Por Davi Caldas

Aproveitando o mês de outubro, quando se comemora a Reforma Protestante, julgo interessante desfazer um dos maiores mitos propagados por muitos católicos romanos, em especial na internet. Trata-se do mito de que o Protestantismo seria extremamente dividido e desunido, com suas “mais de 30 mil seitas que discordam entre si”. Esse discurso é muito comum e creio que qualquer um que tenha adentrado o mundo dos estudos teológicos e apologéticos já se deparou com essa argumentação. Se o leitor tem esse perfil e nunca debateu com um católico respeito, provavelmente o leitor é esse católico. 

Brincadeiras à parte, a questão central que este artigo levanta e tenta responder é: há unidade no Protestantismo? Para responder a essa questão, este artigo será dividido em quatro partes: (1) Divisões doutrinárias, (2) Divisões Missionárias, (3) Divisões Administrativas e (4) Cristianismo antes e depois de Lutero. Em cada uma dessas partes serão respondidas questões importantes para entender o quadro central. 

1. Divisões Doutrinárias

Em todas as vezes que debati este tema da unidade protestante com os irmãos católicos, o discurso fazia parecer que não só há milhares de denominações protestantes, mas que a doutrina de cada uma é totalmente diferente. Talvez essa noção faça muito sentido na mente de católicos que jamais tiveram uma real vivência no cotidiano cúltico protestante. Quem, como eu, nasceu em lar protestante, tem amigos de diversas denominações e já visitou muitas igrejas, sabe que isso está longe de ser realidade. 

Vamos aos fatos: todos os protestantes (ou, pelo menos, a maioria esmagadora deles) creem nas mesmas doutrinas básicas. Doutrinas básicas são aquelas crenças e práticas fundamentais da fé cristã bíblica. É o que define um cristão protestante. Que doutrinas são essas? Eis um resumo:

(1) Bíblia como única regra de fé e prática do crente (Sola Scriptura), (2) Bíblia de 66 livros, (3) Existência de um só Deus Criador de tudo, (4) Triunidade Divina, (5) Queda do Ser Humano em Pecado, (6) Existência do Pecado, (7) Existência de Valores Morais, (8) Promessa de um Messias para resolver o problema do Pecado, (9) Encarnação do Filho de Deus, (10) Messiandade de Jesus, (11) Nascimento Virginal de Jesus, (12) Morte vicária de Jesus na cruz, (13) Ressurreição física de Jesus ao terceiro dia, (14) Ascenção de Jesus ao céu, (15) Jesus como único e suficiente salvador e mediador entre o Pai e os homens (Solus Christus), (16) Salvação pela graça mediante a fé (Sola Gratia e Sola Fide), (17) Reconhecimento de que só Deus é digno de toda a glória, (18) Dever do Batismo, (19) Dever da Santa Ceia, (20) Dever de congregar, (21) Sacerdócio universal de todos os santos, (22) Dever de andar em santidade (cumprindo preceitos morais bíblicos), (23) Casamento como instituição monogâmica e heterossexual, (24) Futuro retorno de Jesus, (25) Juízo Final. 

Como podemos provar que realmente todos (ou, pelo menos, a maioria) dos protestantes creem nisso? Uma maneira simples é recorrendo aos censos. Pelos censos podemos descobrir quais são as igrejas com maior número de membros e então investigar a doutrina dessas igrejas. A título de exemplo, coletei algumas informações do IBGE, publicadas em 2010, a respeito do perfil religioso do brasileiro. Dos evangélicos, podemos averiguar as seguintes informações: 

Pois bem, se o leitor entrar no site de cada uma dessas igrejas ou, no caso das mais antigas, procurar a literatura denominacional das mesmas, perceberá que todas elas comungam dos pontos básicos que listei há pouco. 

Claro, o leitor mais atento perceberá que há o grupo “Outras” ali, além de um “Não determinada”. O grupo “Outras” se refere a igrejas menores que somam um percentual de membros muito pequeno para entrar individualmente na lista. O grupo “Não determinada” muito provavelmente abarca pessoas que se consideram evangélicas, mas não frequentam nenhuma igreja, ou que frequentam uma igreja sem ser membros, ou até que frequentam diferentes igrejas sem pertencer formalmente a nenhuma delas. É o grupo geralmente chamado de “desigrejado”.

