Por Davi Caldas

Toda vez que alguém diz que o adventismo é uma seita, eu penso: “Tá, mas de qual adventismo você está falando?”. Sim, porque tem vários. 

É do adventismo tradicionalista? Ou do conservador não tradicionalista? Ou do progressista? Ou do adventismo “Maverick” a la George Knight? Ou de alguma ala mais radical dentro de um desses tipos? Ou de algum adventismo que esteja numa zona cinza entre dois ou mais desses?

Esse é só o primeiro estágio de questionamento. Se o crítico me dissesse qual desses adventismos é o alvo de sua repulsa e oposição, eu ainda teria outras perguntas. Dentro do tipo de adventismo que você critica, qual é o subtipo? O perfeccionista ou o não perfeccionista? Se é o perfeccionista, qual deles? O predominante entre 1920 e 1960? Ou o de algum outro período? Se não é o perfeccionista, a pergunta é semelhante: de qual período? 

Ademais, eu preciso saber: dentro desses tipos e subtipos, sua critica é ao adventismo teórico ou ao prático? E dentro disso, ao popular, ao dos líderes administrativos ou ao acadêmico? E dentro disso: ao predominante nos EUA, na Europa, na América Latina, na África, na Ásia, no Oriente Médio ou na Oceania? 

“Ah, eu me refiro a todos esses”. Bom, para isso, você precisa ou (1) conhecer muito bem todos esses, incluindo suas semelhanças e divergências entre si, ou (2) ter uma noção intuitiva muito apurada do que seria comum a todos esses tipos distintos de adventismo, a fim de fazer uma critica ao que lhes é comum. 

É certo que estudar a Declaração de Crenças Fundamentais da IASD (hoje são 28 crenças) e os documentos oficiais dela derivados (Tratado de Teologia, Nisto Cremos e Questões sobre Doutrina) é essencial para essa tarefa. Em que pese as inúmeras diferenças entre todos esses grupos, o que faz deles adventistas é a concordância com todas ou, pelo menos, a maioria (e as principais) dessas crenças.

Entretanto, o que os difere é justamente a compreensão dessas crenças. E nisso reside a dificuldade não só do crítico, mas do próprio adventista em fazer uma avaliação mais ampla do movimento: documentos “oficiais” não abarcam todas as discussões, interpretações e ênfases diferentes que existem sobre cada crença fundamental. Muito menos trabalha as tensões entre os diferentes grupos ou mesmo a existência de diferentes grupos. Aquele que estuda apenas esses documentos pode sair com a impressão de que a IASD é monolítica, de que não existem grupos, alas e escolas diferentes de pensamento dentro dela, de que todos os membros e grupos de membros são iguais. Isso, no entanto, não é verdade nem no adventismo, nem em qualquer outro movimento cristão. E nunca foi.

A tendência dos manuais de doutrina e história é fazer uma teologia e uma historiografia muito limpinhas. É por isso que até hoje há pessoas que vêem os primeiros séculos de cristianismo (em especial, o primeiro, o apostólico) como uma panacéia. Não era. A história do cristianismo e da formação teológica dos cristãos é mais parecida com um campo de batalha e uma colcha de retalhos do que com um belo quadro de Rembrandt. E é assim até hoje. 

Não quero com isso cair num extremismo relativista. Sim, eu creio na Bíblia como Palavra de Deus, infalivelmente inspirada pelo Espírito Santo. Creio que é possível interpretá-la corretamente através de ferramentas lógicas universais. E creio que Deus conduziu os crentes de todos os tempos e lugares a uma compreensão básica da Escritura, ainda que dentro de limitações culturais. Mas crer nisso não implica aceitar que em algum momento da história o movimento cristão foi monolítico ou que seus movimentos internos estiveram isentos de numerosas divergências teóricas e práticas. Assim, é ingênuo pensar que dentro do catolicismo romano, ou do catolicismo ortodoxo, ou do luteranismo, ou do calvinismo, ou do arminianismo clássico, ou do arminianismo wesleyano, ou do pentecostalismo todos pensam igual. E o mesmo pode se dizer sobre o adventismo. 

