O texto a seguir foi escrito por Rafi Farber, judeu praticante, libertário, comentarista econômico e editor do The End Game Investor (em suas palavras, “um comentário diário do mercado com foco em metais preciosos e análise monetária em um mundo pós-Covid”). Farber mantém também um blog intitulado “The Jewish Libertarian“. Como sou um cristão que possui muita simpatia por judeus e as raízes judaicas do cristianismo, sou libertário e gostei bastante desse texto, resolvi traduzi-lo do inglês. O leitor, evidentemente, não precisa achar que deve concordar com tudo o que o autor diz porque segue esse blog. O intuito é apenas compartilhar um texto que, concordando plenamente ou não, gera reflexões interessantes.

O texto é de 2014, mas permanece muito atual. Alguns termos específicos do judaísmo que o autor usa são explicados por mim em notas no fim da postagem ou entre colchetes ao lado da palavra. O original pode ser lido aqui. Boa leitura!

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Vários anos atrás, logo depois que fiz Aliyah[1], participei de um shiur[2] na Universidade Bar Ilan. Era véspera de eleição. Depois que o shiur acabou, o rabino disse: “Lembrem-se todos de votar, porque é uma mitzvá [mandamento] votar em qualquer partido que você acredita que será o melhor para o povo de Israel”. Eu não era libertário na época, então pensei que essa era uma coisa boa de se dizer, mas anos depois percebi o quão distorcida e sem sentido essa declaração realmente era.

Em primeiro lugar, e se a pessoa estiver errada sobre o melhor partido para o povo de Israel? Pior, e se ela votar em um partido porque acredita que o mesmo fará algo violento, como expulsar judeus ou árabes de suas casas, e ele acha que isso é bom por qualquer motivo? Ele é moralmente responsável por votar nesse tipo de partido? E se ele achar que um determinado partido será bom e depois o mesmo fizer o contrário do que ele pensa? Ele é responsável por isso como eleitor desse partido? Indo mais profundo, se o rabino pensa que é tão importante votar em “qualquer partido que você acredite ser o melhor”, por que não apenas nos dizer qual partido é o melhor para que possamos votar?  Afinal, as pessoas vão até ele para todos os tipos de conselhos. Conjugal, pessoal, religioso etc. Mas Deus me livre de você me dar sua opinião sobre em quem votar?

A resposta superficial é que a política é uma coisa diferente das demais. Ela é suja. A maioria das pessoas sabe disso intuitivamente. A política faz as pessoas se sentirem nojentas, todos os tipos de pessoas, muito nojentas, mas é difícil dizer o porquê. Se você está dando um Dvar Torá[3] ou discurso em algum lugar, sinta-se à vontade para falar sobre moralidade, Deus, Halachá[4], espiritualidade, Tanakh[5],  Gemara[6] ou qualquer outra coisa, e as pessoas geralmente estarão bem com isso. Mas a maioria das sinagogas tem uma regra de “sem política” para seus rabinos e pregadores, e com razão. Traga a política e alguém gritará com você. Por quê? A política é reservada para “zonas seguras” políticas, onde deve ser anunciado de antemão que o evento será político e que tipo de política será. Caso contrário, falar sobre política é considerado impróprio, até mesmo errado. Como isso pode ser? Não deve haver uma posição política realmente certa e outra errada?

Não importa o quão arraigadas suas opiniões políticas possam ser, você sempre sentirá essa repugnância, alguma sensação de inadequação quando se trata de política em determinados cenários. Ao mesmo tempo, você sempre sentirá que outras pessoas “têm o direito de expressar suas próprias opiniões políticas” e que ser politicamente ativo é louvável, mesmo se você discordar fortemente da posição da pessoa.

Mas se você acha que o outro está errado, por que isso é louvável?

Você pode ter um amigo muito próximo que discorda de você politicamente, e fora da política se dar muito bem com ele. Você pode até se casar com alguém com opiniões políticas muito diferentes das suas e isso ter pouco ou nenhum efeito em seu casamento. De alguma forma, a política habita essa “alteridade” que pode ser desviada da sua vida real e das interações com as pessoas para algum tipo de universo paralelo onde suas divergências podem ser isoladas de afetar qualquer outra área. Como isso é possível?

