Por Davi Caldas

Aparentemente, a maioria dos atuais progressistas* entende que considerar a prática homossexual moralmente errada é homofobia. O argumento principal seria que homossexualidade não é uma escolha, mas uma característica natural. Assim, considerar a prática homossexual como moralmente errada seria como considerar moralmente errado uma pessoa alta por ser alta.

O problema dessa argumentação é que ela confunde ser homossexual com praticar a homossexualidade. Ser homossexual é sentir atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Praticar a homossexualidade é ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Entre sentir atração e ter relações sexuais existe um enorme abismo. 

Para deixar isso mais claro, vejamos: uma pessoa pode sentir atração por outra, mas decidir que só fará sexo com ela quando casar. Um indivíduo pode decidir ser fiel ao seu cônjuge mesmo nos momentos em que sentir atração por outras pessoas. Alguém que ficou viúvo pode decidir não sair tendo sexo casual com qualquer um por aí, mesmo sentindo falta de ter relações sexuais. Há, nestes casos, uma clara distinção entre inclinação e prática. Sentir vontade não é, nem implica praticar.  

E por que é importante manter essa distinção? Uma das razões é que sem ela a liberdade de expressão desmorona. A liberdade de expressão prevê que todo o indivíduo é livre para discordar e criticar quaisquer crenças e práticas. É por isso que podemos discordar e criticar, por exemplo, pessoas que jogam futebol, que pintam o cabelo de vermelho, que assistem televisão ou que crêem em signos. Tudo é passível de discordância. 

No momento em que, como sociedade, escolhemos uma prática ou crença para tornar incriticável e inquestionável, por coerência temos que estender isso a todas as outras crenças e práticas. Os únicos dois resultados possíveis disso são: (1) ou anulamos qualquer crítica e discordância a qualquer prática e crença ou (2) nos tornamos incoerentes ao blindar algumas crenças e práticas, enquanto outras não. Nos dois casos, está morta a liberdade de expressão.

Nossa sociedade tem tomado o rumo da incoerência. Progressistas tentam incutir na cabeça das pessoas que discordar e criticar a prática homossexual é ser homofóbico. No entanto, os mesmos progressistas não vêem problema em discordar e criticar outras crenças e práticas. Aqui dou alguns exemplos pessoais. 

Eu e minha esposa casamos virgens, pois sempre cremos que deveríamos nos guardar para o casamento. Muita gente, no entanto, discorda, critica e até zomba da crença e da prática da virgindade antes do casamento. Eu e minha esposa também guardamos o sábado, separamos o dízimo e frequentamos cultos em nossa igreja local. Há milhões de pessoas que acham tudo isso ridículo. Eu recebo críticas até de cristãos de outras denominações, já que a maioria dos crentes não crê que a guarda do sábado está vigente na Nova Aliança. 

Ora, se qualquer um pode achar essas nossas crenças e práticas esquisitas, errôneas, idiotas e até erradas, por que a prática homossexual seria uma exceção à regra? Esse é o ponto central da discussão. 

Alguém pode argumentar que liberdade de expressão deve ter limite. Assim, críticas e discordâncias muito idiotas deveriam ser punidas por lei. Mas aqui temos um grande problema: quem definirá o que é muito idiota? E com base em quê?

Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe para onde isso leva: arbitrariedade. É “muito idiota” aquilo que quem está no poder acha que é “muito idiota”. E a base pode ser qualquer coisa. 

Aceitar que autoridades governamentais definam o que pode ou não ser questionado é abrir as portas para regimes autoritários. Além disso, é apenas em um ambiente com liberdade de expressão que as diferentes teorias e interpretações podem ser discutidas, analisadas e depuradas, processo fundamental para que verdades sejam descobertas e se tornem acessíveis a muitos. Se proibimos que uma teoria seja discutida, corremos o risco de que ela seja verdadeira e não descubramos.

Isso vale, claro, para a prática homossexual. A meu ver, por exemplo, há boas razões lógicas e bíblicas para crer que a prática homossexual é moralmente errônea. No entanto, quando o simples debate desse tema é condenado antes mesmo de ocorrer, a impressão que fica é que não há qualquer base racional para ver a prática homossexual como pecaminosa. E daí para taxar todos os que crêem nisso de obscurantistas e homofóbicos é um pulo. 

Cabe lembrar aqui que jogar no mesmo pacote aqueles que vêem a prática homossexual como pecaminosa junto com homofóbicos (isto é, pessoas que agridem ou defendem agressões aos homossexuais) é um desfavor aos próprios indivíduos que optaram por viver a homossexualidade. Por quê? Porque isso leva a sociedade a gastar mais tempo lutando contra pessoas que jamais fariam mal a um homossexual do que contra aqueles que não só fariam como fazem mal a esta classe, seja com violência verbal, seja com violência física. 

No fim das contas, o que os homossexuais precisam é de respeito e liberdade para viverem sua sexualidade, mas não da concordância de todos. Da mesma forma, eu não preciso que ninguém concorde com minhas opiniões sobre sexo antes do casamento, guarda do sábado e dízimo.

Precisamos ser maduros para entender que sempre receberemos discordância e crítica em relação ao que escolhemos praticar e/ou crer. E não há nenhum problema nisso. Pelo menos não para quem defende a liberdade de expressão. 

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*Uso o termo “progressista”, neste texto, para me referir ao âmbito moral e teológico, não ao político. Ou seja, nesta definição pode haver indivíduos progressistas de esquerda, no sentido político-econômico, mas também de direita. O ponto central não é a posição político-econômica.