Então, voltando aos documentos oficiais, além de eles não darem conta de todo o colorido existente no movimento adventista, eles também não estão totalmente isentos de tendências. Na verdade, para qualquer pessoa que saiba que a imparcialidade absoluta é impossível, é evidente que documentos oficiais também vão expressar, em algum grau, a vertente daqueles que escreveram. 

Mais uma vez: não compro o extremismo relativista. Estou certo de que os documentos oficiais expressam bem a fé comum dos adventistas. No entanto, expressar bem não é expressar perfeitamente. Ademais, os documentos oficiais adventistas não são uma espécie de Talmude, onde rabinos discordam frontalmente entre si e está tudo bem. Tenta-se imprimir, em nossos documentos, uma unidade interpretativa bem maior que no judaísmo (o que é bastante comum no cristianismo). Assim, é inevitável que se imponha, em alguns momentos, ênfases e interpretações que expressam não o que é comum a todos os grupos dentro do adventismo, mas a visão particular do grupo que está redigindo o documento. E para perceber isso, e perceber ainda até que ponto determinadas crenças podem variar de modo legítimo no interior do movimento, isto é, dentro de um espectro ainda adventista, é necessário bastante leitura, observação, reflexão, bom senso, poder de análise e capacidade de síntese. Tudo o que a maioria das pessoas, e a maioria dos críticos do adventismo, não possui.

Para não ficar só na discussão abstrata, veja um exemplo concreto. A crença 18 da IASD afirma a continuidade dos dons do Espírito Santo, incluindo o dom de profecia, e a manifestação desse dom em Ellen Gould White. Ainda que se suponha que todos os adventistas aceitem plenamente a crença 18 – o que está longe de ser verdade -, a mera aceitação plena não implica interpretação e aplicação unânimes. Um adventista tradicionalista e perfeccionista interpreta e aplica essa crença de um jeito. Um adventista conservador não tradicionalista, como eu, interpreta e aplica de outro jeito. Eu, por exemplo, enfatizo mais o Sola Scriptura e a inspiração conceitual do que um tradicionalista. Por conseguinte, minha leitura de EGW irá diferir, em muitos casos, da leitura que um tradicionalista fará. Agora, note: ambos, eu e o perfeccionista, aceitamos a crença 18. 

O leitor percebe a dificuldade? Se elegermos as 28 Crenças como um padrão para definir o que é adventista e o que não é – e acho um bom padrão -, ainda assim teremos vários adventismos dentro desse guarda-chuva maior do movimento. 

Isso é ruim? Antes de ser ruim ou não, isso é um fato. Existe diversidade de pensamento em praticamente qualquer agrupamento humano. Então, acharmos bom ou ruim não muda nada. Onde houver seres racionais e uma cultura que não subverta por completo a liberdade humana, haverá diversidade de pensamento. Uma vez que se aceite o fato, podemos discutir até que ponto é positivo ou negativo. 

Eu gosto de pensar que a diversidade teológica dentro dos movimentos é boa. Isso porque ela nos estimula a pensar mais profundamente, a questionar ideias que podem estar erradas, a descobrir novas verdades, a apurar velhos conhecimentos, a melhorar nossas explicações, a respeitar nossos irmãos que pensam diferente e a desenvolver o importante senso do que é central à fé (e à convivência) e o que é periférico. 

Nada disso leva necessariamente a um extremismo relativista. Tanto que eu penso assim há muito tempo e continuo tão conservador como sempre, prezando bastante pelos absolutos em campos como a teologia, a ética, a moral, a lógica e as ferramentas básicas de interpretação textual. Ser conservador, no entanto, é também ser realista e cético (isto é, questionador). Não cabe ao conservadorismo enxergar a realidade de modo simplista, reduzindo tudo a um quadro bonito, mas irreal. 

