Por Davi Caldas

Em política existe um conceito curioso chamado “estratégia das tesouras”. A estratégia consiste em criar o sentimento de que só existem duas opções em determinado cenário político. A estratégia pode ser usada para duas finalidades possíveis. A primeira é a de manter o povo em um lado específico do espectro político. Vamos exemplificar.

Imagine que o partido A e o partido B são de esquerda, porém rivais entre si. Na estratégia das tesouras, os adeptos desses partidos vão agir e falar como se só existissem essas duas opções. Isso impelirá o povo a achar que a única maneira de opor-se ao partido A é votando no partido B e vice-versa. Sem outras opções além desses dois partidos, o povo ficará preso no lado esquerdo do espectro.

Nesse processo, os partidos A e B, embora rivais, sempre saem ganhando, pois como possuem alguns princípios básicos em comum, a vitória do rival nunca é tão prejudicial. Além disso, os pontos em comum entre os partidos continuam preservados na mente do povo em qualquer resultado eleitoral. Tal estratégia pode ser aplicada de igual maneira por partidos de direita e de centro. A dinâmica é a mesma.

O segundo objetivo possível é o de alimentar-se do extremo oposto. Por exemplo, um partido de esquerda radical tem como seu extremo oposto um partido de direita radical. Na estratégia das tesouras, os adeptos da esquerda radical vão agir e falar como se não houvesse nenhuma opção intermediária entre os dois opostos. Assim, quanto mais radical for um partido de direita, mais o partido de esquerda poderá dizer que a opção a esse radicalismo é a extrema-esquerda. De igual forma, quanto mais radical for o partido de esquerda, mais o de direita poderá usar a mesma retórica.

Nessa estratégia, é possível ganhar muito “voto útil”, isto é, o voto de quem não gosta de nenhum dos extremos, mas escolhe um deles para se livrar do outro. Além disso, a manutenção de um maniqueísmo político auxilia na distorção da realidade. Assim, o lado que parecer mais monstruoso ao eleitor acabará tornando desculpáveis todos os erros do lado oposto. Cabe aos dois partidos, então, capitalizarem em cima dos erros um do outro, a fim de tornarem-se heróis para seus eleitores.

Um dos efeitos da estratégia das tesouras é o policiamento de quem quer pensar de modo independente, sem aderir a nenhum dos lados. Adeptos dos dois lados dirão a essa pessoa precisa escolher ou o lado A ou o lado B. Não escolher nenhum já é ficar do lado errado (que para o A é o B e para o B é o A).

É claro, existem situações em que não há meio termo. Não é possível ser contra o aborto e a favor ao mesmo tempo. Não é possível ser cristão e ateu ao mesmo tempo. No entanto, o que um adepto da estratégia das tesouras faz é afirmar que isso é verdade para todas as situações da vida. Essa é uma maneira de obrigar a todos a defender ou o lado A ou o lado B, sem jamais considerar que podem haver outras opções.

Não sei porque a estratégia das tesouras tem esse nome. Suponho que a expressão faça alusão as duas lâminas de uma tesoura. Quando a tesoura está aberta, as duas lâminas estão em oposição. No entanto, na medida em que fechamos a tesoura, percebemos que as duas lâminas se unem para cortar tudo o que está entre elas. É exatamente isso o que os partidos que se utilizam da estratégia fazem: cortam todas as opções que estão além do lado A e do lado B. O leitor atento lembrará de vários casos ao longo da história: jacobinos x girondinos, bolcheviques x mencheviques, trotskistas x stalinistas, terroristas marxistas x militares positivistas, petistas x psdebistas, lulistas x bolsonaristas. A estratégia é eficaz.

Mas o intuito desse texto não é falar sobre política. Faço uso do conceito de “estratégia das tesouras” para aplicá-la a outro campo: o eclesiástico. Na esfera da igreja, também é possível ver o uso da estratégia das tesouras. E quem mais a utiliza é o próprio Satanás. Lewis explica isso com maestria em Cristianismo Puro e Simples. Falando sobre dois erros opostos que o cristão não deve cair, afirma:

“Sinto o forte desejo de lhe dizer — e acho que você sente a mesma coisa — qual dos dois erros é o pior. Essa é a estratégia do diabo para nos pegar. Ele sempre envia ao mundo erros aos pares — pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tentativa de adivinhar qual deles é o pior. Sabe por quê? Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto. Mas não nos deixemos enganar. Temos de manter os olhos fixos em nosso objetivo, que está bem à nossa frente, e passar reto no meio de ambos os erros. Nem um nem outro nos interessam”.