Como não sabemos qual a doutrina desses grupos, poderíamos supor que todos eles discordam de uma ou mais das doutrinas básicas, somando assim 35% dos evangélicos, uma proporção considerável.

Entretanto, há dois pontos a observarmos aqui. Primeiro: é matematicamente improvável que a totalidade desses 35% discorde das doutrinas básicas. Por exemplo, dentro do grupo “Outras” há igrejas como a Internacional da Graça de Deus e a Mundial do Poder de Deus, que embora possuam pontos muito questionáveis em suas doutrinas (assim como a Igreja Universal do Reino de Deus), creem nos pontos básicos que estamos trabalhando. De igual maneira, eu poderia listar muitas igrejas de menor porte que conheço, que estão neste grupo “Outras” e que também comungam das crenças básicas.

Segundo: não faz muito sentido contar desigrejados como uma denominação protestante. Eles são cristãos não ligados a nenhuma igreja local e, portanto, não dependentes de qualquer movimento. Logo, se alguns (ou muitos) deles mantiverem uma teologia muito divergente dos pontos centrais da fé bíblica, isso é erro exclusivo deles e não das congregações formais. 

Terceiro: à exceção daqueles que estão procurando uma igreja nova e que reconhecem ser fundamental congregar, os desigrejados negam um dos pontos básicos crido pelos protestantes: a necessidade de congregar. Logo, ao menos em um sentido pleno, não podem ser definidos como protestantes. 

Quarto: de igual maneira, se algumas igrejas que compõem o grupo “Outros”, negam alguns desses pontos básicos, não podem ser consideradas protestantes.

Corroborando com esses dois últimos fatos, vale lembrar que todas as igrejas mencionadas não consideram as Testemunhas de Jeová e os Mórmons como protestantes. E as próprias Testemunhas de Jeová, diga-se de passagem, também não se consideram parte do Protestantismo. Assim, podemos dizer com segurança que os protestantes possuem concordância quanto às doutrinas básicas.

1.2. Reconhecimento mútuo

É bem verdade, devemos salientar, que nem sempre há unanimidade entre as igrejas protestantes a respeito da classificação de alguma igreja como protestante ou não. Por exemplo, protestantes mais tradicionais não consideram as igrejas neopentecostais como protestantes. Para estes, portanto, igrejas como a Universal ou outras neopentecostais de menor porte não seriam protestantes, mas apenas evangélicas (ou algum outro termo). Há algumas igrejas ainda hoje que também não consideram a IASD como protestante. Ela seria, no melhor dos casos, restauracionista. E no pior dos casos, uma seita herética.

Essas divergências na classificação, longe de significarem falta de unidade doutrinária no Protestantismo, na verdade, apontam em outra direção: o zelo pelos pontos básicos. É pelo receio de que determinados grupos não creiam plenamente nos pontos básicos que os mais tradicionais os classificam como não protestantes. Desta forma, as doutrinas básicas permanecem intactas no movimento, e o movimento continua se caracterizando por elas. Isso não é diferente do que a ICAR fez durante toda a sua história: identificou como “não-católicos” os indivíduos e grupos com doutrinas diferentes para que não houvesse, dentro da mesma igreja, visões muitos divergentes. E eu nunca vi um católico dizer que esse procedimento indica falta de unidade por parte da ICAR. 

Em suma, quando uma igreja se afasta (ou dá a impressão de que se afastou) da espinha dorsal protestante, é normal e saudável que as igrejas mais tradicionais vejam essa igreja como algo à parte do Protestantismo. Cabe àquela igreja mostrar claramente que defende os pontos básicos e, se preciso for, se consertar em alguns tópicos. Por sua vez, cabe às igrejas mais tradicionais avaliarem com honestidade, precisão e amor a defesa que igrejas acusadas de heresia fazem de si mesmas.

