Por Davi Caldas

Existe uma sensação que muito me agrada em debates, mas que nem sempre tenho a oportunidade de sentir. É aquela em que o oponente, ao tentar me responder, prova meu ponto. Posso dizer que senti isso no último dia 20 de junho, enquanto debatia com o Adventista Subversivo – a página à qual fazemos oposição desde que surgimos. O debate se iniciou por causa desse texto que eles postaram:

Em resposta, escrevi o seguinte post na página do Facebook do Reação Adventista:

O texto do “Adversivo Subvertista” é um espantalho. A teologia conservadora (que é, claro, o alvo criticado pela referida página) não discorda da homoafetividade de uma pessoa. Ela discorda que uma pessoa homoafetiva dê vazão a essa inclinação (quer seja de origem natural, quer seja de origem cultural), passando a praticar sexo e relacionamentos homoafetivos. O problema, portanto, está na prática, não na orientação sexual. E prática é, por definição, uma questão de escolha. Tanto é que mesmo que um homossexual queira praticar relações sexuais com alguém do mesmo sexo, se não houver quem tope, este homossexual não poderá praticar o ato. Ou seja, a prática pode não ser realizada. E se pode não ser realizada, pode não ser escolhida.

Ora, isso se estende a praticamente qualquer pecado. O problema não é a vontade de se masturbar, mas a prática. O problema não é a vontade de adulterar, mas a prática. O problema não é a vontade de mentir, mas a prática. Em todos esses casos, podemos escolher não praticar e não nutrir a vontade. Podemos lutar contra o nosso “eu”.

Em todos esses casos também, tais vontades podem ser naturais. Na verdade, o argumento de que “se é natural é bom” não faz sentido à luz da fé cristã, já que segundo a Bíblia, nossa natureza original foi maculada, de modo que hoje temos uma natureza inclinada ao mal. Então, o natural em nós é querer pecar mesmo. E a vida cristã é lutar contra aquilo que nos é natural como pecadores.

Em um texto posterior, ainda escrevi o seguinte:

Quando crentes progressistas tentam vender a ideia de que discordar moralmente da prática homossexual é homofobia, e que essa discordância tem o mesmo peso do racismo, isso é pura maldade e desonestidade. Trata-se de uma estratégia para acostumar as pessoas à noção de que as interpretações teológicas conservadoras devem ser criminalizadas. O fim último dessas pessoas é óbvio: que todos que possuem uma interpretação teológica mais conservadora sejam presos.

Guarde bem o que eu disse nesse segundo texto. Isso será importante. Pois bem, o Adventista Subversivo resolveu comentar nos dois posts. Postou o mesmo comentário:

Existe por aí uma equivocada simetria entre orientação sexual (natural e inerente) com práticas relativas a escolhas de cunho moral (levando em consideração a moral do “senso comum”, das leis sociais, ou dos princípios cristãos). Uma pessoa heterossexual pode escolher adulterar ou não assim como uma pessoa homossexual pode fazê-lo. Uma pessoa heterossexual pode escolher roubar ou não assim como uma pessoa homossexual também pode fazê-lo. Uma pessoa heterossexual pode escolher ser promíscua ou não assim como uma pessoa homossexual também pode escolher. No entanto, ninguém pode mudar sua orientação sexual natural. Orientação sexual não define caráter. Fidelidade, sinceridade, respeito, bom senso – nada tem a ver com a orientação sexual em si. Uma pessoa homossexual pode amar, respeitar, ser fiel; assim como uma pessoa heterossexual também pode. Partindo da premissa de que a orientação sexual é natural e inerente, assim como é a cor da pele, dos olhos e do cabelo; a marginalização, o preconceito e a homofobia são equivalentes ao racismo e à discriminação que as pessoas sofrem apenas por suas características pessoais/existenciais/naturais. Não há crime em ser homoafetivo. Não há nada antinatural e não há escolha. A única coisa antinatural – e que pode ser uma escolha – é a homofobia e o ódio que existem, principalmente no mundo cristão. Contra um honesto e sincero amor – seja ele homoafetivo ou não – não há lei, erro ou pecado.

A partir daí se seguiu um breve, mas muito instrutivo debate entre eu, como administrador do Reação Adventista, e o rosto escondido por trás do Adventista Subversivo. Minha resposta:

Você apenas repetiu o espantalho que apontamos no post. Ninguém aqui está sendo contrário à inclinação sexual da pessoa, mas sim à prática. Um homossexual pode ESCOLHER não ter relacionamentos homossexuais, ficar solteira, casta, mesmo que continue sentindo atração por pessoas do mesmo sexo. Da mesma forma, um hétero pode ESCOLHER não trair a esposa ou não dormir com duas mulheres ao mesmo tempo, ainda que sinta o desejo de fazer isso e continue sentindo a vida toda.

