Disponibilizamos neste post uma pesquisa realizada por Vanessa Meira e Isaac Malheiros a respeito das alegações teológicas dos feminismos. Abaixo segue um trecho da introdução da pesquisa. O pdf pode ser baixado ao fim do post. Boa leitura!

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Considerações Iniciais e Metodologia

Esta é uma pesquisa bibliográfica que fará uma apresentação panorâmica e uma avaliação de conceitos teológicos dos feminismos sob uma perspectiva cristã adventista. Para isso, em cada tópico haverá um breve histórico dos conceitos teológicos feministas e uma avaliação teológica sistematizada dos principais temas. Esta pesquisa foi motivada pelo interesse profissional e particular dos autores – ambos professores, pesquisadores em teologia, e cristãos1 -, e, a princípio, deveria ser um material para orientação pastoral de jovens (por isso, a linguagem utilizada nem sempre é acadêmica).

Inicialmente, é importante reconhecer que as autoras feministas chamam a atenção para a dor real que as mulheres experimentam regularmente, e denunciam problemas sérios que precisam ser abordados. Elas também descrevem experiências pessoais negativas com as instituições religiosas e suas lideranças.

O feminismo tem razão histórica para existir. Ao avaliar a história dos movimentos feministas é preciso levar em conta a realidade da situação das mulheres, especialmente nos séculos XVIII e XIX. Em geral, os problemas eram/são reais e as demandas eram/são justas, como reconhece a ex-feminista Carolyn McCulley:

Acontece que o feminismo está parcialmente certo. Os homens pecam. Eles podem diminuir as realizações das mulheres e limitar a liberdade delas por razões egoístas. […] O feminismo não surgiu por causa de ofensas fabricadas. Como disse certo teólogo, é compreensível, humanamente falando, por que esse movimento emergiu.2

Os movimentos feministas identificaram e denunciaram problemas reais, mas, em geral, atingiram a fé cristã no seu fundamento: a Bíblia. O fato de os movimentos de emancipação femininos terem trazido algum benefício histórico e prático às mulheres não pode significar que as mulheres cristãs devam lealdade irrestrita aos feminismos contemporâneos:

Precisamos entender como esse movimento surgiu e quais têm sido seus objetivos, porque esses são agora as premissas de nossa cultura. Também precisamos reconhecer que algum bem adveio dele. Havia algumas sérias desigualdades que foram mudadas pelo movimento feminista. Sou grata pelos ganhos a curto-prazo, mas as consequências a longo prazo são profundas e precisam ser examinadas à luz da visão de mundo do feminismo.3

Nesta pesquisa, respeitamos as denúncias e as experiências das autoras feministas com o sexismo, mas o que nos interessa aqui são os seus argumentos e sua relação com a Bíblia. O fato é que a vida cristã deve estar fundamentada solidamente nas Escrituras, não em relatos emocionais que causem tristeza, comoção ou revolta. Esperamos que essa objetividade na análise não seja confundida com insensibilidade.

Outro reconhecimento inicial importante é que as críticas cristãs ao feminismo nem sempre têm sido honestas. A história dos movimentos de emancipação das mulheres é cheia de fases e vertentes, com diferentes pressuposições e diversas propostas. Qualquer tentativa de descrever e sistematizar esses movimentos de maneira reducionista poderá ser injusta. Seria descrever e classificar um “organismo vivo”, em constante mutação, como se fosse um fóssil.

Portanto, é um erro avaliar o feminismo como se fosse um bloco só, um discurso uníssono, e conclusões generalizantes podem ser injustas. Assim, vamos nos referir muitas vezes aos movimentos de emancipação de mulheres como “feminismos” (no plural), e buscar avaliar autoras consideradas representativas, cânones da teoria feminista, vozes que são ouvidas pelos feminismos em geral. Além disso, mudanças no discurso feminista majoritário sobre determinados assuntos serão levadas em conta.

Algumas citações de feministas frequentemente aparecem em críticas cristãs ao feminismo, mas foi possível perceber que algumas delas são distorcidas, e algumas sequer foram localizadas nesta pesquisa (parecem ter sido inventadas ou atribuídas a autores errados). Para evitar esse problema, na medida do possível, vamos citar fontes primárias e manter as citações diretas para que a posição de cada autor(a) seja exposta em suas próprias palavras. Todas as traduções das fontes primárias foram feitas pelos autores desta pesquisa.

Os temas teológicos avaliados não foram escolhidos a priori, mas brotaram naturalmente da leitura dos textos feministas. Muitos outros temas poderiam ter sido avaliados (eclesiologia, pneumatologia, antropologia etc), mas esta pesquisa vai se concentrar nos que foram apontados mais claramente na bibliografia feminista consultada.

