Por Davi Caldas

Quando um cristão adota a perspectiva mortalista a respeito da alma humana, uma das mais intrigantes questões que surge é sobre a natureza da morte de Cristo. A perspectiva mortalista entende que a morte atinge todo o ser do homem, negando que a mente humana sobreviva à falência do corpo. Em outras palavras, o que a maioria das pessoas entende como “alma” não teria imortalidade inata, mas morreria juntamente com o corpo humano. A questão que surge sobre a natureza da morte de Cristo aqui é a seguinte: se a própria mente do homem morre, a mente de Cristo morreu. Mas se Cristo é Deus, então segue-se que a mente de Deus morreu. No entanto, como a mente de Deus poderia morrer? Deus é descrito na Bíblia como eterno, imortal, autor da vida, criador de tudo e todos. A própria lógica indica que o universo necessita de um ser criador que tudo transcende, sendo assim onipotente e infinito. Assim sendo, supor que a mente de Deus pode morrer parece ser um contrassenso e uma heresia.

A saída da maioria dos cristãos para esse dilema é reafirmar o conceito de imortalidade da alma. O corpo morre, mas a mente sobrevive como uma entidade imaterial (alma) que irá para o céu ou para o inferno. Assim também Cristo morreu apenas corporalmente, indo sua alma para outros lugares e voltando ao corpo posteriormente na sua ressurreição.

Essa maneira de interpretar, contudo, esbarra em dois problemas. O primeiro, que já tratei em outras oportunidades, é o fato de que a Bíblia possui vários textos que suportam uma perspectiva mortalista em vez da imortalista. As poucas passagens que parecem oferecer margem para o conceito de alma imortal podem ser muito bem interpretados sob uma ótica mortalista, casando melhor com o restante do ensino bíblico. Ademais, é fato histórico que o conceito de imortalidade da alma só começou a se tornar mais comum entre os judeus no período intertestamentário, a partir de influências gregas. Após a era apostólica, essa influência se faria mais forte na Igreja por conta da predominância gentílica na patrística, da antipatia crescente em relação aos judeus e aos judaísmo, e do impacto da alegorese da Escola de Alexandria, que permitiria aos líderes usar da alegoria para costurar sínteses entre a Bíblia e a filosofia grega. Em suma, não parece que o conceito de imortalidade inata da alma flui de fato das Escrituras Sagradas.

O segundo problema – e este é o que quero realmente tratar aqui – é que o conceito de imortalidade inata da alma implica que apenas a parte humana de Cristo morreu por nós na cruz. Afinal, se a consciência de Deus não pode morrer, segue-se que quem morreu na cruz foi apenas um corpo humano. E um mero corpo humano não poderia salvar o homem do pecado e da morte. A solução imortalista para esse problema tem sido apontar que como Jesus é 100% Deus e 100% homem – conceito denominado “união hipostática” –, segue-se que seu corpo é tanto humano como divino. Assim, o corpo que morreu na cruz era humano e divino, o que implica que Deus morreu corporalmente.

A solução pode parecer convincente à primeira vista, mas precisamos avalia-la mais detidamente. Por mais que eu concorde que Jesus Cristo é 100% homem e 100% Deus, dificilmente pode-se dizer que o corpo de Jesus era 100% humano e 100% divino. Em primeiro lugar, isso é contraditório. Se construo uma mesa só com madeira, não posso dizer que ela é totalmente de madeira e totalmente de ferro. Da mesma forma, se construo uma mesa metade ferro e metade madeira, não posso dizer que ela é toda de ferro e toda de madeira. A conta não fecha. Portanto, parece lógico que Jesus não pode ter o corpo totalmente divino e totalmente humano ao mesmo tempo e no mesmo sentido.