O Subversivo replicou:

Claro. Mas o heterossexual nunca deixará de sentir desejo sexual natural pelo sexo oposto assim como o homossexual nunca deixará de sentir desejo sexual natural pelo mesmo sexo. Se ambos nascem assim e se a orientação sexual é inerente e natural ao indivíduo, por que apenas um deles pode expressar e viver plenamente a sua sexualidade? A escolha não está em ser ou não ser, mas na liberdade de poder escolher viver de acordo com a sexualidade. Sendo assim, tentar impedir que alguém viva a sua sexualidade natural e inerente é um tipo de preconceito e um ato criminoso.

O leitor notou o esforço do Subversivo de tentar transformar discordância em “tentativa de impedir que alguém viva a sua sexualidade” e de, por conseguinte, taxar isso de criminoso? Guarde isso. Eu respondi:

Tem dois erros aí. O primeiro deles nós também já apontamos nesse post: não é porque é natural que é bom. A fé cristã ensina que o pecado é natural para o homem depois da queda. E ainda assim todos tem que lutar contra isso e não viver segundo a sua natureza. Quer ver algo interessante? É natural ao homem (sexo masculino) o impulso de transar com uma mulher, engravidá-la e abandoná-la com o filho. Inclusive, se formos adotar uma perspectiva evolutiva (que eu sei que vocês curtem) é isso que a maioria esmagadora dos animais faz. Já percebeu que no mundo animal o que mais tem é mãe ‘solteira’? Se formos adotar esse tipo de ética baseado na natureza, não dá mais para reclamar de abandono do homem ou de outras práticas naturais aos animais (e dentro dessa perspectiva, o homem é um animal também). O que nos faz ver essas práticas como erradas é a postura de que devemos lutar contra nossa natureza, construindo uma cultura moral. Então, não, não é porque é natural que devemos seguir.

O segundo erro é dizer que o homossexual está sendo impedido de algo. Ora, ninguém aqui está impedindo ou tentando impedir o homossexual de nada. Não temos esse poder ou essa pretensão. Eu (Davi), inclusive, sou libertário. Para mim, o homossexual tem todo o direito civil de se associar com quem quiser e fazer o que quiser, desde que não agrida ninguém.

O que está se discutindo aqui não é nenhum tipo de coerção, mas de adesão livre a um conjunto de regras religiosas. Ninguém aqui está propondo que homossexuais recebam um agente só governo com um revólver na mão dizendo que eles não podem mais se relacionar sexualmente. A proposta é: “Se você concorda com a interpretação tradicional das igrejas cristãs sobre o tema e quer fazer parte dessas igrejas, então você deve se abster desses relacionamentos”. Onde isso é impedir alguém de algo? A adesão é livre. Isso se chama livre associação. Se você não concorda, ok, é só não aderir a esse tipo de associação e vida que segue. Zero imposição aqui. Direitos de livre associação 100% garantidos.

De igual maneira, se uma mulher entende que a ICAR está certa ao manter freiras e padres no celibato, ela pode aderir a essa religião e se tornar freira. Uma vez tomada essa decisão, DEVE se abster de sexo, mesmo isso sendo natural ao ser humano. Por que? Porque ela escolheu entrar num lugar que tem essa regra interna? Se ela não quiser seguir, é só não entrar. Qual é a dificuldade com isso?

O que vocês estão propondo, no entanto, é legislar sobre as regras internas das associações livres para que elas sejam conforme a vontade de vocês; e assim seja crime pensar diferente. Eis a enorme diferença entre vocês e eu, por exemplo. Enquanto eu defendo totalmente o direito de vocês se associarem com quem quiserem, fazerem o que quiserem, crerem no que quiserem e criarem as regras que quiserem dentro de suas associações internas (desde que não agridam ninguém), vocês querem me proibir de fazer o mesmo. E para vocês, nós é que somos criminosos. Ora, quem está querendo impedir quem? Quem está querendo usar de coerção com quem? Não sou eu.

Aguardo sua resposta.

