Por Davi Caldas

Há algum tempo, um pastor adventista postou um vídeo em seu canal no Youtube falando sobre música. A proposta do vídeo foi rebater certa declaração de alguém na internet que dizia que todos os ritmos podem ser usados para o louvor, não existindo um ritmo específico que agrada a Deus. Para o pastor, isso não é verdade e ele procura provar este ponto no vídeo a partir da Bíblia, do Manual da IASD e dos escritos de Ellen White. 

Eu assisti pouco mais de dois terços do vídeo e tenho algumas considerações a fazer. Meu objetivo, num primeiro momento, não é defender nem atacar a noção de que qualquer ritmo serve para o louvor. É sim avaliar o tipo de argumentação utilizada pelo pastor para chegar às suas conclusões. Apenas após isso, tecerei alguns comentários sobre o assunto em si.

Por que me proponho a fazer uma análise da argumentação do pastor? Porque esse é um bom ponto de partida para entender como o debate sobre música no adventismo muitas vezes tem se pautado em vícios como método texto-prova, falácias lógicas, exageros retóricos, generalizações e subjetivismo. O resultado disso é que conclusões acabam não fluindo de fato da Bíblia, quebrando assim o Sola Scriptura. Isso não é exclusividade de um só lado da discussão. Tanto os mais tradicionalistas quanto os mais progressistas caem nos mesmos erros. Assim, por meio dessa análise, podemos tirar lições relevantes sobre como debater o assunto de modo legitimamente bíblico.

O Uso da Bíblia

O pastor dedica os primeiros 9 minutos do vídeo a uma introdução. A partir do minuto 9:40, ele inicia a sessão do vídeo que foca nos argumentos bíblicos. A sessão vai até 26:07. Em sua abordagem, o pastor aponta quatro princípios bíblicos que, segundo ele, podem ser usados para saber se todos os ritmos são apropriados para o louvor a Deus ou não. Cada princípio é retirado de uma passagem bíblica. Eis os princípios:

1) Adoração não se trata do que eu quero oferecer, mas sim do que Deus quer receber (Gn 4:3);

2) Devemos separar o santo e o profano (Ez 22:26);

3) Devemos fazer tudo com ordem e decência (I Co 14:40; I Rs 19:11-12);

4) Devemos fazer tudo para a glória de Deus (I Co 10:31).

Princípio 1

O texto de Gn 4:3 fala da ocasião em que Abel ofereceu um animal para Deus, enquanto Caim ofereceu o fruto da lavoura. Como o texto dá a entender que Deus solicitava sacrifícios de animais, não ofertas da lavoura, o princípio subjacente seria o de que na adoração o que importa é o que Deus pede, não o que queremos dar. Isso está correto. Entretanto, devemos notar que o texto não oferece nenhum indício de que há um ritmo musical específico do qual Deus se agrada. O texto sequer fala sobre música.

Justiça seja feita, o pastor reconhece isso no vídeo após explicar o princípio, e indica que essa especificação está nos demais princípios. Este princípio, então, seria apenas uma introdução para dizer que a adoração não se baseia no que queremos dar. Apesar dessa ressalva do pastor, chamo a atenção ao fato de que muita gente, no debate sobre a música, apelam para essa passagem, bem como as de Nabade e Abiú (Lv 10:1-3) e Uzá (II Sm 6:1-8) como se fossem definitivas para condenar certos ritmos. Contudo, tais passagens apenas servem para enfatizar a soberania da vontade de Deus. Elas não trazem especificação sobre música. Portanto, sozinhas, elas nada tem a dizer sobre ritmos e instrumentos.

Princípio 2

O texto de Ez 22:26, diferente do primeiro texto usado, já é indicado pelo pastor como capaz de provar a condenação a certos ritmos. Diz o texto: 

“Os seus sacerdotes transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas; entre o santo e o profano, não fazem diferença, nem discernem o imundo do limpo e dos meus sábados escondem os olhos; e, assim, sou profanado no meio deles” (Ez 22:26).

O pastor aplica esse texto ao uso de certos ritmos mundanos com letras cristãs. Para ele, isso seria misturar sagrado e profano. Esse argumento tem pelo menos duas falhas.  A primeira é que nem esse trecho, nem seu contexto mais amplo falam sobre música. O capítulo fala sobre a idolatria do povo israelita, a violência, as extorsões, os roubos, as injustiças aos desamparados, a transgressão do sábado, os falsos profetas, a quebra de regras ligadas ao sistema Levítico e corrupção dos sacerdotes. Em nenhum momento há qualquer menção ao tema música. 

Parece claro pelo contexto que a mistura entre sagrado e profano tem a ver com a corrupção e a hipocrisia dos sacerdotes que, apesar de se manterem no ofício sacerdotal, agiam como ímpios, além de não levarem a sério as suas obrigações. 

Para os dias de hoje, o trecho pode ser usado legitimamente para repreender pastores adúlteros, pastores que usam dízimos e ofertas para enriquecimento ilícito, pastores que pregam a teologia da prosperidade, líderes pedófilos, cantores mais preocupados com fama e dinheiro do que com a pregação do evangelho, administradores de igreja que se pautam por princípios mundanos e gerem a igreja como um negócio, etc. 