Isso é a mais pura estratégia das tesouras. Em termos de igreja, um dos conflitos mais comuns que o Diabo usa é este: tradicionalistas x progressistas. E é sobre isso que desejo falar nesse texto, focando na Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Os Tradicionalistas

Comecemos pelos tradicionalistas. São aqueles que se preocupam mais com a manutenção de certas tradições do que com uma avaliação bíblica e racional da validade das mesmas. Creem veementemente que o afastamento dessas tradições conduz o crente ao relativismo, ao mundanismo e ao liberalismo teológico.

Historicamente, os tradicionalistas optaram por supervalorizar questões triviais ligadas a usos, costumes, vestimenta, música, instrumentos musicais e liturgia. Ao mesmo tempo, deram pouca ênfase ao ensino sério de exegese e hermenêutica, a uma apologética profunda, ao estudo da lógica e a uma análise ampla de questões sociais atuais à luz dos princípios bíblicos. Fecharam-se em discussões pouco úteis e relevantes.

O tradicionalista age como se fosse bíblico, inquestionável e essencial para a Igreja lutar contra mulher de calça no culto, pregador sem terno e gravata, bateria no louvor, membro indo ao cinema, membro ouvindo e cantando músicas com ritmos mais modernos que os do hinário, membro torcendo para um time de futebol, etc. Discussões sobre esses temas por vezes geram muito mais interesse em tradicionalistas do que uma discussão teologicamente mais densa e útil.

Muitos dos jovens de igreja que foram nutridos com discussões a respeito de bateria no culto e proibição de cinema entraram na faculdade anos depois e tiveram de lidar com questões muito mais complexas. Acabaram tendo sua fé enfraquecida não por baterias ou cinemas, mas pelo marxismo, pelo feminismo, pelo movimento LGBT, pelo identitarismo, pelo freudismo, pelo materialismo, pelo cientificismo, pelo hedonismo, pelo sexo livre, pelo álcool, pelas drogas, por Nietzsche, Foucault, Marcuse, Hawking, Russell, Sagan e Beauvoir. Quantos tradicionalistas não entupiram os filhos de regras e discussões sem base bíblica e sentido lógico para depois vê-los saindo da Igreja? Quantos tradicionalistas não passam a vida focando em questões pequenas, mas possuem sérias dificuldades de interpretação da Bíblia e de defesa das doutrinas básicas da fé? Eis a tragédia tradicionalista.

O tradicionalista também tende a desprezar o princípio bíblico-protestante do Sola Scriptura. No caso adventista, isso é agravado pelo mau uso dos escritos da profetisa Ellen White. Embora a mensageira adventista defendesse veementemente o Sola Scriptura, o compromisso do tradicionalista com as tradições faz com que ele relativize o princípio, interprete mal os escritos de Ellen White, force essa interpretação sobre a Bíblia e a imponha sobre os irmãos. Desse procedimento surgem as piores heresias no seio do adventismo (como a Teologia da Última Geração, por exemplo).

A deficiência interpretativa também é uma marca do tradicionalista. Ele tende a ver o que está na Bíblia e em Ellen White como o mais literal e atemporal possível, não se preocupando muito em analisar contextos. A exceção fica por conta de textos que, lidos de modo literal e atemporal, poderiam se chocar com tradições acalentadas. Neste caso, é feito um esforço interpretativo maior para salvar a tradição.

A dificuldade de interpretação do tradicionalista se revela também no uso constante do método texto-prova, onde passagens descontextualizadas e são citadas sem nenhuma explicação, com o intuito de provar, pelos simples textos, algum ponto. Esse método não é exclusividade do tradicionalista, mas é parte importante da teologia dessa ala da igreja.

Finalmente, o tradicionalista tende a alimentar vícios como o exclusivismo, o chauvinismo, o ufanismo e o legalismo. Dessa maneira, ele dá aos crentes das outras denominações a impressão de que a IASD ensina a salvação pelas obras e a noção de que fora da IASD não há salvação – jogando por terra toda a herança protestante que moldou a doutrina oficial adventista.