No caso da IASD, só para esclarecer, há pelos menos quatro pontos que fazem algumas igrejas ainda a verem como não protestante: (1) sua origem problemática em termos doutrinários (algo reconhecido pela própria IASD); (2) o desconhecimento que muitos protestantes possuem a respeito da superação adventista de seus problemas teológicos iniciais e de seu desenvolvimento constante; (3) a repetição de mitos ao longo das décadas a respeito da IASD por parte de muitos protestantes, sem a preocupação de um estudo mais acurado que poderia corrigir tais mitos; (4) o mau testemunho de alguns (ou muitos) crentes adventistas de caráter mais legalista e exclusivista. Como resultado, a IASD ficou com uma aparência herética para muitos protestantes, dificultando sua aceitação.

Felizmente, movimentos de aproximação entre os adventistas e os demais protestantes se iniciaram a partir dos anos 1950 e continuaram nas décadas posteriores, mudando a visão de muitas igrejas a respeito da IASD. No Brasil, com o sucesso da TV Novo Tempo e a postura inclusivista de nomes como Rodrigo Silva, Leandro Quadros, Leonardo Gonçalves e Tiago Arrais (a despeito das divergências de opinião que temos com estes dois últimos nomes) tem gerado maior aproximação entre adventistas e protestantes em geral. 

A tendência é que cada vez mais os preconceitos e mal entendidos sejam desfeitos. E isso mais uma vez demonstra que há um núcleo doutrinário comum em torno do qual protestantes se reúnem e se reconhecem. Para que isto aconteça, basta estar claro para todos.

No caso da IURD e demais igrejas neopentecostais, as dificuldades de aceitação giram em torno de pontos como a Teologia da Prosperidade, a Teologia da Confissão Positiva, a desordem no culto e as denúncias constantes que a liderança da IURD recebe de explorar a fé dos mais simples para enriquecer.

Ainda assim, é inconteste que essas igrejas mantém as crenças básicas já citadas. A dúvida é se a teologia distorcida dessas igrejas não macula as crenças básicas de tal forma que as torna sem efeito. De toda a forma, mesmo que os sistemas e a maior parte dos líderes dessas igrejas não se enquadrem no protestantismo e sejam condenáveis, isso não pode ser aplicado indiscriminadamente a todos os seus membros. É perfeitamente possível que um sistema eclesiástico esteja corrompido e que ainda assim grande parte da membresia seja composta por crentes verdadeiros, piedosos e que sustentam as doutrinas básicas da fé cristã bíblica e protestante.

Em suma, talvez o sistema das igrejas neopentecostais não seja mais protestante. Contudo, essas igrejas abarcam protestantes que ainda não se deram conta disso. Muitos, cedo ou tarde, percebem e mudam para uma igreja mais bíblica. Outros permanecem no sistema corrompido, mas sem culpa, pois caminham na pouca luz e compreensão que possuem.

Então, resumindo o que vimos até aqui: (1) as igrejas protestantes concordam com as doutrinas básicas da fé; (2) os desigrejados não contam como uma denominação; (3) as igrejas que se afastam do núcleo comum de doutrinas fundamentais são vistas como à parte do Protestantismo. Assim, é possível dizer que há unidade doutrinária no movimento Protestante no que tange os pontos centrais. Em termos práticos, isso significa que em quase qualquer igreja evangélica em que o leitor entrar terá acesso à mesma doutrina básica que o protestantismo entende como bíblica.

1.3. Os pontos secundários

Neste ponto, precisamos nos perguntar: mas e os pontos secundários? Quais são? E eles não importam? Começando pela segunda pergunta, sim, os pontos secundários importam. E eles importam pelo simples fato de que toda a verdade tem valor em si mesma e que, portanto, a busca pela verdade é relevante. No entanto, os pontos secundários são periféricos. Eles importam em graus e sentidos distintos, e podem, em certas circunstâncias específicas, ser pouco ou nada relevantes. Podemos listar como pontos secundários: calvinismo x arminianismo; batismo por aspersão ou efusão x batismo por imersão; pedobatismo x credobatismo; continuísmo x cessacionismo; etc.