Dado o contexto, portanto, é bastante forçado aplicar Ez 22:26 a ritmos de música. Até porque ainda não vimos nenhum texto que defina o que seria o ritmo sagrado e o que seria o ritmo profano. Na falta dessa definição, esse texto não tem nada a dizer sobre o tema.

A segunda falha do argumento é que o pastor não explica porque determinado ritmo seria profano. Ele apenas pressupõe que é e conclui que usar tal ritmo com letra cristã seria um erro. Mas se alguém diz que certo ritmo é profano, precisa explicar a razão. É porque quem o inventou era profano? Ou é porque muitos usam de maneira profana? Ou é por outra razão? Vamos trabalhar as duas primeiras. 

“É profano porque quem criou não tinha propósitos santos”. Se for esse o caso, o princípio é que devemos condenar tudo o que foi criado por pessoas profanas, certo? No entanto, a Bíblia apresenta muitos homens profanos como tendo criado coisas que depois foram usadas legitimamente por homens santos. É o caso de Caim, edificador da primeira cidade do mundo (Gn 4:17); Jabal, pai dos que habitam em tendas e criam gado (Gn 4:20); Jubal, pai dos que tocam harpa e flauta (Gn 4:21); Tubalcaim, artífice de todo o instrumento cortante (Gn 4:22). Todos esses faziam parte de uma descendência afastada de Deus. Então, devemos condenar cidades, harpas, flautas, tendas, criação de gado, facas e tesouras? Será mesmo que a origem de algo entre os homens realmente determina se aquilo é profano ou sagrado? Parece evidente que não é por aí. 

Ponto curioso é que muitas vezes não sabemos ao certo quem criou determinado ritmo. Por exemplo, quem nos garante que Jubal não tocava músicas com ritmos que hoje são considerados divinos pelos irmãos mais tradicionalistas? É uma possibilidade. Se realmente a ideia de que as origens tornam algo profano é verdadeira, então é arriscado fazer uso de qualquer coisa da qual não tenhamos total certeza de que foi um servo de Deus que criou. As implicações disso são enormes. Devemos usar redes sociais, internet, computador, televisão, rádio? Estamos certos de que a origem dessas invenções não é profana? Pensar essas implicações nos ajuda a perceber a fragilidade do apelo à origem. Aliás, em lógica formal, o apelo à origem para deslegitimar algo é considerado uma falácia, isto é, um argumento ilógico. É a chamada falácia genética. Isso deveria bastar para se descartar tal raciocínio.

“É profano porque muitos usam de maneira profana”. Neste caso, a própria Bíblia é profana, já que muitos a utilizam (e utilizaram ao longo dos séculos) com os propósitos mais ímpios que se possa imaginar. Como o leitor pode ver, esta também é uma posição insustentável. 

Uma terceira falha na argumentação do pastor é que ele não faz diferença entre gênero musical, no geral, e músicas específicas. Em todo o momento, ele afirma que não é correto pegar certas músicas mundanas e simplesmente trocar a letra por algo cristão, mantendo o ritmo. Mas aqui há duas discussões diferentes. Uma coisa é compor uma música, do zero, dentro de um gênero musical, colocando nela uma letra cristã. Outra coisa é tomar uma música que já existe e já possui uma letra ímpia, tirar a letra ímpia e incluir uma letra cristã. 

Como são processos distintos, deveriam ser analisados de modos distintos. No primeiro processo, como temos visto, para saber se haveria um erro ou não é preciso definir o que tornaria um estilo musical profano. Na falta de uma definição, não há como condenar o uso de certos estilos. No segundo processo, já cabe questionar a viabilidade de tomar uma música específica cuja letra original já remete os ouvintes a algo inapropriado e trocar a letra. A simples mudança da letra provavelmente não será suficiente para que a letra original seja esquecida. Isso é apropriado? Pode-se discutir legitimamente.

Ao misturar as duas discussões, no entanto, o pastor faz parecer que o uso de um gênero musical “profano” seria o mesmo que usar uma música profana específica para louvor, apenas trocando a letra. Certamente, essa não é a melhor maneira de argumentar. 

Princípio 3

O texto de I Co 14:40 é aplicado pelo pastor a bailes funk e shows de rock. Ele sustenta que como geralmente esses lugares não estão ligados à ordem e decência, os ritmos ali tocados não seriam apropriados para o louvor. O pastor menciona bebida, drogas, adultério, algazarra e gritaria como elementos pecaminosos nesses locais. 

Também existem alguns problemas nesse argumento. Primeiro: o pastor não explica se esses elementos pecaminosos são causados pelos ritmos supracitados ou por outras causas. É perfeitamente possível imaginar que a causa das posturas condenadas pelo pastor nestes locais sejam outras. Por exemplo, sabemos que a maioria esmagadora das pessoas que frequenta bailes funks e shows de rock não é formada por cristãos bíblicos praticantes e atuantes em sua igreja local. A maioria também já possui o hábito de beber e manter uma vida promíscua em seu cotidiano. Grande parte delas advém de famílias não cristãs e bastante desestruturadas. Muitos são jovens, cheios de energia para gastar. Esse conjunto de elementos parece ser muito mais determinante para gerar a confusão descrita pelo pastor do que propriamente o estilo de música tocado. 