Em segundo lugar, dificilmente um imortalista poderia responder satisfatoriamente sobre o que é um “corpo divino”. Imortalistas, como a maioria dos cristãos, não creem que Deus tenha um corpo e que seja material. Logo, o corpo de Jesus só poderia ser totalmente humano, mesmo ele sendo Deus. O que temos aqui é que Deus assumiu um corpo de homem, fez-se carne. Mas isso não torna esse corpo divino. Pelo menos não no sentido constitutivo. O corpo de Jesus não era formado de átomos, moléculas e células de um tipo divino. Seu corpo era humano. Há um único sentido em que o corpo humano de Jesus é também divino: o sentido de pertencimento. O corpo humano assumido por Cristo fazia parte de sua existência humana. Logo, era o corpo humano de Deus.

No entanto, se Deus se sacrifica para salvar as mentes dos homens (e não meramente os seus corpos), não faz sentido que sua morte atinja apenas o corpo. O que se tem aqui é a parte ontologicamente divina continuando viva, enquanto a parte ontologicamente humana morre. O sacrifício não afeta a mente de Cristo, o que nos leva a questionar se poderia salvar as mentes dos homens. No fim das contas, esse sacrifício só seria a morte de Deus num sentido muito limitado: Deus entrega na cruz o corpo humano que usou na terra. Não é um sacrifício ontologicamente divino.

A problemática imortalista se estende para o próprio homem comum. A Bíblia garante que o salário do pecado é a morte (Gn 2:17 e 3:19; Rm 6:23). Ora, conquanto a mente faça uso do corpo para pecar, o pecado surge na mente. O corpo é apenas o veículo. E este veículo será transformado na ressurreição (I Co 15:36-58). Assim, a morte não deveria atingir apenas o corpo, mas sobretudo a mente. Se o corpo se acaba por causa do pecado, a mente deveria seguir o mesmo fim. Mais que isso: se Deus é a fonte da vida e é o afastamento de Deus que causa a morte, segue-se que a morte deveria ser completa. Sem Deus não há alegria e plenitude, tampouco a própria existência.

Esse raciocínio se coaduna com a descrição bíblica da criação do homem e da natureza de sua morte. Na criação, o homem passa a ter vida e consciência no momento em que Deus une barro e fôlego de vida (Gn 2:7). Na morte, os elementos são novamente separados (Ec 12:7). A lógica nos força a concluir que nessa separação, o homem torna a não ter vida e consciência, o que é confirmado em vários textos (Ec 9:5-6; etc.). Em suma, não faz qualquer sentido pensar que o pecado leva o homem à morte apenas de seu corpo, enquanto a mente, originadora dos pecados, permanece viva e consciente.

A implicação básica do imortalismo, portanto, é que o homem não morre de fato. O corpo morre, mas o homem em si permanece vivo, o que torna a morte uma mera “viagem” para outro plano de existência. De igual forma, Jesus não morre de fato. Assim, nem a mente do homem é punida com a morte, nem o sacrifício de Cristo realmente é feito pelas mentes humanas. O que torna tudo ainda mais estranho é que se desde sempre a morte daqueles que andaram com Deus foi uma viagem para um lugar bom, segue-se que a morte do corpo, para os servos de Deus, nunca foi uma maldição, mas uma benção, uma escapatória desse mundo cruel. A vida desse corpo é que seria uma maldição. Se esse é o caso, não faz sentido que a morte tenha sido apresentada por Deus como algo ruim, o pior resultado do pecado. Não faz sentido que os servos de Deus sempre a tenham encarado a morte com maus olhos. Não faz sentido que desde sempre a morte não tenha sido desejada por todos os servos de Deus e fortemente comemorada pelos que ficam.

Tudo isso parece indicar que a morte não afeta só o corpo. A morte é o fim de toda a vida, tanto do corpo como da mente. É isso o que a torna tão aterradora. A morte não é um presente, uma viagem para um lugar melhor, um caminho preferível à vida do corpo físico. Ela é a perda de tudo o que Deus um dia nos deu, incluindo nossa consciência. Na morte, recebemos aquilo que o pecado implica: a separação total de Deus. A equação é simples. Ao nos tornarmos pecadores, tornamo-nos impuros. Ao nos tornarmos impuros, renegamos a Deus. Ao renegarmos a Deus, renegamos a vida. É por isso que Paulo e João veem a morte como um inimigo que precisa e que será derrotado quando Cristo Jesus voltar, ressuscitar os mortos e punir os ímpios (I Co 15:54-57; Ap 20:13-14 e 21:4).

