Por Davi Caldas

Há cerca de um mês, um leitor fez um comentário em um artigo meu no Reação Adventista chamado “O Mito do Inferno Eterno – Parte 1”. O artigo, como o título já sugere, argumenta que a crença no inferno como um lugar de tormento eterno é equivocada, não possuindo boa base bíblica nem lógica. Como, no entanto, o texto não faz uma análise específica de cada passagem a respeito desse tema na Bíblia, mas apenas uma avaliação mais geral, o leitor em questão quis saber minha interpretação sobre o texto de Mateus 25:46. Em suas palavras:

“Por favor, como vc entende estas palavras de Jesus: ‘E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna’ (Mt.25:46) ??? O que significa ‘tormento eterno’?”.

Em um primeiro momento, respondi como responderia a respeito de praticamente qualquer outro texto bíblico que traga a expressão “eterno”:

“Obrigado pelo comentário. Sobre esse texto do tormento eterno, é importante destacar que os termos originais gregos e hebraicos para ‘eterno’ podem ter o sentido de ‘por tempo indeterminado’, ‘por muito tempo’ ou ‘durante todo o tempo que durar’. O que indica esses sentidos são as palavras adjetivadas. Se, por exemplo, as palavras adjetivadas expressam coisas finitas, o sentido é um desses referido, não o sentido de eternidade. Deve-se lembrar ainda que essas expressões são derivadas de textos do AT que eram claramente hiperbólicos e figurativos, como Isaías 34. Portanto, devem ser lidos de modo semelhante.

Com isso em mente, podemos dizer que tormento eterno é o fogo que consome tudo o que tiver para consumir até o fim, sem pausa, sem volta. Esse é o sentido de ‘eterno’. Obviamente, quando não há mais o que consumir, o fogo se acaba. Mas durante o processo, ele é eterno”.

Adianto que o leitor que fez o comentário não se sentiu satisfeito com esta resposta e me fez uma crítica. Mas antes de passar à crítica, deixe-me expandir um pouco a minha própria resposta, coisa que não fiz no comentário. Para isso, vamos analisar o mencionado texto de Isaías 34. Podemos ler nos primeiros versos:

“Chegai-vos, nações, para ouvir, e vós, povos, escutai; ouça a terra e a sua plenitude, o mundo e tudo quanto produz. Porque a indignação do Senhor está contra todas as nações, e o seu furor, contra todo o exército delas; ele as destinou para a destruição e as entregou à matança. Os seus mortos serão lançados fora, dos seus cadáveres subirá o mau cheiro, e do sangue deles os montes se inundarão” (Is 34:1-3).

Aqui temos o Senhor expressando sua ira contra as nações, as quais estão submersas em pecado. Uma sentença de morte é dada contra elas. No entanto, note que o texto diz que os montes se inundarão do sangue desses povos. Um pouco exagerado, não? O termo original hebraico é massu, que pode ter o sentido de encharcar, dissolver, derreter, liquefazer. A ideia aqui parece ser a de que os montes serão totalmente cobertos e pintados pelo sangue desses corpos. Ora, se imaginarmos quantos montes existem em todo o planeta e o quão grande é cada um deles, fica claro que o texto não é literal. Estamos diante de uma hipérbole. A passagem continua:

“Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um pergaminho; todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e a folha da figueira. Porque a minha espada se embriagou nos céus; eis que, para exercer juízo, desce sobre Edom e sobre o povo que destinei para a destruição. A espada do Senhor está cheia de sangue, engrossada da gordura e do sangue de cordeiros e de bodes, da gordura dos rins de carneiros; porque o Senhor tem sacrifício em Bozra e grande matança na terra de Edom. Os bois selvagens cairão com eles, e os novilhos, com os touros; a sua terra se embriagará de sangue, e o seu pó se tornará fértil com a gordura. Porque será o dia da vingança do Senhor, ano de retribuições pela causa de Sião” (Isaías 34:4-8).