Não quero dizer com isso que o estilo musical não pode ter influência nesse cenário. É claro que pode. Mas se a análise dos demais elementos não é feita, a avaliação se torna parcial e viciada. E penso que a argumentação cristã deve ser melhor que isso.

Segundo: o contexto da passagem de I Coríntios 14 fala sobre ordem no culto. É claro que podemos assumir que por trás do princípio da ordem no culto há um princípio geral de ordem na vida. No entanto, as duas coisas não são sinônimos perfeitos. Há coisas que são apropriadas fora do culto público, mas não dentro. Por exemplo, é apropriado brincar de bola com os filhos fora do culto. Mas se eu levo minha bola para o templo (ou para qualquer local onde esteja ocorrendo uma reunião religiosa) e começo a brincar com meu filho, isso será inapropriado. O pastor, no entanto, usa I Coríntios 14 como se essa distinção não existisse. É um erro.

Trocando em miúdos: o pastor não pode argumentar que qualquer postura inapropriada no culto é necessariamente inapropriada fora do culto. Pensemos, por exemplo, em uma festa de criança. É apropriado que as crianças estejam correndo, pulando no pula-pula, gritando e brincando, ao som de músicas infantis num volume mais alto que o comum? Sim. Certamente seria injusto dizer que essa cena fere I Coríntios 14. Mas é apropriado que a mesma cena ocorra no meio de um culto ao Senhor? Aí não. Neste caso, feriria I Coríntios 14. Portanto, não necessariamente estilos que deixam as pessoas mais saltitantes e barulhentas contrariam a ordem e a decência. Há contextos e contextos. Pense numa típica festa judaica, por exemplo. O que não falta nesse tipo de festa é música alegre, danças, risadas altas e muita cantoria. Isso não fere a ordem e a decência.

A terceira falha do argumento está no uso de outro texto: I Rs 19:11-12. No contexto, Elias está depressivo por conta da perseguição que a rainha Jezabel iniciou contra ele. Fugindo para o deserto e desejando a morte, Deus resolve falar com ele. Podemos ler:

“Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o Senhor. Eis que passava o Senhor; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranquilo e suave”.

O pastor usa esse texto para dizer que Deus não se agrada de muita algazarra, euforia e gritaria. Logo, músicas muito agitadas e dançantes não seriam agradáveis a Deus. A falha dessa argumentação consiste no fato de que o texto, mais uma vez, não fala sobre música. Dentro do contexto, o que o texto parece ensinar é que no momento de maior fraqueza emocional do profeta, Deus não optou por se mostrar assustador e agressivo. Em vez disso, se expressou de maneira mansa. Era o que Elias precisava no momento. É perigoso fazer muita teologia em cima dessa passagem. Até porque “pau que bate em Chico também bate em Francisco”. Alguém poderia propor que o monte Sinai tremendo e fumegando por causa de Deus (Êx 19:16-21) é um sinal de que Deus aprecia manifestações chamativas e barulhentas. O problema da alegorização é que ela pode produzir qualquer tipo de teologia.

Princípio 4

O último texto usado é o de I Coríntios 10:31, onde Paulo diz que quer comamos ou bebamos, devemos fazer tudo para a glória de Deus. O pastor desenvolve esse princípio seguindo mais ou menos o mesmo padrão das argumentações anteriores: como algumas músicas estão relacionadas a contextos de pecados, simplesmente trocar a letra delas não seria uma forma de glorificar a Deus. 

Para além dos problemas já trabalhados em relação a esse tipo de argumento, podemos apontar o uso descontextualizado da Bíblia. I Coríntios 10:31 está no contexto maior de uma discussão sobre alimentos sacrificados aos ídolos. Alguns versos antes, Paulo defende que se um alguém fosse comer na casa de um pagão, não deveria se preocupar com a possibilidade de o alimento servido ter sido sacrificado antes a ídolos. Mas se algum irmão ao lado avisasse que era comida sacrificada e dissesse para não comer, por amor à consciência desse irmão, o primeiro indivíduo deveria se abster. 

Nesse contexto, comer e beber para a glória de Deus era não colocar os próprios desejos alimentares acima da saúde espiritual dos irmãos mais fracos. Como esses irmãos criam ser um grande pecado comer algo antes sacrificado, era necessário cuidar para que eles não fossem prejudicados pela liberdade dos mais fortes. Se ao comer algo sacrificado a ídolos, um irmão forte levava um irmão fraco a retornar à idolatria, ou se escandalizar a ponto de enfraquecer na fé, ou vilipendiar a própria consciência (I Co 8:6-13 e 10:14-33), então era melhor se abster por amor ao irmão. A finalidade, segundo Paulo, era que os fracos pudessem se salvar (v. 33).

Como se pode ver, o contexto não só nada fala de música, como acaba sendo um tiro no pé de quem o usa nesse sentido. Afinal, Paulo explicitamente concorda que o alimento sacrificado ao ídolo não era em si profano. O fato de a carne já vir dedicada aos ídolos do açougue não significava nada, pois o crente que a comia, o fazia para Deus (Rm 14:1-6; I Tm 4:1-5). Aplicando para hoje, seria possível dizer que um gênero musical não se torna profano só porque alguém fez músicas profanas a partir desse gênero.