Ademais, esta pesquisa busca avaliar as posições básicas defendidas por quase todas as principais vertentes ao longo do tempo. Por exemplo, é quase impossível avaliar os feminismos sem lidar com a teoria do patriarcado. Apesar de haver divergências entre as feministas sobre a origem e a extensão do patriarcado, dificilmente alguém pode se considerar feminista sem acreditar na existência dele e na suposta extensão de seus efeitos negativos.

Como fica evidenciado nesta pesquisa, a teoria do patriarcado, central para os feminismos, desafia a Bíblia em doutrinas fundamentais.4 Desafia a Palavra de Deus na sua própria origem, descrevendo a própria Bíblia como um produto e um instrumento do patriarcado. Além disso, os movimentos feministas têm incentivados atitudes e exaltado valores contrários à Bíblia.5

A farta utilização de textos de Ellen G. White neste trabalho explica-se por dois fatores: 1) pelo fato de ser uma liderança religiosa feminina do século XIX (coincidente com o surgimento da Primeira Onda); 2) por ser uma voz adventista relevante no campo da teologia. Finalmente, o objetivo principal desta pesquisa é fornecer subsídios para ajudar mulheres e homens cristãos a responderem de forma madura à pergunta: é possível ser feminista sem fazer uma revisão radical das Escrituras e sem negar ou alterar doutrinas essenciais?

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1 Vanessa Meira é professora de Pedagogia, Mestra e Doutoranda em Teologia. Isaac Malheiros é professor de Teologia e Doutor em Teologia.

2 MCCULLEY, Carolyn. Feminilidade Radical: fé feminina em um mundo feminista. São Paulo: Editora Fiel, 2017. p. 37.

3 MCCULLEY, 2017, p. 39.

4 Ao longo desta pesquisa, foi possível perceber diferentes usos do termo “patriarcado”, especialmente de dois tipos: 1) para referir-se a um sistema de autoridade familiar paterna no lar; e 2) para descrever um sistema estrutural mais amplo de dominação masculina sobre as mulheres na sociedade em geral. A teoria feminista entende patriarcado como 2). Na teoria feminista do patriarcado, 2) é evidenciado por 1), e 1) fortalece e perpetua 2). No entanto, a teoria do patriarcado não é um consenso. Há evidências de que 1) pode enfraquecer 2), e há evidências de que mulheres podem usar 1) a seu favor. Além disso, há evidências de que fatores biológicos podem explicar o que a teoria feminista insiste em atribuir exclusivamente a fatores socioculturais. Outro fator que vai contra o uso da teoria do patriarcado é o pós-estruturalismo, à medida que significados universais e metanarrativas foram questionados. Além disso, a ascensão do gênero como categoria analítica na teoria feminista pós-estruturalista e o foco na construção cultural da feminilidade e masculinidade também desafiaram a ideia de que há uma identidade, uma consciência e uma ação comum entre homens (uma masculinidade unida) e uma feminilidade compartilhada por todas as mulheres em diferentes épocas, culturas e classes sociais. A teoria do patriarcado tem sido pressionada a ser mais interseccional, incorporando ou abrindo espaço para outras categorias de análise, como classe e raça, pois um modelo simples de “homens oprimindo mulheres” não seria capaz de explicar tudo (PIERIK, Bob Thomas. A History of Patriarchy? Dissertação (Mestrado). Leiden: Leiden University, 2018. Disponível em: <http://tiny.cc/644miz>. Acesso em 12 jan. 2020). Para uma bibliografia introdutória a respeito de tais discussões, ver: WALBY, Sylvia. Theorizing Patriarchy. Oxford: Blackwell, 1990 (livro digitalizado disponível em:

<http://tiny.cc/h74miz>. Acesso em 12 jan. 2020); WALBY, Sylvia. Theorising Patriarchy. Sociology,

v. 23, n. 2, p. 213-234, 1989. Disponível em: <http://tiny.cc/684miz>. Acesso em 12 jan. 2020; FOORD, Jo; GREGSON, Nicky. Patriarchy: Towards a Reconceptualisation. Antipode, v. 18, n. 2, p.186-211, 1986. Disponível em: <http://tiny.cc/pa5miz>. Acesso em: 12 jan. 2020; FOORD, Jo; GREGSON, Nicky. Patriarchy: Comments on Critics. Antipode, v. 19. n. 3, p. 371-375, 1987. Disponível em:

<http://tiny.cc/dd5miz>. Acesso em 12 jan. 2020; SMUTS, Barbara. The Evolutionary Origins of Patriarchy. Human Nature: An Interdisciplinary Biosocial Perspective, v. 6, n. 1, p. 1-32, 1995. Disponível em: <http://tiny.cc/kf5miz>. Acesso em 12 jan. 2020; LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019; SAX, Leonardo. Por que gênero importa? São Paulo: Editora LVM, 2019.

5 KASSIAN, Mary A.; DEMOSS, Nancy Leigh. Mulher: sua verdadeira feminilidade (Design divino). São Paulo: Shedd Publicações, 2015. p. 140, 141, 143.

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