Ainda mais estranho, a política divide as pessoas violentamente em grupos e seitas que são praticamente idênticos em muitos aspectos. Veja a recente luta política interna entre os Haredim[7] em relação a algumas eleições municipais em Jerusalém em outubro passado. Um daqueles rabinos muito velhos que bastante gente segue foi agredido fisicamente em sua casa por apoiar um candidato a prefeito em detrimento de outro. Houve troca de cartas ameaçadoras etc. Ou considere o caso de Ovadiah Yosef[8]. Seria difícil encontrar alguém que não respeitasse o homem por suas realizações fora da esfera política. Todos concordarão de maneira branda que ele foi grande. Mas uma vez que você entra na política dele, é aí que as brigas começam. Algumas pessoas o amam e outras o odeiam. Por que só na política temos essas brigas cruéis?

A resposta a todas essas perguntas é que a essência da política é a força, e ninguém gosta de ser forçado a fazer coisas que não faria voluntariamente. A política é essencialmente a questão de para onde vai o dinheiro que você é forçado a pagar. Você está sendo forçado a pagar impostos e depois a votar (mais ou menos) em que eles devem ser usados. É impossível que todos queiram as mesmas coisas, o que resulta em conflito.

No mercado livre, em qualquer troca, ambos os lados necessariamente se beneficiam, minimizando as brigas. Todo mundo decide por si mesmo para que exatamente seu dinheiro é usado de acordo com seus próprios valores. Mas na ação política, um lado necessariamente perde. Uma pessoa é sempre forçada a pagar pelo benefício de outra, e isso gera ressentimento. Isso não se limita a um governo de bem-estar social. Ela está difundida em tipos de governo imagináveis, desde as ditaduras mais totalitárias até um governo mínimo limitado ao exército, à polícia e a um sistema judiciário.

Veja o “desengajamento” de Gaza em 2005.[9] Por que isso foi um evento político? Por um lado, a “ala esquerda” se ressentia dos judeus, mesmo os judeus estando lá primeiro, porque não é um valor da esquerda estabelecer Gaza com judeus (ignore aqui o porquê). A razão pela qual se ressentiram é porque eles, o povo de esquerda, estavam sendo obrigados a pagar pela proteção dessas cidades pelo exército através do sistema tributário, uma causa que eles não apoiam. Isso custa dinheiro, e ninguém gosta quando seu dinheiro está sendo usado para coisas que ele não aprova.

Por outro lado, a “direita” certamente se ressentiu do fato de que as pessoas estavam sendo expulsas de suas propriedades por um exército que a “direita” também estava pagando. As pessoas de direita não gostam de pagar pela destruição de seus valores mais do que a esquerda. Então, torna-se uma luta amarga e desagradável.

Ou tome como exemplo as paradas do orgulho gay. Isso inicia um debate político todos os anos. Por quê? Porque as estradas onde esses desfiles acontecem são pagas à força pelo sistema tributário. As pessoas que valorizam as paradas do orgulho gay lutarão para tê-las nas ruas pelas quais pagam. As pessoas que não valorizam as paradas do orgulho gay também lutarão para mantê-las fora das ruas pelas quais pagam igualmente. Então, torna-se uma luta amarga e desagradável.

Ou tome essa briga pela educação segregada Ashkenazi/Sefardita[10] alguns anos atrás em Emanuel. A escola era do governo, financiada por impostos, paga por todos, e pais de “direita” (ou racistas, ou qualquer termo que você queira usar – é a mesma rotulação sem sentido) que valorizavam uma educação segregada por qualquer motivo para seus filhos, ressentiam-se de serem forçados a educar seus filhos de uma maneira que não aprovavam em uma escola pela qual eram obrigados a pagar por meio do sistema tributário. Muitas pessoas que nem tinham ouvido falar de Emanuel em primeiro lugar se envolveram nessa luta política em uma escola que não tinha conexão com suas vidas, porque se sentiam doentes sendo obrigadas a pagar por uma escola que segregava crianças e queriam que os pais fossem presos. Seguiu-se uma luta amarga e desagradável.