Uso do Manual da Igreja

A partir do minuto 26:07, o pastor avisa que focará no público adventista. Então, saindo da Bíblia, passa a apelar para o Manual da Igreja. Sua linha de argumentação é que uma vez que entramos na IASD, temos por obrigação aceitar tudo o que ela ensina. Em sua visão, não faz sentido alguém querer estar na IASD sem seguir os seus ensinos. Com isso, ele lança a base para aceitar o Manual da IASD como autoritativo. O Manual da IASD, por sua vez, possui um trecho em que condena o uso de músicas de estilo jazz, rock e formas híbridas com eles relacionados.[1] 

A argumentação do pastor é absolutamente desastrosa. Em primeiro lugar, devemos nos lembrar que a doutrina da IASD é clara ao afirmar que os adventistas não possuem credo além da Bíblia. A Declaração de Crenças Fundamentais diz em seu preâmbulo:

“Os adventistas do sétimo dia aceitam a Bíblia como seu único credo e mantêm certas crenças fundamentais como sendo o ensino das Escrituras Sagradas. Estas crenças, da maneira em que são apresentadas aqui, constituem a compreensão e a expressão do ensino das Escrituras por parte da igreja. Podem ser esperadas revisões destas declarações em assembleia da Associação Geral, quando a igreja é levada pelo Espírito Santo a uma compreensão mais completa da verdade bíblica ou encontra uma linguagem mais apropriada para expressar os ensinos da Santa Palavra de Deus”.[2]

A crença 1 vai dizer ainda que a Bíblia é “a prova da experiência” e “o autorizado revelador de doutrinas”. Já a crença 18, que fala sobre os escritos de Ellen White, afirma que eles “tornam claro que a Bíblia é a norma pela qual deve ser provado todo o ensino e experiência”.

O Tratado de Teologia Adventista também enfatiza essa informação ao dizer que Deus fez da Bíblia o “parâmetro esse pelo qual tudo o mais deve ser provado”. Por essa razão, “A nenhum outro livro sagrado, sejam histórias sacras, tradições antigas, declarações eclesiásticas ou credos, pode-se atribuir autoridade igual à da Bíblia”.[3] No Tratado, a Bíblia “fornece a estrutura, a perspectiva divina, os princípios fundamentais, para todo ramo de conhecimento e experiência. O conhecimento, a experiência ou a revelação adicional deve se basear no fundamento todo- suficiente da Escritura e a ele permanecer fiel. Assim se confirma o grito de guerra da Reforma: sola Scriptura, ou seja, a Bíblia e a Bíblia somente como a norma final da verdade. Todas as outras fontes de conhecimento devem ser testadas por esse padrão infalível”.[4]

O próprio Tratado de Teologia deixa claro que ele mesmo não deve ser visto como uma espécie de credo. Em suas considerações iniciais, os autores afirmam que o volume não foi escrito “com a pretensão de que o mesmo seja a última palavra sobre os assuntos tratados”.[5] Algumas páginas adiante, lê-se:

“O preâmbulo da declaração de crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, votada em 1980, afirma claramente que a igreja ainda permanece aberta a novos esclarecimentos e compreensão adicional da Bíblia. Os estudos apresentados neste volume representam a compreensão atual e em profundidade dos principais temas bíblicos conforme tratados por aqueles que exercem o ministério do ensino na igreja”.[6]

O Nisto Cremos vai na mesma direção. Em sua versão publicada em 2017, por exemplo, ela diz:

“Durante muitos anos, os adventistas do sétimo dia têm-se demonstrado relutantes em formalizar um credo, no sentido usual da palavra. Entretanto, de tempos em tempos – tendo em vista propósitos práticos –, temos constatado a necessidade de resumir nossas crenças em uma estrutura organizada. […] Mesmo com a publicação da relação de crenças em 1980, a igreja procurou assegurar que ela não fosse vista como um credo imutável”.[7]

Ainda nas páginas introdutórias, os autores e editores do livro asseveram:

“Não escrevemos este livro para que servisse como um credo – ou declaração de doutrinas montadas sobre concreto teológico. Os adventistas possuem apenas um credo: “A Bíblia, e a Bíblia somente”.[8]

O Questões sobre Doutrina tem a mesma posição. Ele diz:

“Os adventistas do sétimo dia sustentam a posição protestante de que a Bíblia e somente a Bíblia é a única regra de fé e prática para os cristãos. Cremos que todas as crenças teológicas têm que ser aferidas pela Palavra viva, julgada pela sua verdade, e o que quer que não seja capaz de suportar essa prova, ou seja achado em desarmonia com sua mensagem, deve ser rejeitado”.[9]

Em suma, com base no próprio entendimento oficial adventista, o Manual da IASD não pode ser visto como um credo. Sua autoridade também é subserviente à Bíblia. Na hipótese, portanto, de haver algum detalhe no Manual que não esteja baseado na Bíblia, segundo as regras básicas de interpretação, um adventista estará justificado em não crer.