Note que todos esses pontos são secundários, por exemplo, em relação à salvação ou à santificação. Por exemplo, tanto um cristão verdadeiro calvinista quanto um cristão verdadeiro arminiano serão salvos pela mesma razão: graça de Deus, mediante a fé que eles exerceram em Cristo. E ambos procurarão viver uma vida de santidade por amor a Deus. A diferença é que o calvinista entenderá que ele foi predestinado por Deus a crer, enquanto que o arminiano crerá que Deus o alcançou pela graça preveniente e lhe deu a capacidade de aceitar a oferta gratuita de salvação.

As questões secundárias não impedem que irmãos de diferentes confissões se reúnam para cultuar, orar e trabalhar para Deus, organizar eventos cristãos, produzir literatura teológica de qualidade e manter fortes laços de amizade e irmandade. Muito menos de crerem sinceramente na salvação e na santificação um do outro.

Aqui, o leitor que tem mais conhecimento histórico dirá: “Mas Davi, esses pontos que você considera secundários foram razão de muita briga entre os protestantes dos séculos 16 e 17. Anabatistas bíblicos, por exemplo, eram perseguidos por crerem no credobatismo e no batismo por imersão. Calvinistas e arminianos brigam desde que Armínio começou a defender suas ideias. Igrejas da reforma radical viam as igrejas Luterana, Anglicana e Presbiteriana como “católicas” demais, ao passo que as primeiras viam as últimas como distantes demais da tradição cristã. Diante deste quadro, como defender que havia e que há unidade doutrinária?”. 

A isso podemos responder que uma coisa não anula a outra. O fato de que os primeiros protestantes valorizaram muito os pontos secundários, a ponto de muitos manterem inimizade entre si, não anula o fato de que as divergências não eram nos pontos mais centrais da fé. Todos esses criam no mesmo Deus Triúno, no mesmo Jesus como Messias, Senhor e Salvador, na mesma Escritura, na mesma salvação pela graça mediante a fé, na mesma necessidade de ter um viver santo. 

O x da questão aqui é que, na história do Protestantismo, pontos secundários que foram super enfatizados num primeiro momento de debate, tenderam a receber menor ênfase séculos depois. Há várias razões para isso. Primeira: o tempo acalmou os ânimos. Com os ânimos mais calmos é possível ver que as semelhanças são maiores que as diferenças, e que os pontos que pareciam tão centrais são periféricos. 

Segunda: o contexto do início da Reforma envolvia um sentimento muito forte de necessidade de pureza doutrinária. Eram séculos de erros romanos e os Reformadores entendiam que não podiam deixar brechas. Assim, mesmo pontos que poderiam ser vistos como secundários foram imbuídos de máxima relevância. 

Terceira: o mundo era outro. A tolerância em termos de religião era menor. Os Estados eram confessionais, não havia declarações universais de direitos do homem, a diplomacia não era bem desenvolvida. A cultura e a mentalidade das pessoas era diferente. Ademais, advindos do catolicismo romano, os primeiros Reformadores ainda possuíam alguns vícios da igreja medieval. Era natural, portanto, que os primeiros embates fossem mais rígidos. Com a mudança desses contextos iniciais, a relação entre os diferentes grupos protestantes passou a se tornar mais amena. 

Um exemplo histórico que demonstra a evolução das relações protestantes no século 18 é o da amizade entre John Wesley e George Whitefield. O primeiro, arminiano, o segundo, calvinista. Debateram muitas vezes a respeito de qual posição seria a correta. Cada um morreu sem mudar de ideia. Mas ambos nutriam grande respeito um pelo outro e estavam certos de que se encontrariam na eternidade. 

Quando avaliamos a história do Protestantismo, percebemos que gradualmente os variados grupos protestantes foram percebendo que há uma unidade doutrinária entre eles no que tange os pontos centrais. E que essa unidade doutrinária pode e deve levar a uma unidade de comunhão. 