À medida que os impostos aumentam, as brigas ficam cada vez piores, porque sobra menos dinheiro para as pessoas usarem como quiserem, e torna-se cada vez mais importante como o dinheiro dos impostos é distribuído.

À medida que a carga tributária fica cada vez mais alta e a política consequentemente fica cada vez mais amarga e divisora, os cobradores de impostos – aqueles que realmente aprovam as leis para prendê-lo se você não as pagar – desviam sua atenção para bodes expiatórios em vez dos próprios cobradores de impostos, os políticos. Tome como exemplo as bolsas para crianças financiadas por impostos. Isto causa um grande ressentimento àqueles forçados a pagar por elas. Em um país que tem o poder de forçá-lo não apenas a pagar impostos, mas também a servir na IDF [Israel Defense Force] por três anos de sua vida, há um ressentimento ainda mais profundo entre pessoas que preferem não ser escravos por 3 anos e obter isenções para aprender Torá (o que quer que isso signifique), e pessoas que ainda são forçadas a entrar na IDF porque preferem não se sentar em uma Yeshiva[11] por 3 anos. Então, isso se transforma em uma luta de um lado tentando forçar o outro lado também a ser escravo das IDF por três anos, o que custará ainda mais dinheiro e uma luta ainda pior que se seguirá.

E o governo, aquela coisa que cobra os impostos e distribui as licenças para a mídia de transmissão, garante que história após história seja publicada sobre como, é claro, os Haredim são os culpados porque recebem algumas centenas de shekels [dinheiro israelense] em bolsas de bem-estar para suas crianças, enquanto fogem do exército, e todos os outros têm que financiá-los e serem convocados. Mas eles também garantem que nem uma única história seja publicada sobre as enormes “bolsas” de mais de 30.000 shekels por mês para 2.646 altos funcionários do governo, custando mais de um bilhão de shekels por ano provenientes da mesma pilha de impostos. Esses são funcionários públicos respeitados, aqueles que recebem 30.000 por mês do seu dinheiro. Os Haredim, os que recebem algumas centenas, são parasitas. Nada para ver aqui.

Um sistema de saúde controlado pelo governo fomenta a amargura entre aqueles que querem todos os tipos de medicamentos cobertos pelos contribuintes e aqueles que não querem pagar por eles, afinal por que deveriam? O transporte controlado pelo governo leva à amargura sobre se deve haver algum serviço no Shabat ou não. A educação financiada por impostos leva a brigas sobre quem precisa aprender o quê para obter o dinheiro. Qualquer coisa e tudo o que o governo toca dá origem ao ódio e às lutas internas e por boas razões. Com qualquer coisa financiada por impostos, um lado necessariamente perde. Em seguida, torna-se uma competição sobre quem pode extrair mais dinheiro do outro lado.

É exatamente por isso que nenhum rabino pode se levantar e dizer qual partido é o melhor para o povo de Israel. Porque não há nenhum. Não há vitória na política. No fundo, todos nós sabemos disso. É por isso que, por mais fortes que sejam suas opiniões políticas, você sempre verá seus inimigos políticos como legítimos e louváveis ​​em sua ação política. Porque você sabe em algum lugar dentro de você que seu inimigo político está apenas se defendendo contra sua atração pelo dinheiro dele. Você tem o direito de lutar, ele tem o direito de revidar. Votar é tentar contratar algum cara para roubar seu vizinho para você. É por isso que política é suja, uma palavra suja. É por isso que ela não pode surgir em um Dvar Torá sem causar problemas.

Você pertence ao grupo de pressão ao qual pertence, e o objetivo é tirar dinheiro de alguém que não tem seus valores usando o governo como sua máfia para seu próprio benefício. Como Frederic Bastiat disse uma vez: “O governo é a grande ficção pela qual todos se esforçam para viver às custas de todos os outros”.

Enquanto isso, como todos nos reunimos no dia da eleição para tentar roubar uns aos outros, os burocratas sempre conseguem roubar o topo.