Em segundo lugar, não faz sentido pressupor que a IASD é absolutamente infalível, de modo que discordar de qualquer detalhe do Manual da Igreja seria discordar do próprio Deus. Essa não é uma posição protestante, nem adventista, mas católica. Como protestantes e adventistas, nós não cremos em uma igreja infalível. Ellen White, diga-se de passagem, alertou muitas vezes sobre o risco de apelar à tradições e líderes para fincar posições. Vejamos algumas declarações:

“Como um povo, corremos certamente grande risco, se não estivermos em constante vigilância, de considerarmos nossas ideias, pelo fato de serem longamente acalentadas, doutrinas bíblicas e infalíveis, e medir todos pelo critério de nossa interpretação da verdade bíblica. Este é nosso perigo, e este seria o maior mal que poderia sobrevir a nós como um povo”.[10]

“Meu clamor tem sido: investiguem as Escrituras por si mesmos e saibam por si mesmos o que diz o Senhor. Nenhum homem deve ser autoridade para nós. Se ele recebeu sua luz da Bíblia, então podemos também ir à mesma fonte de luz e prova para substanciar as doutrinas em que acreditamos”.[11]

“O grande perigo de nosso povo tem sido o de confiar nos homens e tornar a carne o seu braço. Os que não têm o hábito de examinar a Bíblia por si mesmos ou de pesar as evidências, confiam nos dirigentes, e aceitam as decisões que estes fazem, e assim rejeitarão muitos as próprias mensagens que Deus envia a Seu povo, se esses irmãos dirigentes não as aceitarem”.[12]

Em terceiro lugar, não faz sentido comparar a discordância em relação a detalhes do Manual com a discordância em relação a crenças fundamentais. A IASD possui uma coluna vertebral, um conjunto de pilares que é a própria essência da congregação. Esses pilares se provaram bíblicos desde o início da congregação e suportaram o teste do tempo. Então, ninguém está falando aqui de rejeitar pilares e continuar sendo adventista. O ponto aqui é que para além dos pilares há detalhes periféricos no adventismo que são discutíveis e que caso fossem revistos não implicariam nenhuma mudança na essência do movimento. O pastor, no entanto, não faz essa diferenciação. Assim, fica parecendo que discordar de um trecho sobre música no Manual é igual a negar pilares como o sacrifício vicário de Jesus, a salvação pela graça mediante a fé, a guarda do sábado, a mortalidade da alma, a doutrina do santuário, o Sola Scriptura, a continuidade dos dons do Espírito, o futuro retorno de Cristo, etc. Sem dúvida, é uma retórica muito forçada.

Em quarto lugar, o próprio Manual não explica quais foram as bases bíblicas e lógicas usadas para chegar à conclusão de que os supracitados estilos não são agradáveis a Deus. Aceitar a autoridade do Manual por ele mesmo, e não por princípios bíblicos claramente esboçados, é passar por cima do Sola Scriptura e transformar o Manual em um credo. Ou o Manual demonstra claramente a base bíblica de sua conclusão, sem uso de passagens descontextualizadas e com o melhor uso das regras de interpretação, ou sua declaração não tem qualquer autoridade em si mesma.

Uso dos escritos de Ellen White

A partir do minuto 42:20, o pastor sai do Manual e passa a citar textos de Ellen White. Confesso que nessa parte, não me animei a prosseguir assistindo. Eu explico. Como vimos, não há base bíblica alguma para defender que há um ritmo específico que agrada a Deus ou que há ritmos que o desagradam. As argumentações do pastor se baseiam em “método texto-prova”, que geralmente se define pelo uso de textos bíblicos descontextualizados para defender uma posição. Sem base bíblica, portanto, qualquer apelo aos escritos de Ellen White se torna ilegítimo.

Ellen White defendeu durante toda a vida o princípio do Sola Scriptura, isto é, que a Bíblia é a única regra de fé, prática e doutrina. Para citar apenas um dos vários exemplos mencionar, Ellen White afirma:

“Se os pilares de nossa fé não resistirem ao teste da investigação, é hora de sabermos disso, pois é tolice nos firmar em nossas ideias e pensar que ninguém deve interferir em nossas opiniões. Que tudo seja trazido para a Bíblia, pois é a única regra de fé e doutrina. Devemos estudar a verdade por nós mesmos; não se deve esperar que nenhuma pessoa viva pense por nós, não importa quem seja essa pessoa ou em que posição ela possa estar. Não devemos considerar nenhum ser humano como um critério perfeito para nós. Devemos aconselhar-nos juntos e estar sujeitos uns aos outros, mas ao mesmo tempo devemos exercitar a capacidade que Deus nos deu de aprender o que é a verdade”.[13]

Isso quer dizer que no que tange à fé cristã, nenhuma regra pode ser imposta sobre alguém se não flui da Bíblia. Não se faz doutrina com base em outras fontes que não a Bíblia. O princípio do Sola Scriptura também prevê que a Bíblia interpreta a si mesma, coisa que Ellen White também defendia veementemente. Assim, se alguém não consegue interpretar a Bíblia com base na própria Bíblia, não pode impor sobre a Bíblia fontes extrabíblicas para fazer a Escritura dizer o que ela não diz.

É praxe de adventistas mais tradicionalistas na área da música tentarem fazer doutrina com base em Ellen White. Como isso é um desvio do Sola Scriptura, eu prefiro me abster de um debate nesta seara. Se alguém não consegue provar seu ponto na Bíblia, com boa interpretação, discutir Ellen White não só é inútil como uma inversão teológica. Não é a discussão de Ellen White que deve determinar a resolução de nossas controvérsias teológicas. É sim a discussão da Bíblia que deve iluminar nossos debates e nos ajudar a entender o que Ellen White intentou ensinar. Afinal, Ellen White era submissa à Bíblia, não o contrário.