Os Progressistas

Passemos aos progressistas. São aqueles que se preocupam mais com a adaptação da Igreja às novas tendências e culturas ditadas pelo mundo secular do que com uma avaliação bíblica e racional da validade das mesmas. Creem veementemente que uma interpretação conservadora da Bíblia mantém o crente no obscurantismo, na ignorância, na intolerância e no farisaísmo. A Bíblia precisa ser reinterpretada e atualizada para se adaptar à teoria da evolução das espécies, à teoria marxista, às teses freudianas, à pedagogia freiriana, ao aborto, ao feminismo moderno, à revolução sexual, às ideologias identitárias, à prática homossexual, à prática poliafetiva, à ideologia de gênero, ao Black Lives Matters, aos desigrejados, ao sincretismo com religiões pagãs (em especial as afrodescendentes), à desconstrução do Tota Scriptura e ao liberalismo teológico. O Sola Scriptura, neste contexto, é rechaçado sob a justificativa de que a letra pura e simples não dá conta da complexidade do mundo. A Igreja, por sua vez, é vista como uma instituição propagadora de preconceitos e tolices, devendo ser duramente criticada e remodelada à luz de nossos avanços como sociedade.

O progressista como se sexualidade, justiça social e erros cometidos pela Igreja fossem os únicos assuntos que precisam ser discutidos. Doutrina, apologética, homilética, regras básicas de exegese, escatologia, soteriologia, etc. são dispensáveis, pois a Igreja precisa focar no diálogo com a cultura, as tendências e os anseios do mundo secular contemporâneo. As discussões sobre sexualidade, justiça social e erros da Igreja, por sua vez, devem ocorrer dentro de cosmovisões e moldes mais seculares do que bíblicos. Ou seja, não é a Bíblia que deve ser aplicada à realidade atual. É a realidade atual que deve servir de ponto de partida para reavaliar a Bíblia. O que, portanto, é inadmissível para o mundo hoje passa a ser inadmissível para o crente. E o que é admissível para o mundo hoje passa a ser admissível para o crente. A Bíblia, nesse processo, apenas é moldada.

Uma forma de fazer essa moldagem com uma aparência de piedade é colocando Jesus como “a chave hermenêutica” da Bíblia. A ideia é dizer que a Bíblia precisa ser interpretada com base no “espírito de Jesus”, isto é, na sua postura de amor, tolerância e respeito. Obviamente, as definições de amor, tolerância e respeito serão impostas pelo próprio progressista, com base não na Bíblia, mas na cultura contemporânea. Assim, o “espírito de Jesus” passa a aceitar o que o mundo diz ser correto e a rejeitar o que o mundo diz ser errado. Consequentemente, a Bíblia, interpretada por esse Jesus progressista, refletirá os ideais do mundo.

Um passo adiante de muitos progressistas é dizer que Jesus é a Palavra de Deus, não a Bíblia. Este passo é uma preparação para o liberalismo teológico, que acredita poder descobrir o que é Palavra de Deus dentro da Bíblia e o que não é. O liberalismo criou, ao longo dos séculos 18, 19 e 20, uma horda de teólogos descrentes em pilares da fé cristã como o nascimento virginal, a morte vicária de Jesus e a ressurreição. Muitos desses teólogos se tornaram deístas, agnósticos e ateus.

O progressista também tem deficiências interpretativas. Ele alegoriza textos cujo estilo não é alegórico. Tende a ver o que está na Bíblia e em Ellen White como o mais simbólico e temporal possível, sem muita preocupação com regras básicas de interpretação. Impõe suposições históricas sobre determinados textos bíblicos para fugir à interpretação mais natural dos mesmos. Ergue padrões ilógicos com aparência de científicos para julgar os textos. Imputa às passagens bíblicas noções atuais, num terrível anacronismo. Usa de criticismo unilateral e vicioso. E procura mesclar teorias de ciências sociais com a doutrina bíblica. Em relação a este último ponto, a Bíblia logo passa a ser mero apetrecho de alguma filosofia sócio-político-econômica. É daí que surgiram a Teologia da Libertação, na Igreja Católica, e a Teologia da Missão Integral, nas igrejas protestantes.