Neste trecho temos mais figuras de linguagem. A expressão “exército dos céus” geralmente se refere às estrelas, planetas, sol e lua (Gn 2:1; Dt 4:19; II Rs 17:16 e 23:5; Is 45:12; Jr 19:13; Sf 1:5; Ne 9:6; At 7:42). É uma metáfora. E o texto diz que tudo isso se dissolverá, de modo que o próprio céu se enrolará como um pergaminho. A palavra para dissolver, maqaq, pode também ter o sentido de apodrecer e definhar. Já o termo para enrolar, galal, expressar a ideia de rolar ou enrolar literalmente.

Podemos conceber isso como literal? Difícil. Talvez o texto realmente esteja falando de fenômenos visíveis e cataclísmicos nos céus. Ainda assim, os termos usados não parecem ter a intenção de fazer uma descrição científica e precisa do que ocorrerá. O contexto nos dá essa impressão também. Na sequência, o texto nos diz que a espada do Senhor descerá sobre Edom, que está cheia sangue, que o sangue está engrossado com a gordura de carneiros e bodes dos sacrifícios que Deus tem. Deus tem mesmo uma espada literal, suja de sangue e gordura de animais, pronta para matar o povo de Edom? Evidentemente, tudo aqui é metafórico. São imagens de juízo, claro. O juízo ocorrerá. Mas os elementos que o expressam não são literais. O texto fica mais interessante agora:

“Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó, em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela” (Isaías 34:9-10).

Se a sua Bíblia possui aquelas referências nas notas de rodapé, você perceberá que esse texto é aludido em Apocalipse 14:11 e 19:3. Leiamos em seus contextos:

“Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo, em grande voz: Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome (Ap 14:9-11).

“Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. Segunda vez disseram: Aleluia! E a sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos” (Ap 19:1-3).

Como o leitor pode ver, é bastante provável que João, o autor de Apocalipse, estivesse ecoando Isaías nesses textos. E a pergunta de ouro é: o texto de Isaías é literal? Não parece. Primeiro, porque, como já vimos, Isaías 34 é repleto de figuras de linguagem. Não é um texto para ser lido de modo literal. Destacar os versos 9-10 dessa lógica é incoerente.

Segundo, porque a condenação é dada sobre Edom, que foi uma nação real. Se o texto é literal, então ou os rios de Edom já foram transformados em piche e a sua fumaça sobe para sempre ou isso ainda ocorrerá. Evidentemente, a primeira hipótese é falsa. A segunda, no entanto, é tão problemática quanto. Afinal, se o texto é literal, isso implica que aqui na terra haverá uma nação queimando para sempre. Isso parece conflitar com Apocalipse 20:7-9 e 21:1-11, onde vemos que a cidade de Jerusalém virá do céu para a terra depois do milênio e que os inimigos de Deus serão consumidos ao tentarem atacar a cidade. Seria contraditório pensar que, apesar disso, haverá uma cidade na terra queimando para sempre. Nesta hipótese, os inimigos não são consumidos e a terra não é, de todo, renovada. Ademais, o povo salvo poderá ver de longe o sofrimento de Edom.

Não, não. Parece muito mais razoável que Edom seja uma figura de linguagem para os inimigos de Deus como um todo. No entanto, se Edom é uma figura de linguagem, não seria também razoável que os rios transformados em piche e a fumaça eterna também sejam figuras de linguagem? É coerente. O que os imortalistas fazem, contudo, é entender Edom como simbólico, mas a fumaça eterna como literal. Não me parece correto. Mas se é para escolher um elemento como simbólico e outro como literal, o oposto parece mais sensato. Afinal, Edom nós sabemos que existiu. Mas um fogo eterno nunca foi visto e é mais difícil de se imaginar como literal.