Uma visão equilibrada sobre música

Tendo analisado os argumentos do pastor, proponho agora discutir o mérito da questão em si: qualquer estilo musical pode ser usado para louvar a Deus? Ou Deus possui um estilo musical específico que o agrada? Creio que para responder a essas perguntas, devemos primeiro reconhecer que a Bíblia não prescreve nada muito específico sobre música no culto ou fora dele. Ela não estabelece nenhum padrão sobre notas, acordes, compasso, volume ou instrumentos que seriam, em si mesmos, bons ou maus. 

Na falta de textos específicos sobre o tema, nossa avaliação deve se pautar não por regras muito fixas, mas por princípios gerais que a Bíblia pode nos oferecer. Eu elencaria pelo menos quatro princípios: (1) finalidade do culto; (2) culto racional; (3) participação coletiva no culto; (4) centralidade de Deus no culto. Vamos desenvolver cada um desses.

1) Finalidade do culto

Em I Coríntios 14, texto citado pelo pastor do vídeo que analisamos, Paulo repreende a igreja de Corinto por conta de seu culto desorganizado. Dois problemas principais são tratados: (a) alguns irmãos que recebiam o dom de falar outras línguas manifestavam esse dom no culto sem que houvesse intérprete para que a igreja toda fosse edificada; (b) havia muitos irmãos querendo falar e participar ao mesmo tempo. Diante disso, Paulo oferece algumas orientações para que o culto se tornasse organizado. 

O que é interessante destacar, no entanto, são os argumentos de Paulo para que o culto tivesse ordem: (a) a edificação dos irmãos; (b) o testemunho para os visitantes; (c) o próprio caráter ordeiro de Deus, exemplo a ser louvado e copiado. Uma vez que o objetivo do culto reside justamente em aprender do Senhor e louvá-lo, alcançar os incrédulos e edificar os irmãos, então o princípio geral por trás dos argumentos de Paulo é que a ordem no culto tem a ver com a preservação da finalidade do culto. Em outras palavras, se o culto não cumpre esses objetivos, deixa de ser culto. 

Pensando na questão da música no culto, podemos aplicar esse princípio da seguinte maneira: se uma música possui um ritmo que tende desvirtuar os objetivos do culto, ela não é apropriada para esta ocasião. Por exemplo, um dos elementos importantes do culto são os momentos de introspecção, nos quais oramos, refletimos sobre Deus, buscamos arrependimento de nossos pecados, etc. Se uma música tende a enfraquecer ou anular esse momento no culto, temos aqui um problema. 

Outro elemento importante no culto são os momentos de alegria pela presença do Senhor e pela presença dos irmãos. Se, por um lado, é preciso haver espaço para introspecção e reflexão, por outro lado, o culto não deve ter um tom de tristeza ou de repressão da alegria. Deus nos criou para sermos alegres nele e expressarmos essa satisfação. Portanto, louvores alegres, que expressem bem o sentimento de estar com Deus e os irmãos, são necessários. Se uma música tende a minar esse momento do culto, também temos um problema. 

É desse tipo de raciocínio que podemos concluir, por exemplo, que os extremos não são apropriados para a preservação da finalidade do culto. Músicas extremamente rápidas, pesadas e/ou dançantes podem estimular um ambiente de muita euforia e pouca introspecção. Além disso, podem levar os irmãos a se alegrarem e dançarem mais pelo ritmo do que pelo prazer de louvar a Deus. Já músicas extremamente lentas e monótonas podem criar um ambiente de melancolia e retração. E isso distorce o caráter do evangelho, que é uma mensagem de alegria, liberdade e espontaneidade, não de tristeza, formalismo e medo. 

Um ponto relevante ainda é que o culto deve ser capaz de edificar toda a igreja e não apenas uma ala. Deste modo, buscar um equilíbrio nas músicas escolhidas é o melhor caminho para que o louvor não se torne um empecilho à edificação de uma parte da igreja ou uma má impressão para quem está chegando na igreja – o que seria matar os objetivos do culto. Portanto, ao se pensar as músicas que irão compor o momento de louvor de um culto, deve-se levar em conta que tipo de ambiente as mesmas tendem a gerar e como isso afeta a finalidade do culto.

Note que isso não significa que músicas mais agitadas ou mais tristes não possam ser ouvidas fora do ambiente de culto. Lembremo-nos que há coisas inapropriadas para o culto, mas apropriadas para fora. A discussão aqui é sobre a música no culto. 

2) Culto racional

Os autores bíblicos ensinam que o culto a Yahweh, num sentido amplo (isto é, abarcando o culto na esfera pública e privada) precisa ser racional (Rm 12:1-2; I Co 14:7-20; I Tm 2:4; Is 56:1-8 e 58:1-12). Em outras palavras, ele precisa ser consciente, fazer sentido e levar o crente a se aproximar mais e mais da vontade de Deus. O culto judaico-cristão não é como o de algumas religiões onde o objetivo é entrar em êxtase, sair da realidade, ter experiências sensoriais diferentes, buscar algum tipo de prazer hedonista ou barganhar com Deus. 

