Por Davi Caldas

Muita gente acredita que Jesus proibiu aos cristãos o uso de armas para se proteger de agressores. Em geral, a principal base alegada para essa posição está em Mateus 26:52, onde Jesus diz a Pedro: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. No contexto, Pedro tentava defender Jesus dos soldados que acabavam de o prender no Jardim das Oliveiras. A conclusão de muitos é: “Portanto, o cristão não pode usar armas”. Há, no entanto, pelo menos dois graves problemas nessa interpretação. E é sobre isso que quero falar nesse texto.

O primeiro ponto problemático nessa interpretação é que ela não leva em conta as próprias razões que Jesus oferece a Pedro para guardar a espada. Jesus não diz que Pedro deveria guardar a espada porque cristão não podem usar armas ou porque a autodefesa é um pecado. A primeira razão para guardar a espada é a segurança do próprio Pedro e, por extensão, dos primeiros seguidores de Cristo. Para Jesus, quem fizesse uso da espada acabaria sendo morto por ela.

Antes de prosseguir, é preciso pensar um pouco sobre isso: é certo que quem usa espada morrerá pela espada? Em termos gerais, certamente não. Não podemos dizer que todos os soldados da história morreram pela espada. Isso não pode ser dito nem da maioria dos soldados. Trazendo a questão para os dias de hoje, é evidente que nem a totalidade, nem a maioria dos policiais morre alvejado por um tiro – mesmo em lugares violentos como o Brasil. Ainda que deixemos de lado as forças policiais e pensemos apenas em termos de civis, também não é verdade que todos ou a maioria dos que usam armas morrem por meio delas. O que, então, Jesus quis dizer? Eis a importância do contexto.

A fala de Jesus não ocorre num vácuo histórico. Ela se situa em um período no qual o império romano dominava com mão de ferro grande parte do mundo, incluindo Israel. As revoltas eram duramente reprimidas pelo império e qualquer movimento de pessoas que parecesse suspeito à Roma tornava-se alvo de suas milícias. Além disso, os judeus sofriam preconceito por parte de muitos cidadãos romanos, que os viam como um povo esquisito e até soberbo. Ademais, os líderes judeus mais influentes odiavam os seguidores de Jesus, estando dispostos, portanto, a denunciá-los e entregá-los às autoridades romanas por qualquer atividade suspeita. Some-se a isso o fato de que existiam grupos revolucionários entre os judeus, como os zelotes. Ou seja, não era difícil as autoridades romanas e judaicas atribuírem a qualquer grupo armado de judeus a pecha de revolucionários. 

Quando, então, Pedro, um judeu seguidor de Cristo que vivia debaixo do domínio romano, resolve cortar a orelha de um servo do sumo-sacerdote judeu, sua ação o colocava na mesma posição de qualquer revolucionário anti-império, em termos de segurança. É dentro desse contexto que a fala de Jesus deve ser entendida. Jesus estava dizendo o óbvio: qualquer revolução será massacrada pelos romanos. E qualquer aparência de revolução, ainda que não seja, provavelmente será vista como tal. Nesse contexto, a frase de Jesus é certeira: quem usava espada, quase certamente morria pela espada. Ao cortar a orelha do servo do sumo-sacerdote, portanto, Pedro não só colocava a própria vida em risco como também a existência de todo o movimento cristão.

Ora, só com essa primeira avaliação já vemos que a frase de Cristo está circunscrita a um contexto muito específico. De fato, podemos pensar facilmente em contextos distintos onde a frase de Jesus poderia ir no caminho oposto. Por exemplo, a um soldado Jesus poderia dizer: “Use a espada, pois o soldado que não usa espada morrerá por ela”. Faz todo o sentido. Coisa semelhante poderia ser dito hoje a um fazendeiro que mora longe das autoridades policiais: “Tenha uma arma, pois fazendeiro que não tem arma fica sem proteção alguma contra invasores”. No contexto em que os apóstolos viviam, a melhor forma de se proteger era não afrontando o império, nem parecendo suspeito. E, por isso, o uso da espada muitas vezes seria problemático. Mas há contextos em que a melhor forma de se proteger é fazendo uso da espada. Portanto, não dá para dizer que a frase de Jesus se aplica a todo e qualquer contexto.

Há uma segunda razão dada por Jesus para Pedro guardar a espada. E essa também é ignorada pela interpretação desarmamentista. O texto de Mateus continua:

“Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?” (Mt 26:53-54).

A explicação de Jesus é clara. Ele tem poder para se defender de qualquer um por vias sobrenaturais. Se não o faz é porque isso faz parte de seu desígnio, de sua missão. E nós sabemos qual era a missão de Cristo: entregar-se à morte pela humanidade. Portanto, qualquer pessoa que, naquele momento, intentasse salvá-lo estaria literalmente lutando contra os planos redentores de Deus para o homem.

A mesma ideia é expressa de modo mais direto no evangelho de João. Ele relata o episódio da seguinte maneira: “Mas Jesus disse a Pedro: ‘Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?’” (João 18:11). Ou seja, a parte central da repreensão é que Pedro estava lutando contra os planos de Deus. O problema não estava no uso da espada, mas no momento, que era inoportuno. Não há, nessas razões dadas por Jesus, nenhuma margem para a ideia de que o uso de armas para defender é, em si mesmo, um pecado.

O segundo problema da interpretação desarmamentista é o seguinte: ela ignora o que o Antigo Testamento diz sobre legítima defesa. Há pelo menos quatro passagens que deixam bastante claro que a autodefesa ou defesa do próximo em relação a agressores não só é permitida como esperada e até abençoada por Deus: Ex 22:2-3, Gn 14:10-20, Dt 22:25-27 e I Sm 30:1-18.

