicas nessa pequena frase. A primeira falha lógica é que a existência de Deus não necessariamente depende da Bíblia estar correta. É verdade que se Deus não existir, a Bíblia é falsa. Mas se a Bíblia for falsa, não decorre daí que Deus não existe.

É perfeitamente possível, por exemplo, que exista um Deus Criador, mas que Ele não seja o da religião cristã. Talvez o Deus Criador não tenha se revelado em nenhuma religião. Pode ser o Deus dos deístas. Ou de outra religião monoteísta. Então, a frase de Porchat deveria ser: “Quanto mais a gente lê a Bíblia, mais descrente da Bíblia a gente se torna”.

A discussão sobre se Deus existe ou não ela não é uma discussão primariamente bíblica, mas lógica ou probabilística. Há boas razões lógicas ou probabilísticas para crer que há um ser criador transcendente? Há bons motivos lógicos ou probabilísticas para não crer nesse ser? É isso que precisa ser discutido. Se o Deus Criador é o da Bíblia judaico-cristã isso já é outra questão.

A segunda falha lógica da frase de Porchat é entender que a mera leitura é suficiente para entender profundamente a Bíblia e refutá-la. O problema é que a Bíblia não é um jornal popular escrito ontem, em português, por brasileiros. A Bíblia é um conjunto de mais de 60 livros e cartas, escritos por cerca de 40 autores diferentes, ao longo de 1600 anos, em três idiomas distintos, com estilos literários diversos, cada qual com seus próprios objetivos e destinatários. Como se isso não bastasse, os autores não eram do nosso país, nem mesmo ocidentais, e o último livro desta coletânea já tem quase 20 séculos que foi escrito.

Qualquer um que olhe para esse todo complexo e julgue que a mera leitura simples é suficiente para entender profundamente a Bíblia e refutá-la, não tem a menor ideia do que está fazendo. É como dizer que a mera leitura simples da Constituição Federal e outros códigos legais brasileiros seja suficiente para tornar-se um advogado e passar em um concurso para juiz. Todos sabem que isso não é estudar.

Se Porchat dissesse que quanto mais a gente estuda a Bíblia, mais se torna descrente dela, a frase seria mais razoável. Mas, claro, se esse fosse o termo utilizado, ele teria de provar que realmente estuda. E isso ele não poderia fazer. Porchat não é um estudante da Bíblia. Ele é apenas um leitor sem método e um humorista. A Bíblia, para ele, não é material para estudar, mas para extrair piadas a partir de uma leitura rasa e simplista. Eu pergunto: é isso que o faz cada vez mais ateu? Se sim, então a frase de Porchat é um reconhecimento de que sua descrença é baseada em ignorância.