Aplicando isso à música, o louvor no culto precisa estimular essa adoração racional. Embora as emoções sejam parte importante do culto, elas devem estar abaixo da razão. Assim, músicas cujos instrumentos e a maneira de tocar ou cantar chamam mais a atenção que a própria letra podem ser inapropriadas para o culto. Talvez elas sirvam mais como uma distração e até um veículo de emocionalismo para muitos membros do que como um louvor consciente a Deus e transformador do caráter. 

Ainda sobre a relação entre música e letra, a escolha do louvor deve pensar se determinada letra, sendo boa, é valorizada pelo ritmo. Talvez certas letras sejam boas, mas o ritmo não sirva bem ao propósito de valorizá-la, o que pode torná-la inapropriada para o culto. Em suma, tudo deve ser organizado sob a égide da razão. 

3) Participação coletiva no culto

O culto público tem como função ser um ato de adoração coletiva mesmo (Ne 8:1-12, 12:40-47; Lc 4:16; At 2:46-47 e 13:13-44; Ef 5:18-20; Cl 3:16; Hb 10:25). O louvor coletivo a Deus nos conecta a Ele e aos seus demais servos juntos, o que nos torna realmente uma família. 

Aplicando isso à música no culto, o louvor precisa ser apropriado para a congregação toda cantar. Músicas com tons muito altos, ou muito baixos, ou muito rápidas, ou com qualquer elemento que as torne difíceis de ser cantadas, já não cumprem essa finalidade. As músicas escolhidas para o louvor, portanto, devem ser simples e adequadas o suficiente para que o povo louve. O que passa disso já não é culto, mas sim um show. Não há nada de errado com shows, mas cada coisa tem o seu lugar. Transformar o culto em mera apresentação de cantores é desvirtuá-lo. 

4) Centralidade de Deus no culto

Finalmente, o centro do culto é Deus (Êx 20:3-5; Dt 6:5 e 10:20-21; Mt 4:10; Rm 11:36; II Co 1:20; Ef 3:21; Fl 2:11; II Tm 4:18; Hb 13:21; Ap 4:11 e 5:13). O que quer que enfraqueça ou anule esse fato distorce o culto. 

Aplicando isso à música, o louvor apropriado deve ser capaz de envolver a comunidade em legítima e profunda adoração. Se a música é alegre, a alegria deve ser motivada principalmente por Deus (pelo que Ele é e faz). Se a música é mais calma, deve levar o crente a refletir sobre a grandeza e o amor de Deus, em contraste com sua própria pequenez. O ritmo deve ser subordinado a essas finalidades, não atrapalhando esses momentos, mas sim auxiliando. O ritmo, servindo aos objetivos do culto, deve apontar para eles e não chamar muita atenção para si mesmo. 

Aplicação geral

Com base nesses princípios, creio que é possível concluir que não necessariamente há ritmos bons e ruins. O que há, certamente, são músicas adequadas ou inadequadas para o culto. Também é possível concluir que este fato não implica, necessariamente, que todas as músicas de determinados ritmos são apropriadas ou inapropriadas para o culto. Uma vez que os arranjos dentro de um estilo musical são infinitos e que os estilos musicais também podem ser mesclados, isso torna possível que muitas músicas de um estilo não sirvam para um culto, mas que muitas sirvam. O mais sábio não é ir além da Bíblia (I Co 4:6) para condenar um estilo específico, mas avaliar música por música à luz dos princípios elencados e da cultura e necessidades da comunidade local. 

É preciso reconhecer ainda que tal avaliação é mais fácil de fazer quando lidamos com extremos, porém mais difícil nas zonas cinzentas. A maioria dos crentes provavelmente não teria dificuldade de perceber certas inadequações para o louvor congregacional. Para citar alguns exemplos: heavy metal é rápido, pesado e difícil demais para servir de cântico congregacional; música eletrônica é extremamente dançante, além de ofuscar a letra; rap não é fácil de ser cantado, decorado e entendido; música clássica não tem letra; alguns gêneros musicais como funk e sertanejo universitário estão muito ligados à letras sensuais, sendo difícil separar uma coisa da outra. São inadequações extremas e, portanto, facilmente identificáveis. 

No entanto, entre os extremos há um vasto campo de possibilidades. Cada estilo musical permite uma infinidade de arranjos distintos. E os estilos também podem ser mesclados. Assim, em muitos casos, fora dos extremos, existirão divergências de opinião. Creio que tentar bater o pé em alguma posição dentro dessas zonas cinzentas é errôneo. Saindo dos extremos, o que temos é muita subjetividade. E isso parece indicar que neste ponto cada caso é um caso. A depender da cultura e da opinião do pastor, dos músicos e da membresia de cada igreja local, as escolhas podem diferir um pouco. O importante não é o estabelecimento de uma regra rígida, já que a própria Bíblia não o faz. O importante é a capacidade de, mesmo na diversidade, preservar certos limites mais claros na Bíblia. 