2. Divisões Missionárias

Vimos que nos pontos doutrinários principais, há unidade entre as igrejas protestantes; e que nos secundários, é aceitável haver divergências. Mas o que dizer das divisões missionárias? Seriam os protestantes totalmente divididos e divergentes em relação às missões? Seria cada igreja fazendo a sua e competindo com a outra igreja? Mais uma vez, não é isso o que vemos na realidade. Usando o recorte do Brasil, podemos citar várias agências missionárias interdenominacionais que fazem um ótimo trabalho como Portas Abertas, Jocum, Missão Mais, Missão Além, Povos e Línguas, CRU (no Brasil), etc.

Há ainda muitas iniciativas protestantes de caráter interdenominacional nas mídias de massa. Por exemplo, um dos mais importantes podcasts de teologia cristã protestante do Brasil, o BTCast, recebe pessoas das mais diversas denominações. Um dos mais conhecidos programas de debates e entrevistas do Brasil, o Vejam Só, também recebe pessoas das mais variadas denominações. O Vejam Só, diga-se de passagem, pertence a RIT TV, que é o canal da Igreja Internacional da Graça de Deus. O programa, embora seja de debates, promove o diálogo entre as confissões, o respeito mútuo e a comunhão. Diversos influenciadores cristãos (teólogos ou não), fazem propaganda de livros cujos autores são de denominações diferentes. E uma série de eventos protestantes ao longo do ano conta com a participação de escritores, teólogos e pastores de várias igrejas.

A nível mundial, devemos nos lembrar das cruzadas evangelísticas de Billy Graham, desde os anos 1950, e de pregadores do mesmo estilo. Aliás, foi provavelmente a cultura dessas cruzadas que levou ao surgimento de panfletos e livros evangelísticos onde o leitor era convidado, no fim, não para uma igreja específica, mas para a “igreja evangélica mais próxima de sua casa”. Em 1974, o Pacto de Lausana reúne centenas de denominações evangélicas numa confissão de pontos centrais em comum.

Embora essas iniciativas não denominacionais tenham se tornado mais comuns nos séculos 20 e 21, é possível rastreá-las em séculos anteriores também. Em 1804, por exemplo, surge a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, que buscou tornar a Bíblia mais acessível a todos. Posteriormente, muitas outras sociedades bíblicas surgiriam pelo mundo. Em 1946, dezenas dessas sociedades se uniram formando As Sociedades Bíblicas Unidas, uma iniciativa interdenominacional que conta hoje com quase 150 Sociedades Bíblicas espalhadas pelo mundo.

A iniciativas sociais também são dignas de nota. Em 1844, surge a Associação Cristã dos Moços, na Inglaterra, que buscava oferecer aos jovens trabalhadores uma opção à vida de vícios e libertinagem. Em 1874, surge, nos EUA, a Woman’s Christian Temperance Union (WCTU), uma organização formada por mulheres cristãs de várias congregações que lutava contra problemas sociais da época, como o alcoolismo. A organização também lutou por direitos femininos, mas sempre dentro de uma perspectiva cristã.

Por fim, mesmo a Igreja Adventista, que tem pontos mais distintivos em sua teologia e que também sofre com alguns (ou muitos) membros exclusivistas, começou a partir de um movimento interdenominacional, e construiu sua compreensão doutrinária a partir de vários movimentos distintos. Ou seja, a IASD é fruto de uma obra missionária interdenominacional. 

Portanto, também não há razão para dizer que as igrejas protestantes não possuem unidade nas missões. Além de haver muita colaboração entre igrejas em projetos missionários, e uma legitimação mútua dos trabalhos, o foco de todos esses movimentos converge num ponto principal: levar as pessoas a Cristo e à Bíblia.

3. Divisões Administrativas

Talvez essa seja a divisão mais focada pelos católicos. Isso porque quando eles repetem a ideia de que há “mais de 30 mil seitas protestantes”, estão se referindo basicamente a unidades administrativas. Em bom português, eles estão falando de “CNPJ’s”. Se uma igreja tem um nome, um CNPJ e uma liderança administrativa diferente e independente da outra, então é uma divisão.