Aqui é importante lembrar: Jesus e os apóstolos eram judeus. O que nós chamamos de Antigo Testamento era a Escritura deles. É sobre o AT que Jesus fala quando diz que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas cumprir (Mt 5:17-20). É sobre o AT que Jesus fala quando diz que a Escritura não pode falhar (Jo 10:35). É o AT que Paulo chama de Escritura e diz ser toda inspirada (II Tm 3:14:16). É no AT que estão os dez mandamentos (Êx 20:1-17), os quais são repetidos pelos apóstolos e Jesus diversas vezes (Mt 15:3-6, 19:18-19; Mc 7:6-13, 10:19; Lc 18:20; Rm 2:21-29, 13:8-10; Ef 6:1-3; Tg 2:8-11).  

Em suma, AT é tão inspirado quanto o NT. Ambos foram uma Bíblia só. Portanto, não podemos interpretá-la em contradição consigo mesma. Se no AT a legítima defesa é considerada algo lícito, Cristo e os apóstolos não poderiam contradizer isso, pois tal postura os faria contrários à própria Escritura que diziam seguir; e Cristo, aliás, estaria sendo contrário à própria Escritura que, sendo um com o Pai e o Espírito Santo, inspirou no passado.

O que essa análise nos ensina vai além da simples questão do uso das armas. Ela toca a questão da interpretação. Quando vamos interpretar um texto é essencial avaliar com cuidado os contextos. O que está sendo discutido? A quem, primariamente, a mensagem está sendo dirigida? Em que período, lugar e cultura a discussão ocorre? O problema e as soluções ali postas se aplicam a todos os tempos, lugares e culturas? Há algum princípio atemporal incluído na discussão? Há questões contextuais? Como as duas coisas se relacionam? A interpretação que fazemos tem coerência com o restante da Bíblia? A interpretação que sugerimos respeita todos esses contextos?

No exemplo tratado nesse texto, a interpretação desarmamentista simplesmente não faz nenhuma dessas perguntas. Ela ignora as razões que Jesus oferece a Pedro, o contexto histórico-cultural em que eles viviam, a constatação lógica de que a frase de Jesus não se encaixa em qualquer contexto, o fato de que o AT permite a legítima defesa e o fato de que Jesus e os apóstolos eram judeus e seguiam o AT. Isso sem contar questões mais dedutivas como a de que a autodefesa e a defesa do próximo estão de acordo com o dever que o servo de Deus tem de cuidar bem do próximo e de tudo o que o Senhor lhe deu (o que inclui a sua própria vida, integridade física, familiares, amigos e bens). Ou ainda: o fato de que mesmo sem armas, o instinto natural de quem está sendo agredido ou vendo seus próximos sendo agredidos é iniciar uma defesa, o que não parece ser um pecado, mas um mecanismo importante e válido de preservação.

Tudo o que esta interpretação é destacar a ordem de Jesus de todos os contextos e aplicá-la de modo generalizado. Eis um exemplo de péssima interpretação. Aqui, portanto, aprendemos a lição de que intepretação bíblica exige mais do que simplesmente destacar frases de seu contexto.

Quanto às armas, que lições podemos aprender para nós hoje? A meu ver, duas. A primeira é que não é proibido a um cristão adquirir e usar armas para proteção pessoal e das pessoas à volta. Evidentemente, o uso desse instrumento exige responsabilidade, cuidados e um forte senso de amor. Ninguém deve adquirir armas com o desejo de um dia poder matar pessoas. Um cristão que adquire armas deve desejar, no coração, nunca precisar matar ou machucar nenhum agressor.

A segunda é que há contextos em que o cristão deve abrir mão do uso de armas para a autodefesa e a defesa do próximo. No caso dos apóstolos, o uso de armas para defesa contra agressores poderia não só atrair a fúria do império romano como gerar, para o povo comum, uma imagem falsa do que era o evangelho e de quem eram os cristãos. A fé cristã não poderia ser confundida com um movimento paramilitar e revolucionário. Não era essa a mensagem de Jesus. Ou seja, nesse contexto, o direito à autodefesa geralmente teria de dar lugar ao martírio. De maneira semelhante, se nos dias de hoje missionários vão pregar em um país pouco amigável aos cristãos ou em uma região controlada por narcotráfico ou milícias, andar armado não será uma boa ideia.

Por outro lado, em contextos onde o cristianismo já é bem aceito pela população, há um ambiente de tolerância religiosa, a legislação do país permite o uso de armas pelo cidadão comum e o evangelho não será prejudicado pelo fato de alguns (ou muitos) cristãos terem armas, não há nada na Bíblia que condene essa opção. Na verdade, em contextos assim o uso de armas por cristãos pode ser até mesmo uma forma de amor ao próximo. Várias são as razões para isso. Primeira: um cristão armado pode salvar o próximo de um agressor, como um estuprador, sequestrador, invasor ou assaltante. Segunda: quanto mais cristãos verdadeiros tiverem armas em um país que o permita, mais armas estarão nas mãos de pessoas boas (no sentido civil). Terceira: quanto mais pessoas armadas em uma região amplamente cristã, menor será o estímulo para que criminosos cometam crimes violentos nessa região.

Outro benefício do uso de armas pelos cristãos em contextos propícios para isso é o incentivo ao fortalecimento de características como responsabilidade individual, defesa do próximo e maior autonomia em relação ao Estado. Obviamente, nada disso será criado se esses cristãos não viverem, de fato, uma vida cristã. Aqui é importante que os valores familiares e bíblicos sejam nutridos pelos indivíduos, pelas famílias e pelas igrejas. Não obstante, aos cristãos que vivem o cristianismo prático, o uso de armas pode ser muito útil para a sua comunidade como um todo.