Finalmente, devemos ter em mente que a discussão sobre música é secundária na fé cristã. Isso não quer dizer que ela seja desnecessária e sem importância. Mas há dezenas de temas mais importantes e mais urgentes. O foco nessa discussão em detrimento das outras é sempre um sinal de atrofia espiritual e teológica. Os jovens, em especial os mais progressistas, que fazem da música um cavalo de batalha, geralmente o fazem porque vibram mais com música do que com temas teológicos fundamentais à fé. Estão inebriados de emocionalismo e busca por êxtase. Por outro lado, tradicionalistas, sobretudo os mais velhos, às vezes fazem da música o mesmo cavalo de batalha porque se acostumaram a focar em minúcias e não usar o senso das proporções. Eles também não tem interesse nos temas teológicos mais profundos. Estão imersos no tradicionalismo e é só isso que enxergam. 

Creio que uma igreja saudável não gasta tempo e energia com discussões minuciosas sobre o louvor. Afinal, há coisas mais importantes pelas quais se esforçar e vibrar. Para quem é mais bíblico, basta que o louvor compra suas funções bíblicas. O resto é secundário. 

A música fora do culto

Aqui cabem algumas palavras sobre a música fora do culto. É possível que uma música cristã não apropriada para um culto público seja apropriada para fora do culto? Eu creio que sim. O culto, por ser público, e possuir alguns objetivos específicos, requer maiores cuidados. O louvor individual ou mesmo a apreciação de músicas mais desassociadas da adoração direta (como no caso das músicas seculares ou das músicas cristãs que focam em temas da vida cotidiana) permitem maior liberdade. 

Ainda assim, todo o crente deve fazer algumas avaliações sobre o conteúdo que escuta fora do culto. A letra que ouço fere as doutrinas bíblicas? O ritmo me causa algum tipo de sentimento ou pensamento pecaminoso? O ritmo me remete à lembrança vivas de coisas erradas que já fiz? Ao ouvir certa música, eu enfraqueço a fé de irmãos mais fracos? Ao ouvir certa música, ela me faz gostar menos das músicas congregacionais e dos louvores mais diretos? Eu já fui ou sou viciado em algum tipo de música? Qual é o impacto de certas músicas que ouço sobre minha espiritualidade e adoração a Deus? Se as respostas a essas perguntas indicarem que determinados conteúdos causam mal espiritual ao crente e não bem, então eles não devem ser ouvidos. Do contrário, nada na Bíblia condena o gosto musical desse crente.

O papel de Ellen White nessa discussão

Quando fazemos uma avaliação realmente bíblica sobre o assunto música, pautada nas regras básicas de interpretação e no princípio do Sola Scriptura, ficamos em melhores condições de entender Ellen White. Os conselhos da profetisa visavam os princípios aqui destacados: manutenção da finalidade do culto, um culto racional, um culto feito para o público participar e a centralidade de Deus. Por exemplo, ela alertava contra músicos que faziam muitos floreios ao cantar músicas no culto, pois evidentemente isso chamaria mais atenção para o músico do que para o louvor cantado.[14] Ela chegou a falar também sobre os extremos, como louvores que pudessem gerar uma agitação irracional[15] ou que parecessem músicas de funeral.[16] Ela também falava sobre a importância de haver mais momentos no louvor em que toda a congregação pudesse participar dos cânticos.[17]

Em suma, White não se atreveu a criar novas regras não bíblicas para o louvor. De modo semelhante, não devemos nos atrever a isso. Principalmente, usando os escritos dela para esta finalidade. Nossa missão nunca deve ser ultrapassar a Bíblia, mas fazer das Escrituras nossa regra de fé, prática e doutrina em todos os assuntos. Inclusive na música.


[1] Manual da Igreja, versão 2010, p. 170.

[2] “Declaração de Crenças Fundamentais”. Disponível em: http://www.centrowhite.org.br/iasd/crencas-fundamentais-dos-adventistas-do-setimo-dia/

[3] DEDEREN, Raoul (Org.). “Tratado de Teologia Adventista”, Tatuí, SP: Casa Publicadora

Brasileira, 2011, p. 49.

[4] Ibidem, p. 70-71.

[5] Ibidem, p. XIV.

[6] Ibidem, p. 24.

[7] AMAGASD. “Nisto Cremos: AS 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia”. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2017, p. 6-7.

[8] Ibidem, p. 11.

[9] FROOM, LeRoy E., READ, Walter E., ANDERSON, Roy A. “Questões sobre Doutrina”. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007 (edição especial de cinquenta anos desde a publicação original – comentada por George R. Knight), p. 54.

[10] Manuscrito 37, 1890. Disponível na íntegra em <https://m.egwwritings.org/en/book/428.4123#4125>.

[11] Carta 7, 1888. Ao irmão Healey. Disp. na íntegra em <https://m.egwwritings.org/en/book/4467.1#14>.

[12] Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 105-107.

[13] The Signs of the Times, 6 de Fevereiro de 1893. “Bençãos do Estudo da Bíblia”. Disponível na íntegra em <https://m.egwwritings.org/en/book/820.11451#11458>.

[14] Evangelismo, p. 510.

[15] Mensagens Escolhidas, V2, p. 36.

[16] The Signs of the Times, 22 de Junho de 1882. “A escola dos profetas”. Disp. na íntegra em: <https://m.egwwritings.org/en/book/820.4498>.

[17] Testemunhos, V9, p. 144.