O problema dessa visão católica é que ela acaba ignorando que há literalmente milhares de igrejas que possuem as mesmas doutrinas (tanto básicas quanto secundárias) e que só se diferem no fato de cada uma ter sua própria administração. Ou seja, em termos doutrinários, não há milhares de igrejas. O que há são milhares de unidades administrativas independentes, mas que comungam da mesma fé. E, como temos visto, ao longo dos séculos as igrejas protestantes foram se aproximando mais. Assim, hoje, no geral, a maioria das igrejas protestantes mantém bons laços de irmandade e comunhão.

E talvez alguém pergunte: “Mas se é a mesma doutrina, por que não estão unidas debaixo de uma mesma liderança e administração?”. E a resposta é uma pergunta: pra quê? Não há nenhuma razão para forçar uma unidade administrativa quando o que importa é a unidade espiritual. Da mesma forma, não há razão para um grupo de amigos juntarem suas famílias em uma casa só, debaixo da autoridade de um pai que será o chefe geral das famílias. Que cada comunidade tenha sua própria liderança, administração, ênfase e costumes. Não há nenhum problema nisso.

É importante destacar ainda que a maioria das igrejas protestantes (senão todas) entende a Igreja de Cristo não no sentido institucional, mas no sentido espiritual. Neste sentido, Igreja é o conjunto de crentes verdadeiros em Jesus Cristo espalhados pela face da terra, independente de a qual denominação cada um pertença. Isso inclui até os crentes verdadeiros que estão em sistemas heréticos ou fora de qualquer igreja local. Muitos desses crentes podem não se enquadrar no movimento protestante, mas ainda assim fazem parte do povo de Deus.

Ora, se a Igreja, no sentido espiritual, é tão ampla, é aí mesmo que dentro do Protestantismo há unidade. As milhares de igrejas protestantes distintas são apenas isso: unidades administrativas da mesma Igreja de Cristo. Obviamente, algumas delas são mais problemáticas e outras menos. Algumas estão mais próximas da Bíblia e outras mais distantes. Ainda assim, sua membresia faz parte da mesma Igreja de Cristo. Para ser mais claro: luteranos, batistas, presbiterianos, metodistas, assembleianos, etc. são todos irmãos em Cristo.

4. Cristianismo antes e depois de Lutero

Como era o cristianismo antes de Lutero? E como ficou depois? Muitos católicos creem que antes de Lutero não havia nenhuma divisão na Igreja. Então, veio Lutero e deu início ao movimento que iria gerar as “mais de 30 mil seitas protestantes”. No entanto, esse modo de pensar é um grande mito baseado em simplificações e omissões históricas, bem como em uma visão extremamente romantizada da história do cristianismo. Vamos aos fatos.

Mais de mil anos antes de Lutero, a Igreja já passava por divisões sérias. Nos Concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451), duas alas discutiam a natureza de Jesus (como ele poderia ser divino e humano). Uma ala defendia concepções comuns à Escola de Antioquia, enquanto outra sustentava visões comuns à Escola de Alexandria. Ao fim do Concílio de Calcedônia, igrejas regionais representantes das duas alas romperam com a então igreja imperial. Como resultado desse cisma, o lado antioqueno se expandiu para o extremo oriente, formando a Igreja Católica Apostólica Assíria do Oriente (que nada tem a ver com a Igreja Católica Apostólica Romana). O lado alexandrino, por sua vez, gera a Igreja Ortodoxa Copta, a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedro (que foi parte da Copta até 1959), a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Apostólica Armênia. Todas essas igrejas existem até hoje e contam juntas com algo em torno de 80 a 90 milhões de adeptos. São igrejas cristãs antiquíssimas que nem são católicas romanas, nem são protestantes.

No ano 1054, ocorre outra divisão: o chamado Grande Cisma do Oriente. Após séculos de tensões entre a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla, os líderes das duas igrejas se excomungam mutuamente e separaram as igrejas de modo definitivo. Como resultado, a Igreja Católica Romana e a Igreja Católica Ortodoxa passaram a ser independentes uma da outra. A Igreja Ortodoxa também existe até hoje e conta com cerca de 220 milhões de adeptos. Ela também não é protestante, nem católica romana.