E aqui eu retorno ao início: qual adventismo você chama de seita? Se a resposta é “todos”, temos um problema, pois há adventismos que se contrapõem. Por exemplo, talvez, de fato, o adventismo prático de tradicionalistas perfeccionistas coloque EGW e Bíblia no mesmo patamar, em termos de função. Eu penso que colocam. Se alguém considera esse ponto como motivo para classificar tal adventismo como seita, eu concordo. Mas se eu mesmo concordo com isso, é sinal de que sou adepto de outro adventismo, ainda que dentro da mesma IASD. E se esse outro adventismo discorda de que EGW e Bíblia estejam no mesmo patamar, já não é possível ao crítico condenar os dois adventismos pela mesma razão. Logo, o juízo que serve para um não serve para o outro.

E talvez o crítico argumente aqui: “Mas existe uma doutrina oficial. É essa que crítico. E é essa que coloca EGW e Bíblia no mesmo patamar”. Não obstante, mais uma vez, as coisas não são tão simples. O adventismo teórico, oficial e comum a todos os diferentes grupos ensina o Sola Scriptura e a diferença de função entre Bíblia e EGW. A própria EGW o ensinava. Então, pelo adventismo teórico não é possível fazer essa critica. A critica que se pode fazer é a como cada vertente lida com isso na prática e nas suas teorias específicas. Ora, cada vertente, obviamente, crê que lida de modo correto com a doutrina oficial. Então, caberá ao leitor estudar para ver quem tem razão. Ou seja, fazer uma critica ao adventismo teórico sempre será, em maior ou menor grau, adotar a interpretação de uma das vertentes. E nisso o crítico prova meu ponto: há vários adventismos. 

O que digo aqui serve, como creio que já ficou claro, para outros movimentos. Do ponto de vista de uma historiografia e uma teologia madura, não existe judaísmo, cristianismo,  catolicismo, calvinismo, armanianismo. Existem judaismos, cristianismos, carolicismos, calvinismos, arminianismos. E, de igual forma, existem adventismos. Para vislumbrar melhor o que digo: tente criticar o judaísmo no ambiente acadêmico, por exemplo. Certeza de que vão te perguntar: “Tá, mas qual judaísmo? O do primeiro templo, que nem judaísmo era, no sentido mais estrito? O do segundo templo, no período interbíblico? O do segundo templo, no período do Novo Testamento? O do período do segundo ao quinto século? O do período medieval? O do período moderno?

Se for o judaísmo do segundo templo, qual escola rabínica? A de Hillel ou a de Shamai? E qual facção? A dos fariseus, a dos saduceus, a dos zelotes, a dos essênios ou a dos nazarenos, que viria a se tornar o cristianismo? Se for um judaísmo mais contemporâneo, seria o ultraortodoxo? O liberal? O cabalístico? Há inúmeras vertentes. Como diz o ditado: “Onde há dois judeus, há três opiniões”. E se pensarmos bem, não é muito diferente com os cristãos – ainda que tentemos posar de unânimes. 

O leitor percebe? Tudo é mais complexo que o nosso vão simplismo. É por isso que deveríamos ser mais tardios e humildes na hora de dizer taxativamente que determinado movimento é uma seita. Podemos, é claro, expor nossas percepções parciais e provisórias sobre os movimentos dos quais não fazemos parte. E devemos nos guiar por elas. No entanto, nunca devemos esquecer esquecendo que elas são parciais e provisórias. Elas podem, claro, se tornar mais sólidas daqui alguns anos, se mostrando corretas ou mais plausíveis que as outras. Mas podem também se mostrar equivocadas, baseadas em ignorância, distorções, simplificações, mal entendidos, superficialidade, idiotice e até alguma dose de desonestidade.

É por isso que quando vejo alguém dizer, taxativamente, que o adventismo é uma seita, essa certeza pomposa me soa infantil. Para mim, é como se o sujeito não tivesse saído da quinta série.