Mas se a visão imortalista é tão problemática, como lidar com a questão da morte da mente de Deus? Afinal, Deus pode morrer? Proponho aqui algumas teorias nas quais me arvoro para tentar contornar essa problemática. É preciso, contudo, reconhecer que a Bíblia não explica a questão. Logo, qualquer teoria fica no campo da possibilidade. Não pretendo dar uma resposta final. Sigamos.

No geral, os mortalistas descrevem a morte em termos de inexistência do ser. Contudo, questiono se essa é a maneira mais precisa de definir a morte. Eu prefiro trabalhar com a ideia de “desativação da consciência”. Entendo consciência como todo o conjunto de pensamentos, sentimentos, experiências, gostos, opiniões, juízos, raciocínios e noções de identidade, individualidade e personalidade. É o que podemos chamar de nosso “eu” ou nossa mente. É, em última instância, quem somos e o que construímos no decorrer de nossa vida. Dentro da perspectiva mortalista, essa consciência é desativada no momento em que morremos. Mas isso não me parece levar ao conceito de inexistência do ser.

Note: se as memórias de um homem que morreu existiram, então há um conjunto de memórias que formam esse “eu” específico. Elas apenas estão desativadas. Em um mundo sem Deus e estritamente materialista, essa desativação poderia ser descrita como inexistência. As memórias simplesmente se perdem com a morte do cérebro. Contudo, num mundo com Deus, a consciência desativada continua existindo na mente de Deus. É como se a consciência fosse um HD contendo todas as nossas informações mentais. Na morte, essas informações se desativam. A analogia é com um computador mesmo. Se alguém desconecta o computador da tomada e retira o HD e o esconde, ninguém poderá acessar os arquivos que lá estão. No entanto, se o HD é posto novamente na máquina e ela é conectada à energia, os arquivos podem ser novamente usados. Deus, portanto, seria aquele que detém o “HD” dos mortos e que sabe como fazê-lo funcionar de novo. 

O pensamento faz sentido. Se Deus é o criador e o mantenedor da vida humana, Ele é como o técnico que instala o HD na máquina e a energia que mantém o computador ligado. Sem a pessoa que instala o HD e a energia elétrica, o computador não liga, mesmo que o disco rígido esteja repleto de arquivos. Sem Deus, a mente do homem não funciona, ainda que esteja cheia de memórias. Portanto, enquanto a morte do ser humano é a desativação da consciência, a ressurreição é a reativação. Deus possui todos os backups.

A implicação disso para a morte de Cristo é que a sua mente/consciência não deixou de existir. Ela apenas foi desativada temporariamente e armazenada na “estante de backups” do Pai e do Espírito Santo. A pergunta é: Deus pode desativar a sua consciência? A evidência bíblica parece apontar que sim. Quando Cristo encarna, por exemplo, assume as limitações e dificuldades humanas (Fl 2:5-8; Hb 2:17-18 e 4:15). Logo, na encarnação, Cristo também abriu mão de sua onisciência. Jesus, no máximo, podia receber algum insight do Espírito Santo, tal como os profetas. Contudo, enquanto homem, ele não sabia todas as informações do presente, do passado e do futuro. Mesmo o tempo de seu retorno para buscar a Igreja era um mistério para ele (Mt 24:36; Mc 13:32). Isso nada mais é do que uma desativação de parte da consciência divina que Cristo tinha antes da encarnação.

Em certo sentido também, Cristo tinha sua consciência parcialmente desativada todas as noites, quando dormia. Embora a consciência do homem ainda esteja funcionando no sono, ela não está em pleno funcionamento. Cabe lembrar que Deus, na forma original de Deus, sequer dorme. Ou seja, Cristo, como homem, realmente mergulhou em um amplo processo de desativação de seus atributos divinos. Portanto, não parece um absurdo dar um passo adiante e dizer que Cristo Jesus também podia ter sua consciência totalmente desativada na morte.

