Por Davi Caldas

A ideologia, seja de direita ou de esquerda, tende a tornar as pessoas mais insensíveis, menos amorosas mesmo. E isso acontece até entre os cristãos. É fácil ver exemplos disso na internet.

No espectro esquerdo, dentre os que professam a fé cristã, mas defendem o socialismo, há os que relativizam o fato de que milhares de cristãos foram duramente perseguidos, torturados e mortos em regimes socialistas; e que ainda sofrem pesadas restrições em países como Coreia do Norte, China e Cuba.

No espectro direito, dentre os que professam a fé cristã, mas defendem algum regime militar do passado (como o de Pinochet, no Chile, ou o regime brasileiro de 64 a 85), há os que relativizam o fato de que o Estado se utilizou de tortura e execuções sumárias contra centenas de pessoas.

A relativização da vida alheia ocorre porque o amor à própria ideologia acaba eventualmente entrando em conflito direto com o amor ao próximo. Se o socialista, por um momento, se compadecer dos cristãos (e não cristãos) mortos nos regimes que ele defende, terá de reconhecer que sua ideologia não é boa.

De igual forma, se o adepto de um regime militar de direita, por um momento, tiver compaixão das pessoas torturadas e mortas sumariamente por um desses regimes, também terá de reconhecer que sua ideologia não é tão boa. E isso, numa mente ideologizada, significa dar vitória ao outro lado. Assim, vale mais amar a ideologia e defendê-la até a morte (a morte do outro, claro!) do que amar pessoas reais, criadas à imagem e semelhança de Deus, e pelas quais Cristo deu a própria vida.

A ideologia tende a criar o tipo de amor que Jesus afirmou não valer muita coisa. Em Mateus 5, após dizer aos seus ouvintes que eles deveriam amar os inimigos e orar pelos seus perseguidores, explicou: “Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” (Mt 5:46-47).

É fácil amar quem nos faz bem ou amar aqueles cujo nosso amor por eles traz lucro para nós. Mas a fé cristã nos insta a amar também quando este ato nos traz prejuízos. E é aqui que o cristão deve escolher se permanecerá com sua ideologia intacta, incólume, perfeita, ou se amará aqueles que sofreram debaixo de sua ideologia, reconhecendo que ela não presta.

Obs.: Ideologia aqui é qualquer sistema bastante estrito de ideias que busca avaliar, interpretar e modificar o mundo a partir de ações humanas (em especial, políticas), não abrindo muitas concessões para a possibilidade de a realidade ser mais complexa do que o sistema consegue captar. Como resultado, a ideologia é sempre dogmática e frequentemente incorre no erro de moldar a realidade aos seus pressupostos, em vez de moldar seus pressupostos à realidade.

A ideologia pode surgir da direita e da esquerda. Isso não significa que direita e esquerda sejam, em si mesmas, ideologias (ao menos, não no sentido aqui trabalhado). Direita e esquerda representam conjuntos de visões políticas econômicas e culturais que podem ou não ser ideologizadas. Em outras palavras, elas podem ou não ser transformadas em um sistema estrito de ideias que tenta moldar a realidade às suas pressuposições. Alguns exemplos de ideologia são: socialismo, marxismo, fascismo, nazismo e positivismo.

Eventualmente, o culto a determinadas personalidades políticas pode adquirir contornos ideológicos também, na medida em que se cria a partir da personalidade em questão um sistema de ideias estrito e com alto grau de discurso redentor (em termos terrenos e políticos). Ideologias também podem surgir a partir de religiões e até do ateísmo. A mescla entre religião e política, ou entre ateísmo e política, com vistas à criação de um estado confessional, também pode ser vista como ideológica, em especial se possuir um discurso redentor, onde o domínio estatal da religião ou do ateísmo é visto como a solução dos problemas do mundo. Evidentemente, tudo isso sempre desemboca em perseguição.