Como já dito, o Sola Scriptura também é negado pelo progressista. Até porque não existe Sola Scriptura sem Tota Scriptura. A partir do momento em que a Bíblia não é mais totalmente inspirada, a própria Palavra de Deus, ela também não pode ser a única regra de fé, prática e doutrina. A Bíblia, para o progressista, não é o guia para a vida. O guia para vida é a sua própria versão de Jesus, com a qual ele pode interpretar a Bíblia de modo mais atualizado, rechaçando aquilo que não se amolda ao mundo secular.

Ellen White, para o progressista, não tem muito valor. Se para o tradicionalista, a mensageira é tão importante que chega ao mesmo patamar da Bíblia, para o progressista muitas vezes nem é vista como profetisa. Assim, os escritos da mensageira não tem nenhum poder para ajudar progressistas a se voltarem para a Bíblia.

A falta de interesse do progressista em doutrina e a sua hermenêutica pautada na cultura o levam muitas vezes para longe das doutrinas e interpretações distintivas da IASD. O resultado é um adventismo desfigurado, que já não se diferencia em quase nada de outras denominações, não tendo muita razão de existir.

Finalmente, o progressista tende a alimentar vícios como o relativismo da moral e da verdade, o desprezo à teologia e à doutrina, a supervalorização das pautas sociais, a politização do evangelho, o ecumenismo, o sincretismo, a libertinagem sexual, a falta de compromisso com a Igreja, a deturpação da Bíblia e a substituição da mensagem cristã por alguma militância social.

A tesoura de Satanás

Com os extremos tradicionalista e progressista nas mãos, Satanás faz a festa com a estratégia das tesouras. Os dois grupos frequentemente falam e agem como se não existisse nenhuma outra opção além deles. De um lado, tradicionalistas defendem suas tradições sem base bíblica e sem lógica apelando para o risco do liberalismo. Taxam de liberal qualquer um que discorde de um ou mais pontos secundários das pautas de usos, costumes, música e liturgia. Consideram os menos tradicionais como sendo o grande problema da igreja e não veem seus próprios erros. A mensagem é clara: contra os progressistas e a favor da saúde da igreja a única opção é o tradicionalismo.

De outro lado, progressistas defendem suas interpretações antibíblicas apelando para a necessidade de superar o tradicionalismo. Taxam qualquer um que tenha uma teologia bíblica mais conservadora como fundamentalista. Consideram os mais e tradicionais como sendo o grande problema da igreja e não veem seus próprios erros. A mensagem é clara: contra os tradicionalistas e a favor da saúde da igreja a única opção é o progressismo.

Cada qual procura posar de herói contra o grande vilão, que é o grupo oposto. E as rotulações, claro, precisam se manter constantes: ou você é progressista ou você é tradicionalista. Se discordar de um, já aderiu ao outro. E o processo se expande para os subtópicos de cada ala. Segundo o progressismo, se você não é feminista, é machista. Se não concorda com os métodos do Black Lives Matters, é racista. Para o tradicionalismo, idem. Se não colocar Ellen White no mesmo patamar da Bíblia, não crê nela. Se não faz um discurso exclusivista, ufanista e chauvinista em relação a IASD, não crê no conceito de remanescente. Não cabe nessa estratégia, óbvio, considerar que alguns adventistas escolherão uma terceira via, uma opção que não se enquadra nem no tradicionalismo, nem no progressismo; uma opção que pode concordar com alguns pontos de ambas as alas e também discordar de posições das duas.

Enquanto esse despertar é desencorajado pelas duas lâminas da tesoura de Satanás, as posições mais bíblicas e racionais permanecem sendo cortadas do debate. O cenário é tenebroso. Quando nos preocupamos com o progressismo libertino, rebelde, relativista e incrédulo entrando em nossas igrejas, a solução que muitos adventistas apresentam, em especial os mais velhos, são doses cavalares de tradicionalismo. Quando nos indignamos com o velho tradicionalismo legalista, ignorante, exclusivista e antibíblico que insiste em florescer em nossas igrejas, a solução que muitos adventistas apresentam, em especial os mais jovens, são doses cavalares de progressismo.