O texto fica ainda mais interessante nos versos seguintes:

“Mas o pelicano e o ouriço a possuirão; o bufo e o corvo habitarão nela. Estender-se-á sobre ela o cordel de destruição e o prumo de ruína. Já não haverá nobres para proclamarem um rei; os seus príncipes já não existem. Nos seus palácios, crescerão espinhos, e urtigas e cardos, nas suas fortalezas; será uma habitação de chacais e morada de avestruzes. As feras do deserto se encontrarão com as hienas, e os sátiros clamarão uns para os outros; fantasmas ali pousarão e acharão para si lugar de repouso. Aninhar-se-á ali a coruja, e porá os seus ovos, e os chocará, e na sombra abrigará os seus filhotes; também ali os abutres se ajuntarão, um com o outro. Buscai no livro do Senhor e lede: Nenhuma destas criaturas falhará, nem uma nem outra faltará; porque a boca do Senhor o ordenou, e o seu Espírito mesmo as ajuntará. Porque ele lançou as sortes a favor delas, e a sua mão lhes repartiu a terra com o cordel; para sempre a possuirão, através de gerações habitarão nela” (Isaías 34:11-17).

Se havia alguma dúvida de que o texto era simbólico, esse trecho é uma pá de cal. Aqui Deus afirma que Edom, a nação cuja fumaça subirá para sempre, sem nobres, nem príncipes, com palácios abandonados, mato crescendo e animais selvagens habitando as ruínas. Ora, mas o local não estará pegando fogo eternamente? E não estará, segundo o imaginário imortalista, repleto de pessoas sofrendo sem nunca morrer? Pois é, amigo leitor, a imagem que o texto constrói após os versos 9-10 é outra. O que se evoca aqui não é um fogo eterno, mas uma nação destruída e deserta. Quando, portanto, lemos o texto como um todo, o que podemos concluir é que todos os elementos mencionados são metáforas e hipérboles para uma grande destruição dos ímpios. Nada mais que isso.

É esse tipo de linguagem claramente metafórica e hiperbólica que o leitor precisa ter em mente quando lê, na Bíblia, sobre fogo condenação ou fogo eterno, fumaça que sobre para sempre, etc. No entanto, o nosso amigo comentarista – e aqui voltamos a ele – não quis fazer essa análise cuidadosa de Isaías 34, conforme sugeri. Em vez disso, me deu um longo sermão dizendo que pratiquei uma “eisegese”. Vou partir o comentário em dois para ficar mais dinâmico. Na primeira parte, ele diz: 

“Obrigado por sua resposta. Então temos a palavra “eterno” sendo interpretado ” por muito tempo”, certo? Mas no mesmo versículo existe a palavra eterno(a) duas vezes. Uma esta relacionado ao castigo e a outra esta relacionada à vida. Vamos traduzir as duas como vc sugeriu… “E irão estes para o tormento “por muito tempo”, mas os justos para a vida “por muito tempo”.” (Mt.25:46). Vc concorda que vida eterna acaba pois pode durar só muito tempo? Acho que não né? Vida eterna significa “vida sem fim”, “vida que nunca terá fim”. Este é o sentido da palavras “vida eterna”. O mesmo acontece com “tormento eterno”, ou seja tormento que não acaba, tormento que não tem fim. Sua sugestão não é valida no contexto imediato, apesar de valer para outros casos onde “eterno” pode dar a ideia periodo longo ou de algo muito durador, mas não é o caso de Mt.25:46. Tormento eterno e vida eterna são colocados por Jesus em oposição um a situação a outra. Se sua sugestão fosse realmente valida para o caso em questão, Jesus nem precisaria citar o tormento passageiro e finito, pois não há sentido em mencionar algo que teria uma duração temporal limitada”.