Para além dessas divisões, é importante ressaltar que o cristianismo já surgiu como um movimento multifacetado. Isso vem desde o primeiro século, quando os apóstolos ainda estavam vivos. Embora houvesse certa unidade doutrinária em torno de pontos bastante básicos, a Igreja Cristã do primeiro século não era um bloco centralizado de práticas, ênfases, costumes e tradições. Em vez disso, a Igreja era um conjunto de comunidades distintas em cada cidade e região, com ênfases, tradições e administração próprias. E isso, claro, criava desafios de entendimento mútuo. Uma boa obra teológica que versa a respeito disso é “Unidade e Diversidade no Novo Testamento”, do teólogo James D. G. Dunn, onde fica claro que dentro da unidade cristã havia uma diversidade.

No próprio Novo Testamento é possível enxergar, por exemplo, que a Igreja em Jerusalém era mais judaica que as demais, já que contava com maior número de judeus étnicos, com o templo, com as influências farisaicas e, durante as primeiras décadas, com a presença dos apóstolos (que eram todos judeus étnicos). Como resultado, em dado momento os membros facilmente se deixaram levar por boatos (mentirosos) de que Paulo ensinava os judeus das terras gentílicas a não circuncidarem seus filhos nem guardarem a Lei de Moisés (At 21:21). Na verdade, Paulo não ensinava isso, mas sim que o gentios não deveriam ser obrigados a se circuncidar e guardar preceitos específicos dos judeus (como as festas). O foco era a não imposição aos gentios, algo que podia ser deduzido tranquilamente da própria Escritura Hebraica, já que circuncisão e festas nunca foram impostas aos gentios por Deus no AT.

Curiosamente, também a Igreja em Jerusalém não era contra o ensino de Paulo em si, já que, segundo Tiago, eles conheciam a decisão do Concílio de Jerusalém sobre não impor a circuncisão aos gentios e isso não parece ser motivo de controvérsia no texto (Tg 21:25). Ou seja, não estamos falando nem de uma facção pró-imposição da circuncisão aos gentios, mas sim de crentes judeus que haviam aceitado o Concilio de Jerusalém, mas que, por seu perfil mais judaico, creram em boatos sobre Paulo, opondo-se a ele.

Na Igreja em Roma, havia briga entre quem só comia legumes e quem comia carne (Rm 14:1-3). Também havia um orgulho de alguns judeus por serem judeus e de alguns gentios por não fazerem parte do povo judeu (Rm 2:17-29; Rm 11:11-32). Na Igreja em Corinto, havia partidarismo quanto a apóstolos e pregadores (I Co 3), discussão sobre abstenção ou não de carne sacrificada aos ídolos (I Co 8 e 10), desordem no culto (I Co 14) e até descrença na ressurreição física (I Co 15). Em quase todas as igrejas, havia ainda o problema dos que impunham a circuncisão aos gentios e, pelo menos em Colossos e na Galácia, havia um gnosticismo incipiente ganhando campo e sendo usado como vara para julgar os irmãos.

Se esses problemas e diferenças de perfil já existiam na época dos apóstolos, é razoável concluir que não deixariam de existir após a morte deles. De fato, é isso o que se vê depois da Era Apostólica. Um exemplo disso é a forte oposição que os primeiros pais da Igreja fizeram aos nazarenos, os judeus crentes em Jesus que fugiram de Jerusalém no ano 70 d.C. e se instalaram na região da Pereia. Ainda no quarto século esses judeus existiam e aceitavam tanto o AT como o NT, além de crerem no nascimento virginal. Apesar disso, foram considerados hereges por homens como Epifânio de Salâmina e Jerônimo porque mantinham a prática de circuncidar seus filhos, guardar o sábado e as festas judaicas, embora não impusessem isso aos crentes gentios. Outros crentes que guardavam o sábado foram gradualmente sendo tratados como hereges também, primeiramente nos escritos patrísticos e depois nos sínodos e concílios.

Outro exemplo interessante é o das igrejas quartodecimanas. Este é o nome dado às igrejas do oriente que comemoravam a festa da Páscoa no dia 14 de Nissan (a data bíblica), como também os judeus. Como Roma comemorava a Páscoa sempre aos domingos, o bispo romano Victor, no século II, tentou declarar a prática quartodecimana como herética e excomungar todos os que a seguiam. Com a discordância dos bispos de outras igrejas em relação à posição de Victor, ele desistiu do intento. Mas a Igreja de Roma acabaria impondo a data dominical para a Páscoa no século IV, no Concílio de Niceia, sob o pretexto de que o cristão não deveria comemorar a Páscoa no mesmo dia que o judeu.