Isso torna a morte de Cristo muito mais impressionante. Cristo vai ao mais fundo buraco possível, “perdendo” a própria consciência. E aqui tudo faz sentido. Ao passar pela morte da própria mente, Cristo habilita-se a justificar a mente de todos os homens. Ele pode limpar o pecado onde o pecado se origina. Ele pode devolver aos crentes tanto mente quanto corpo, já que provou a morte nos dois sentidos. Ele pode salvar o homem por inteiro. Além disso, a morte aqui se torna um inimigo muito mais terrível. É um inimigo que tenta calar o próprio Deus, coisa que uma mera morte corpórea não tem como fazer, já que a mente permanece viva e se comunicando. Por conseguinte, a vitória de Cristo ao ressurgir da tumba e a sua futura vitória no juízo final tornam-se muito mais gloriosas.

A perspectiva de desativação de atributos não só explica bem a morte de Cristo, mas a problemática da união hipostática – como Jesus Cristo pode ser 100% homem e 100% Deus. Ora, Jesus é 100% Deus porque sua natureza é originalmente divina e ele não a perde, apenas a desativa, tendo todo o poder para reativá-la. Jesus é 100% homem porque ao desativar sua natureza divina, assume a natureza humana. Assim Cristo possui todas as potencialidades divinas e todas as potencialidades humanas, cabendo a Ele a escolha de qual ativar e qual desativar.

É precisamente por causa das potencialidades divinas de Jesus que Satanás o tentou com a ideia de transformar pedras em pães e de se jogar do pináculo do templo e ordenar a proteção dos anjos (Mt 4:2-7). Essas habilidades estavam desativadas, mas ainda eram potencialidades, pois Cristo era divino. As palavras de Satanás são autoexplicativas: “Se és Filho de Deus”. Cristo era. Cristo podia fazer tudo aquilo. Mas sua função na terra era viver como um homem e só fazer aquilo que o Pai queria e que o Espírito lhe permitia. O ponto chave para entender, portanto, o ministério e a morte de Cristo é a noção do poder de desativar seus próprios atributos divinos. Cristo, sendo Deus, pode se esvaziar.

Por fim, podemos ainda trabalhar uma questão interessante: Deus poderia desativar seus atributos divinos em todas as pessoas da Trindade? Ele poderia se desativar plenamente e para sempre, como que deixando de existir? Essa é, obviamente, uma ideia absurda, já que Deus simplesmente é; e não pode deixar de ser. Mas, então, como explicar que Jesus pode desativar a sua consciência, mas não toda a Trindade? Aqui, mais uma vez, entramos em especulações, as quais não podem ser provadas. No entanto, não vejo mal em trabalhar essas ideias de modo não dogmático. Vejamos.

A meu ver, é possível que existam leis lógicas que impedem Deus de desativar todas as pessoas da Trindade. Para entender esse conceito, precisamos primeiro relembrar algo que já disse em várias outras ocasiões: lógica é um dado da realidade. Ela é eterna, assim como a moral. Esses dois atributos fazem parte do ser de Deus. É por isso que nós usamos a lógica para tudo: falar, contar, argumentar, descobrir o funcionamento das coisas, explicar, pesquisar, escrever, convencer, etc. Tudo o que Deus criou tem lógica, pois expressa sua própria natureza lógica. Daqui depreendemos que Deus não pode ferir as leis da lógica. Ele pode, claro, fazer coisas que não conseguimos entender por conta de nossa limitação. Mas isso não significa que essas coisas são ilógicas. Da mesma forma, eu posso não entender como um avião voa. Mas isso não faz com que o avião voar seja ilógico.

Uma das leis da lógica é a lei da não contradição. Ela diz que A não pode Não-A ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Uma coisa anula a outra. Colocando em exemplos: não pode haver um solteiro casado, um quadrado redondo, um corrupto honesto. Essas coisas são contradições lógicas. Elas sequer podem existir. Ora, essa é uma das leis que Deus não fere. Deus não faz coisas contraditórias. Ele não pode, por exemplo, existir e não existir ao mesmo tempo e no mesmo sentido. É um erro descrever a onipotência divina como a capacidade de fazer tudo, até contradições lógicas. Há coisas que Deus não pode fazer porque são ilógicas. Isso não reduz Deus. Apenas mostra que Deus tem uma natureza lógica. Se isso ficou claro para o leitor, podemos prosseguir.