O argumento do nosso amigo é bastante comum. Eu já o ouvi várias vezes. Mas até então nunca tinha me debruçado seriamente sobre esse texto para desenvolver uma boa resposta. Neste dia, eu resolvi fazê-lo. Mas antes de mostrar minha resposta, vejamos antes a segunda parte do comentário:

“Sua interpretação é muito equivocada, e carece de uma base interpretativa mais próxima do texto analisado. Esta postura mostra uma tendência de raciocínio voltada ao mortalismo da alma, mas não pode ser demostrado textualmente. Este tipo de interferência textual é chamado de Eisegese, ou seja, vc quer ver no texto algo que o texto não diz em detrimento do que ele diz. O que devemos praticar é a exegese textual, ou seja, absorver e aceitar o que o texto esta dizendo claramente. O caso de Mt.25:46 é ótimo para mostrar o quanto podemos ser tendenciosos, pois em um mesmo texto aplica-se regras diferentes de interpretação. Onde isso pode nos levar? Á heresia, claro, pois, se formos dar a cada palavra um sentido que pende para o meu gosto pessoal, as Escrituras deixa de ser a Palavra de Deus e passa a ser meu parque de diversões interpretativo. Podemos observar, tomando por base o caso acima, que a teologia que ensina o mortalidade da alma é uma heresia. Deus o abençoe”.

Será mesmo que fiz uma “eisegese”? E como responder ao argumento de que se Jesus usa a mesma palavra duas vezes em sua frase, elas precisam ter o mesmo sentido e significado? Bom, abaixo vai a resposta que dei:

“Não houve ‘eisegese’. Note que eu também elenquei outros dois sentidos para a palavra ‘eterno’: ‘Durante todo o tempo que durar’ e ‘Por tempo indeterminado’. Você só quis usar um sentido: ‘Por muito tempo’. Vamos aplicar o primeiro, por exemplo?

‘E irão estes para o tormento ‘durante todo o tempo que durar’, mas os justos para a vida ‘durante todo o tempo que durar’.’ (Mt.25:46)

Aqui os sentidos dos termos são os mesmos, porém muda-se a duração. A vida dos salvos é eterna, pois Deus lhes dá a eternidade. A vida dos ímpios não é eterna, pois eles são mortais. Assim, seu tormento dura “para sempre” enquanto durar a vida deles.

Talvez você diga que essa linguagem não faz sentido. Mas faz. Quando queremos indicar que algo é ininterrupto dentro de um período de tempo, fazemos uso de palavras como “sempre”. Exemplo: ‘João sempre nadou bem’ ou ‘Pedro sempre chega atrasado’. Não há aqui uma noção de eternidade, mas de uma constância dentro de um período.

Essa noção de constância, quando aplicada ao tormento dos ímpios, serve para enfatizar que a condenação não tem escapatória. Ela consome o ímpio até o fim.

Católicos, por exemplo, creem em purgatório. É uma condenação pós-vida que tem escapatória. A pessoa não é consumida até o fim. Uma hora acaba e ela continua com vida. Nesse sentido, não é para sempre.

Gregos e romanos tinha histórias mitológicas sobre pessoas e outros seres que conseguiam sair do Hades.

A Bíblia, no entanto, enfatizar que a punição é final. Quando o tormento termina, já não há vida, o que significa que ele durou para sempre.

Então, voltamos a Jesus. Ele diz que os dois destinos têm a mesma natureza definitiva. Eles duram todo o tempo da vida da pessoa. O sentido é o mesmo. Mas o tempo de vida de cada grupo é diferente.

Aqui vai um exemplo que pode te ajudar a entender isso. Suponha que Pedro e João, cada qual com sua família, vivem mudando de casa, pois moram de aluguel. No entanto, eles estão trabalhando e ganhando bastante dinheiro. João tem o sonho de comprar uma casa própria e Pedro um apartamento. Diante deste quadro, eu digo: ‘Se as coisas continuarem assim, em breve João irá para uma casa permanente e Pedro para um apartamento permanente’. A palavra permanente tem o mesmo sentido. Mas quanto tempo é a duração desse permanente? Depende. João pode viver mais 50 anos até morrer. E Pedro pode morrer daqui três meses. O fato da palavra ter o mesmo sentido não implica que a duração de tempo é a mesma.