Dois historiadores da Igreja que viveram no quarto século discutem em um capítulo de suas respectivas “Histórias Eclesiásticas” a diversidade de costumes e práticas litúrgicas e doutrinárias nas igrejas de cada região: Sócrates Escolástico (380-?) e Hermas Sozomenus (375-447). Fica claro, por meio de suas descrições, que o cenário não era muito diferente do Protestante. Cada igreja tinha suas próprias características, mas ainda assim não deixava de ser cristã. Em suma, toda a história da Igreja até Lutero é repleta de igrejas com características distintas uma da outra, tensões, divisões, discussões ferrenhas e até perseguições.

Cabe ressaltar ainda que muito antes de Martinho Lutero, outros homens iniciaram movimentos semelhantes em vários lugares da Europa. Foi o caso de Pedro Valdo (1140-1205), na França, John Wycliffe (1328-1384), na Inglaterra,Jan Huss (1369-1415), na Boêmia, e Savonarola (1452-1498), na Itália. E enquanto Lutero se levantava na Alemanha contra as indulgências, outros reformadores se levantavam em outros países, de modo independente. Ou seja, o Protestantismo não é nem fruto da iniciativa de um homem só, nem uma novidade em termos de tensão teológica. O Protestantismo simplesmente segue o mesmo fluxo histórico de sempre, onde pessoas e grupos nos mais diversos lugares se levantam para discutir pontos discordantes e consertar o que julgam estar em desconformidade com a Palavra de Deus. Essa é a síntese da história do cristianismo.

A diversidade protestante não só reflete o que sempre foi comum no cristianismo, mas o que é comum no próprio catolicismo romano. A Igreja Católica Romana também possui suas tensões, discussões internas e diversidade entre as igrejas de cada região. Há os entraves entre a Renovação Católica Carismática e os Tradicionalistas, por exemplo. Há as discussões entre os católicos tradicionais e os católicos da Teologia da Libertação, que possuem uma visão marxista. Há os grupos que eventualmente saem da comunhão com o papa, mas que continuam se considerando católicos e crendo em muitos dogmas romanos, como é o caso da Igreja Católica Apostólica Brasileira. Há as chamadas igrejas sui iuris, que são igrejas com alto grau de autonomia, com particularidades históricas, costumes e liturgias diferentes, mas que estão em comunhão com o Papa. Há os Hebreus Católicos, que são judeus convertidos ao catolicismo, mas que mantém algumas práticas judaicas.

Ora, se também entre os católicos romanos há tensões, discussões e diversidade, não há qualquer razão para se apontar a Protestantismo como um movimento que fragmentou a Igreja. O que há entre católicos e protestantes é o que sempre houve na história cristã e, para além disso, na história judaica. Quando voltarmos ao primeiro século, percebemos que o judaísmo estava dividido em diversas facções e escolas de pensamento. Havia os fariseus, os saduceus, os essênios, os zelotas, a Escola de Hillel, a Escola de Shamai, etc. A diversidade era tão grande que muitos acadêmicos preferem usar o termo “judaísmos”, no plural, em vez de “judaísmo”, no singular. E o próprio cristianismo vai surgir, inicialmente, como mais uma seita judaica, a seita do “Caminho” ou dos “Nazarenos”.

Tendo isso em mente, podemos responder afirmativamente à pergunta central desse artigo: há unidade no Protestantismo? Sim, há. Não uma unidade administrativa. Não uma unidade em todos os pontos secundários. Não uma unidade centralizada, monolítica, uniforme, que é uma utopia, algo nunca existente no cristianismo. Mas sim uma unidade em torno das questões centrais da fé judaico-cristã. E isso é suficiente para quem entende que Igreja vai muito além de paredes, placas, liturgias, hierarquias e “CNPJs”.