De um lado, “libera geral, tudo é permitido”. Do outro, “proíbe tudo, senão vai haver exagero”. De um lado, os escritos de Ellen White são uma Bíblia 2.0. Do outro, Ellen White nem profetisa foi. De um lado, legalismo. Do outro, graça barata. De um lado, foco em regras sobre a aparência. Do outro, falta total de modéstia. De ambos os lados, nada de Sola Scriptura, nada de teologia sólida, nada de equilíbrio naquilo que não pede uma posição extrema. Ou oito ou oitenta. Ou preto ou branco. A tesoura de Satanás tem feito um estrago. Não é hora de reagir?

O que fazer?

Se o leitor entendeu que a oposição tradicionalistas x progressistas é falsa, pois nos leva a tentar escolher um dos lados, aqui vão minhas considerações sobre o que fazer para combater os dois extremos.

Primeiro: não devemos deixar que nenhum dos dois lados tome a dianteira no combate ao outro extremo. Se deixarmos que progressistas sejam a vanguarda da luta contra o tradicionalismo, logo multidões de adventistas cansados do tradicionalismo verão no progressismo a posição correta e heroica. Da mesma forma, se deixarmos que tradicionalistas sejam a vanguarda da luta contra o progressismo, adventistas preocupados com o avanço progressista verão o tradicionalismo como sendo o verdadeiro adventismo do sétimo dia.

Segundo: não devemos deixar que os dois extremos nos rotulem. Tradicionalistas nos chamarão de relativistas e liberais. Mas eles mesmos são relativistas quando passam por cima da defesa que Ellen White faz do Sola Scriptura e liberais quando suas tradições não representam o que a doutrina diz. Progressistas nos chamarão de fundamentalistas e preconceituosos. Mas eles mesmos são fundamentalistas quando se apegam aos dogmas do mundo e preconceituosos quando ensinam a tolerância apenas aos seus pecadores preferidos.

Terceiro: devemos fazer a Igreja entender que os extremos se retroalimentam. O progressismo é, em grande medida, uma reação exagerada a problemas reais que existem no tradicionalismo. Da mesma forma, o tradicionalismo muitas vezes se desenvolve como uma forma radical de combater a escalada do progressismo. Extremos antibíblicos não se combatem com mais extremos antibíblicos. O antídoto é a Bíblia.

Quarto: devemos seguir o Sola Scriptura até as últimas consequências. O que nos afasta dos extremos do tradicionalismo e do progressismo é o apego a Bíblia como única regra de fé, prática e doutrina, e como sua própria intérprete. Tradições e cultura devem ser julgadas pela Bíblia Sagrada, sob as regras lógicas de interpretação textual e debaixo de uma comunhão humilde e sincera com Deus. O Sola Scriptura, portanto, é a ferramenta mais eficaz para desbancar as duas lâminas da tesoura de Satanás.

Quinto: devemos cuidar para também não criar um extremo, brigando com meio mundo e rotulando a todos. Para começar, Deus não nos chamou para ofender e magoar pessoas. Ele nos chamou para pregar a verdade com amor. Sim, a verdade às vezes fere. Mas que não sejamos nós a ferir os outros e sim a própria dureza da verdade lançada contra o pecado. Cabe a nós sempre tentarmos usar as melhores palavras, nos momentos mais apropriados e com as intenções mais puras. Lembremo-nos que tradicionalistas e progressistas são, antes de mais nada, seres humanos como nós. E até que se prove ao contrário, são irmãos em Cristo. Eles podem estar sendo usados por Satanás, mas quem nos garante que não estão sinceramente enganados? Nossa obrigação cristã é amá-los e ajuda-los a enxergarem a verdade.

Quanto à rotulação, notemos que não é sensato taxar alguém de tradicionalista ou de progressista por uma ou duas opiniões isoladas. Ninguém é progressista só porque acha que mulher pode usar calça no culto e que bateria não é do demônio. Da mesma forma, ninguém é tradicionalista só porque crê que as músicas do culto devem ser mais lentas e o pregador deve estar de roupa social. É preciso muito mais posições de um dos lados e uma postura muito mais radical para ser classificado como pertencendo a um ala extrema.

Manter isso em mente nos permite, inclusive, trabalhar com a possibilidade das diferenças. A unanimidade é impossível. Ainda que concordemos nos pontos centrais da fé cristã, protestante e adventista, sempre haverá pontos de divergência em questões menores. É possível conviver com isso. Há uma enorme zona cinzenta entre os extremos do tradicionalismo e do progressismo onde é possível discordar com respeito e continuar sendo um bom adventista.