Para refutar meu exemplo você teria que assumir que Pedro e João necessariamente devem morar em suas respectivas moradias pelo mesmo período de tempo, já que a palavra usada é a mesma. Mas isso seria ridículo.

Aliás, em outro contexto, se em vez da palavra ‘permanente’ usássemos a palavra ‘provisória’ para Pedro, poderíamos ter uma situação curiosa: Pedro poderia ficar no apartamento por anos e João morrer dois dias depois. Neste caso, o período ‘provisório’ teria mais tempo de duração que o ‘permanente’.

Estes exemplos indicam que há palavras que não expressam a quantidade total de tempo, mas a duração de um fenômeno dentro de uma quantidade total de tempo.

Tormento eterno e vida eterna, portanto, são a duração desses eventos dentro de um período de tempo: a existência/consciência do indivíduo. No primeiro caso a existência/consciência do indivíduo é finita. No segundo caso, não”.

Em suma, Mateus 25:46 não é um texto que exige algum tipo de desonestidade exegética por parte dos mortalistas para ser interpretado. É perfeitamente possível que uma palavra usada duas vezes na mesma frase tenha o mesmo sentido, mas ainda assim expresse algum tipo de percepção distinta.

Cabe observar que o texto de Mateus 25:46 parece ecoar o texto de Daniel 12:2, onde lemos: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”. De modo semelhante, imortalistas interpretam essa passagem como se ela nos forçasse a crer que o tormento dos ímpios deve ser tão eterno quanto a vida dos justos salvos. Mais uma vez, “vergonha e horror eternos” não implicam uma vida eterna para os ímpios, mas sim um período de vergonha e horror que os ímpios viverão enquanto suas vidas durarem. E essa vida não será eterna.

Podemos ir um pouco mais longe aqui: dentro da mentalidade de alguém vivendo no antigo oriente próximo, a honra era algo muito relevante. Não apenas a pessoal, mas a familiar. E não apenas durante a vida do indivíduo, mas por todas as gerações adiante. Pois bem, se pudéssemos voltar no tempo e dizer a uma pessoa daquela época e região, que os atos de sua família trariam desonra eterna, ele não entenderia que os membros de sua família viveriam para sempre, mas sim que mesmo depois da morte, a desonra permaneceria; as outras pessoas, por todas as gerações, continuariam a saber e reprovar os vergonhosos atos daquela família. Este é o sentido mais amplo de Daniel 12:2. A vergonha e o horror eternos deixarão de ser sentidos pelos próprios alvos desses sentimentos, pois morrerão. Mas para sempre os salvos saberão e reprovarão os atos dos ímpios, sentindo vergonha e horror em relação a eles.

Aqui pode-se dizer que embora o meio que levará os ímpios à morte seja finito, pois eles mesmos são mortais, a morte em si será eterna. Portanto, a condenação é eterna, bem como a vergonha e o horror proveniente dela. Não há escapatória para quem é condenado. Não há volta dos mortos após a segunda morte. O sentido original das palavras usadas parece se coadunar com esta interpretação. O termo para vergonha é cherpah, que pode ter os sentidos de reprovação, escárnio, desprezo, insulto. Já a palavra para horror é deraon, que pode ter os sentidos de aversão, abominação e desprezo. De fato, a morte dos ímpios fará com que estes sejam os sentimentos em relação a eles para todo o sempre. Eis o ensino bíblico sobre o destino dos ímpios.

Quanto ao leitor, ele ainda não voltou para me responder. Espero, embora não muito crente, que ele a tenha lido e que esteja refletindo e estudando. É libertador, no fim das contas, saber que uma boa exegese conduz sim ao ensino mortalista; um ensino muito mais condizente com o caráter bondoso, amoroso e racional de Deus.