E não é que o Subversivo voltou para responder? Segue:

Amigo, a natureza pecaminosa não é necessariamente a mesma coisa que as características pessoais naturais e inerentes de uma pessoa. Por exemplo: uma pessoa que nasce heterossexual; com olhos claros, com a cor da pele preta, branca, amerela…cabelos pretos, loiros…nada disso é um pecado em si. É apenas a natureza – que não tem nada a ver com escolhas ou com caráter. Não tem como misturar as coisas. Se a homoafetividade é natural e inerente, não é uma questão sobre pecado. É à partir do que se faz com a orientação sexual que nos é imposta pela natureza, que podemos discutir sobre pecados ou sobre caráter. Ou seja, à partir de escolhas conscientes. Um heterossexual não é pecador apenas e simplesmente por ser heterossexual. Assim também é em relação a pessoas homoafetivas. Obviamente estou propondo uma visão alternativa sobre como as teologias tradicionais entendem essa questão. Na minha perspectiva, à partir do meu entendimento do Evangelho de Cristo, o Princípio Divino de amor, respeito, fidelidade, sinceridade, honestidade, equilíbrio – se aplica circunstancialmente a todos os relacionamentos amorosos entre humanos adultos com consciência e consentimento, sejam heterossexuais, bissexuais ou homoafetivos. Isso porque eu entendo que o Evangelho leva em consideração as relatividades humanas e que o Princípio Divino deve ser aplicado dentro dessas relatividades e dessas limitações circunstanciais, como vemos acontecer nos relatos do Novo Testamento. Não é uma questão sobre querer proibir nada, é sobre desconstruir toda uma visão que gera preconceito, homofobia, ódio e morte.

Discurso bonito, aparentemente tolerante. “Não é uma questão sobre querer proibir nada”. Mas e aquele papo de crime? Pois é, eu não esqueci. Respondi na sequência:

Vamos lá. Eu respeito seu direito de pensar que a prática homossexual não é pecaminosa. Respeito seu direito de tentar convencer os outros disso. Respeito seu direito de se relacionar sexualmente com uma pessoa (ou mais) do mesmo sexo. Respeito seu direito de se associar com essa pessoa, firmar um contrato de caráter afetivo e chamar isso de casamento. Eu respeito seu direito de abrir uma igreja que vê o casamento homossexual como correto e de criar as regras que quiser lá dentro. Sem problema algum.

Agora, no momento em que você diz que discordar da sua antropologia, das suas interpretações sobre o tema, deve ser crime, eu não posso concordar. Na prática, eu defendo sua liberdade e integridade física. Já você defende minha prisão.

Não é necessário fazer rodeios aqui. Eu sou adepto da interpretação tradicional a respeito desse assunto. Você acha que essa visão deveria ser um crime. Ou seja, você quer que eu seja preso caso eu insista em discordar. Então, sim, estamos tratando uma questão de imposição. E acho bom isso ficar claro para quem lê: eu defendo a liberdade civil plena para todos os indivíduos, com o limite de não violar a propriedade e a autopropriedade do outro. Você defende a prisão de quem discorda de você, ao menos na questão homoafetiva. É uma postura totalitária.

O Subversivo não voltou mais para responder. Isso já tem mais de um mês. O leitor percebe o que aconteceu aqui? Meu ponto inicial era que discursos como o do Adventista Subversivo são, no fim das contas, puro autoritarismo. O fim último desses arautos do progressismo é poder contar com o aparato estatal para poder proibir opiniões conservadoras, sob pena de prisão. Assim, por trás de toda a aparente mansidão, tolerância e amor está uma mentalidade ditatorial. E o que o Subversivo fez? Entrou na minha postagem para confirmar isso. É uma sensação boa. É como se Deus estivesse me dando a certeza de que estou certo em meu julgamento.

Apesar disso, evidentemente, não estamos lidando com um assunto leve e divertido. Pelo contrário, o que temos aqui é algo extremamente perigoso: todo um movimento almejando que a espada do Estado seja usada para perseguir seus irmãos. O que o Subversivo não percebe é que quando desejamos dar ao Estado o poder para perseguir quem discorda de nós, estamos nutrindo um terrível monstro autoritário. Esse monstro vai crescer e vai querer engolir não apenas nossos desafetos, mas qualquer um que o desafie ou que não queira fazer o que ele manda.

Em vez de nutrir esse monstro e desejar a prisão de conservadores, pessoas como o Subversivo deveriam lutar pela liberdade individual juntamente com os conservadores. Esta liberdade, evidentemente, inclui tanto o direito civil de viver a homossexualidade como o direito civil de discordar desse estilo de vida. O problema é que o Subversivo e seus seguidores já estão embebidos de progressismo. O Estado, para eles, é a melhor ou talvez a única solução para todos os problemas sociais. Portanto, eles precisam continuar a nutrir o monstro.

Que Deus tenha piedade tanto de nós quanto deles.