Sexto: devemos evitar os extremos da mudança abrupta, feita a qualquer custo, e da resistência a mudanças necessárias. O primeiro extremo é o erro progressista. Ele vê, por exemplo, uma tradição extrabíblica e quer “enfiar o pé na porta”. No processo, acaba perdendo a razão, causando discórdia e adoecendo a Igreja. Falta sabedoria e amor pela congregação. O segundo extremo é o erro tradicionalista. Ele vê uma tradição e, ainda que não consiga sustenta-la pela Bíblia, defende sua manutenção para não “escandalizar os que ainda creem nela”.

Embora realmente a Bíblia nos ordene a não escandalizar os irmãos, ela também condena a imposição ou proibição de algo sem base bíblica. Nós, como igreja, deveríamos levar isso muito a sério, porque ao impor ou proibir coisas que não tem base bíblica, ferimos o Sola Scriptura, dando um mal testemunho para outras igrejas e para pessoas que estão estudando sobre a fé adventista.

Sugiro que a igreja local sempre avalie três pontos quando o assunto for a mudança ou não de uma tradição:

(A) O motivo de determinado irmão se sentir escandalizado com a quebra de certa tradição é razoável? Ele consegue fazer uma argumentação bíblica coerente em prol daquela tradição?

(B) O incômodo que determinado irmão sente diante da quebra de certa tradição é suficiente para fazê-lo pecar ou sair da fé?

(C) É possível instruir esse irmão biblicamente, mostrando que tal tradição não é bíblica e que, portanto, pode ser quebrada?

(D) A tradição extrabíblica, se mantida, será motivo de escândalo para outros irmãos da congregação, outras congregações e pessoas que querem entrar nessa igreja?

A depender das respostas a essas perguntas, a igreja local tem como saber se e quando deve se importar com a mudança de uma tradição. Se essas questões não forem tratadas, o resultado é uma igreja que se acostuma a manter tradições extrabíblicas como se fossem regras bíblicas, sem nunca querer ou ter coragem de mudar – algo que Jesus muito condenou nos fariseus. Além disso, a Igreja deixa de crescer em conhecimento teológico e interpretação bíblica, e termina plantando as para reações exageradas por parte de pessoas que discordam.

Todos nós devemos aprender a receber confrontação bíblica constantemente, em vez de agirmos como “flocos de neve” que se escandalizam por tudo. Isso vale para os tradicionalistas e para os progressistas. Todos tem que ter base bíblica. Se não possuem base bíblica para algo, precisam deixar de lado o vício de impor ou proibir esse algo aos outros. Em vez de manter todo o tipo de tradição extrabíblica sob a justificativa de não escandalizar, criando uma classe tradicionalista mimada e de espírito católico, a Igreja deve lidar com as tradições de modo bíblico e protestante. Sola Scriptura!

De maneira prática, penso que quando uma tradição é questionada na igreja local, reunir a igreja local para estudar o tema, investir em pregações a respeito, etc. Igreja serve para isso mesmo: instruir os membros. Essa postura vai contra o extremismo dos dois lados. Se a igreja local se reúne para estudar biblicamente a necessidade de manter ou não uma tradição, cai a postura tradicionalista de não aceitar mudanças e cai a postura progressista de tentar mudar as coisas de modo abrupto, agressivo e ofensivo. No lugar fica a postura de estudar a Bíblia para ver o que ela ensina.

Sétimo: devemos entender que a igreja não é formada apenas por tradicionalistas e progressistas. Grande parte da igreja é formada por pessoas que não tem uma posição definida e pouco ou nada sabem de toda essa discussão. São aqueles que eu chamo de amorfos, pois não possuem forma específica. E há um grupo de pessoas que sabe dessas problemáticas, mas que se mantem calado. Esse último grupo é indiretamente responsável pela adesão do grupo amorfo aos extremos. A pergunta que faço ao leitor é: você faz parte do grupo que se cala? Se sim, reflita se não é hora de ajudar a igreja a se livrar da tesoura de Satanás. Não deixe que seus irmãos sejam empurrados de um lado para o outro, sem chance de aportar no lado bíblico. Ame o seu próximo e ame a Igreja.