Por Davi Caldas

Respondi uma questão interessante essa semana na postagem de um amigo. Ele perguntava se é realmente possível entender a Bíblia, tendo em vista que teólogos, usando as mesmas ferramentas, chegam a interpretações diferentes. Creio que essa é uma pergunta que muitos já se fizeram. Então, acho válido colocar aqui o que respondi a respeito (com alguns pequenos acréscimos). Vou separar por pontos.

Primeiro: nem sempre os teólogos fazem uso de todas as regras lógicas de interpretação existentes. Para textos mais simples, isso frequentemente não causa problemas, pois o sentido do texto é mais claro. Porém, para textos mais complexos, não usar todas as regras pode fazer falta.

Que regras são essas? Eu conheço sete: análise do contexto temático, do contexto histórico-cultural, do contexto estilistico, do contexto idiomático, do contexto teológico, do contexto moral e do contexto lógico. E algumas dessas possuem níveis. Por exemplo, o contexto temático vai desde a avaliação dos parágrafos imediatamente anteriores e posteriores à passagem lida (nível básico) até a avaliação do capítulo inteiro, dos capítulos anteriores e posteriores, do livro todo, da relação do livro com a Bíblia, da relação do livro com documentos da época, da análise de autores que foram (ou podem ter sido) influência para o autor bíblico, etc. Esses são os níveis só da primeira regra. Ou seja, a interpretação de um texto difícil exige bastante estudo.

Segundo: há textos que são mais claros e outros que são mais obscuros. No geral, as divergências (ou, pelo menos, as divergências maiores) ocorrem em torno de textos mais obscuros. Isso é bastante natural. Não é correto, portanto, a visão de que a Bíblia toda seria feita apenas de textos difíceis e que, por isso, nenhuma concordância ampla é formada entre seus crentes. Há muitos textos simples na Bíblia que a maioria dos crentes interpreta de modo igual ou parecido.

Terceiro: os pontos mais importantes da Bíblia são justamente os mais claros, motivo pelo qual a maioria dos cristãos concorda nos principais pontos da fé. Se você pegar as dez maiores igrejas cristãs do mundo (em número de membros) ou as dez mais antigas, verá que elas possuem uma espinha dorsal, um núcleo duro, um conjunto básico de crenças e práticas que são comuns. Pense, por exemplo, em igrejas protestantes já bem conhecidas e consolidadas como a luterana, a anglicana, a presbiteriana, a batista, a metodista, a assembleia de Deus, a adventista, a quadrangular, a Deus é amor, etc. A despeito das divergências interpretativas em muitos pontos, todas elas crêem nas mesmas verdades principais. Vejamos algumas.

Inspiração divina da Bíblia, existência de um só Deus, natureza triuna de Deus, divindade de Jesus, personalidade do Espírito Santo, criação do mundo por Deus, queda, pecado, promessa de um Messias, nascimento virginal de Jesus, messiandade de Jesus, morte vicária, ressurreição corpórea e ascensão de Jesus, salvação pela graça mediante a fé, necessidade de andar em santidade, necessidade de orar, leis morais, amor a Deus e ao próximo como essência das leis morais, batismo de conversos, prática da santa ceia, formação da Igreja, necessidade de pregar o evangelho, futura volta de Cristo, destruição de pecado e ímpios, instauração de novos céus e nova terra, vida eterna para os salvos. Além disso, no caso específico das igrejas protestantes, há a crença comum nos 5 Solas da Reforma: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fide e Soli Deo Gloria.

Mesmos as diferentes igrejas orientais e ortodoxas, e a igreja católica romana comungam da maior parte desses pontos supracitados, em que pese um número maior de divergências em relação aos protestantes. Ainda assim os pontos de convergência são muitos e em questões bastante centrais, o que parece indicar que o básico da Bíblia é acessível a todos.

Quarto: imparcialidade absoluta (ou neutralidade absoluta) não existe. Toda análise de texto ou de mundo é influenciada em maior ou menor grau pelo conjunto de conhecimentos, experiências, emoções, prioridades, valores, gostos, habilidades e limitações do intérprete. Ou seja, há um nível de parcialidade e subjetivismo em qualquer análise.

Agora, isso não quer dizer também que a parcialidade e o subjetivismo sejam absolutos. Esse é o erro das hermenêuticas pós-modernas. O pós-modernismo é, em grande medida, uma resposta ao modernismo. No modernismo, os intérpretes acreditavam que poderiam interpretar a Bíblia por métodos absolutamente neutros. Paradoxalmente, já abordavam a Bíblia com vários pressupostos, como o de que inspiração e milagres eram mitos. A falência dos métodos modernistas de interpretação levaram à resposta extrema do pós-modernismo: já que a neutralidade é impossível, cada um tem sua própria verdade e não é possível chegar à verdade última do texto. São dois extremos desnecessários.

As interpretações podem e devem gozar de alto grau de objetivismo. Lemos e escrevemos com essa expectativa. Nos esforçamos para entender e sermos entendidos. E uma vez que isso ocorre com frequência, fica claro que um alto grau de objetivismo é possível. Para alcançar isso, o intérprete deve se esforçar para não permitir que seu subjetivismo seja grande o suficiente para distorcer as conclusões daquilo que se lê. E é para está razão que as regras lógicas e básicas de interpretação existem. O esforço para ser fiel a elas, portanto, garante interpretações mais fidedignas.

Quinto: mesmo nos textos mais difíceis, quando as regras de interpretação são rigidamente seguidas, a tendência é que reste apenas um número pequeno de interpretações plausíveis. E em temas de menor importância, não existe qualquer problema em haver divergências de opinião ou mesmo de não abraçar nenhuma posição de modo dogmático. Talvez aqui caiba a frase famosa, atribuída a autores diferentes, que eu parafraseio assim: “No central unidade; no periférico, liberdade; em tudo, caridade”.