Eis aqui como enxergo a questão: uma vez que Deus, por definição, não pode deixar de ser Deus, parece razoável que a própria lógica torne impossível que os atributos divinos sejam “perdidos”. Em outras palavras, se uma ou das pessoas da Trindade desativa seus atributos, necessariamente eles são “guardados” pelas outras duas. Se duas pessoas desativam seus atributos, necessariamente a terceira “guarda” esses atributos. E se a terceira desativa também seus atributos, estes retornam às outras duas.

Podemos tentar visualizar melhor essa hipótese com uma analogia. Como toda a analogia em relação à natureza de Deus, ela é bastante limitada. Mas foquemos apenas naquilo em que ela consegue nos ajudar. Imagine que três caixas de água com as mesmas medidas e cúbicas estão interligadas por canos. Cada uma delas está com água até um terço da sua capacidade. Acima de cada uma delas há uma espécie de soquete de ferro, com as mesmas medidas de suas superfícies retangulares. Quando uma pessoa empurra um soquete até o fundo da caixa, toda a água escoa pelo cano para a segunda e a terceira caixas. Quando dois soquetes são empurrados, a água das duas caixas escoa para a terceira. Nesse sistema, é impossível que a água simplesmente suma das três caixas – salvo se os três soquetes forem empurrados junto com força tal que a água rompa as próprias caixas. Mas se as caixas tiverem mais resistência que a pessoa que empurra os soquetes, tal cenário é impossível.

A analogia, evidentemente, é limitada no sentido de que os atributos divinos não são mensuráveis, mas infinitos. Mas ela serve para mostrar que é possível haver sistemas em que “algo” pode ser repassado, mas não destruído. A lei de Lavoisier parece ir nesse sentido: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Eu posso queimar uma árvore, mas sua matéria não se perderá. Apenas se transformará em cinzas. Talvez haja uma lei da sobrenatureza ou do próprio ser de Deus que diga o mesmo. A Trindade não pode se desativar por completo.

Outra maneira de ver a questão é pensando na própria “estante de backups”. Se cada pessoa da Trindade é uma “estante de backups” das consciências, e as consciências automaticamente são armazenadas nessas estantes quando desativadas, é impossível os três fazerem isso ao mesmo tempo. Afinal, isso implicaria o uso automático das três “estantes” para guardar as três consciências, o que exige que as três consciências estejam ativas. Ou seja, o efeito seria tão nulo quanto duas pessoas empurrarem uma cadeira com a mesma força para direções diametralmente opostas.  

Ainda outra hipótese é que uma desativação completa da Trindade seria possível, mas levaria à destruição do universo, já que o universo é sustentado por Deus. Ora, mas se o universo é destruído, isso significa que tempo, espaço e matéria voltam a não existir, tal como era no estado pré-criação. Ou seja, a destruição do universo traz de volta o estado de atemporalidade. Como na atemporalidade não há mudanças e Deus não mais experimenta o tempo, isso implica um retorno de Deus ao estado original, onde sua consciência é ativa. Logo, a desativação completa da Trindade levaria imediatamente à destruição completa e a reativação completa de Deus. Se isso estiver correto, então a desativação completa da Trindade não poderia levar Deus à “morte eterna”. Mais uma vez, o efeito seria nulo.

Tudo isso é pura especulação, claro. Não nos foi dado conhecer os mistérios da natureza divina. E talvez nunca entendamos nenhuma dessas coisas, mesmo na eternidade. Mas o ponto aqui não é tentar descobrir a resposta certa. O ponto é mostrar que boas explicações envolvendo a possibilidade de desativação da consciência divina são possíveis. E se é possível criar hipóteses válidas, ainda que não possam ser provadas, isso já prova, ao menos, que a morte de Jesus na perspectiva mortalista não necessariamente é algo ilógico e antibíblico.