Alguém no meu bairro uma vez me disse com orgulho que conseguiu um emprego como lobista no Knesset [parlamento em Israel].Ele sabia que eu sou um ativista em prol de Feiglin[12] e achou que eu ficaria feliz por ele se aproximar dos centros de poder e força e sei lá mais o quê. Ele não sabia com quem estava falando. Perguntei se ele estava fazendo lobby por dinheiro ou liberdade. A pergunta o levou para um loop. Ele pensou por um segundo e disse, em um tom meio envergonhado: “Dinheiro, eu acho”. Olhei para baixo e me afastei dele, esperando ferir seu orgulho o máximo possível.

A única razão legítima para se envolver na política é com o intuito de destruí-la. De encontrar alguém que realmente vai te devolver seu próprio dinheiro em vez de te dar o de outra pessoa para te calar.

Quanto à solução para todos esses problemas, é tirar o governo e privatizar. No caso do Desengajamento de Gaza, a solução real teria sido isentar os judeus de Gaza de todos os impostos, dar-lhes sua parte de armas no IDF que pagaram e deixá-los se defenderem às suas próprias custas e não às custas de esquerdistas em Tel Aviv. Problema resolvido. Ninguém tem que expulsar ninguém de sua casa.

Paradas do Orgulho Gay – venda as estradas controladas pelo governo para proprietários privados que irão gerenciá-las, e faça com que os organizadores da parada do orgulho negociem um preço para o desfile com os proprietários das estradas privadas. Alternativamente, privatize os parques e deixe-os realizar um desfile em um parque privado da cidade em algum lugar ao preço de mercado. Dessa forma, ninguém que odeia desfiles do orgulho gay e pensa que Deus os odeia também tem que pagar por eles, e as pessoas que amam desfiles do orgulho gay e pensam que Deus os ama também podem pagar por eles. E o resto de nós pode bocejar em apatia abençoada e não ter de ler mais sobre brigas por causa de um desfile no noticiário.

A batalha de segregação Ashkenazi/Sefardita em Emanuel? Feche o Ministério da Educação, deixe as escolas operarem com base nas preferências do consumidor, acabe com o fluxo de impostos para as escolas e, se os pais quiserem enviar seus filhos para escolas segregadas totalmente privadas, paguem por isso e o façam! E se você acha isso nojento e racista, não precisa pagar por isso, então o que isso te importa?!

É fácil compor um Dvar Torá sem política e falar sobre como todos os judeus devem ser unidos. Mas, na prática, isso é impossível enquanto estivermos sempre tentando viver às custas uns dos outros. Todos nós temos valores diferentes. Isso nunca vai mudar. Alguns de nós são “racistas” e querem educação segregada, alguns de nós não gostam dessa ideia. Alguns de nós amam o Exército e serviriam para sempre sem remuneração. Outros odeiam armas e querem ser deixados em paz. Alguns de nós são gays e adoram desfilar, outros pensam que o casamento gay trará o Armagedom. Alguns de nós odeiam “colonos” e pensam que estão destruindo tudo. Outros amam colonos e pensam que sem eles estaríamos todos mortos e Deus nos odiaria ou qualquer outra coisa. Somos todos diferentes, e a única maneira de nos unirmos é respeitar as diferenças e não forçar o outro lado a se conformar com o que nós, pessoalmente, pensamos.

Não podemos ser unificados se estamos sempre na garganta um do outro tentando recuperar nosso dinheiro, enquanto nossos escravizadores mútuos comem em nosso banquete financiado por impostos. A maneira como você unifica o povo judeu não é sugerindo que todos sejamos melhores. É tirando os impostos e o governo de tudo, então não há praticamente nada pelo que lutar. Se você simplesmente deixar as pessoas fazerem o que elas querem e não pagarem pelo que elas não acreditam, o esquerdista mais duro e o direitista mais extremo podem e vão se dar bem.

A política, no fundo, baseia-se na total falta de respeito pela propriedade alheia. Livre-se disso. É uma palavra suja. Da próxima vez que você se sentir nojento discutindo algo político, mergulhe nessa vergonha e desenvolva-a, cultive-a, promova-a. Isto é uma coisa boa. É a sua própria decência humana se aproximando de você. Se você ama a política e tudo sobre ela, ou você é um político, e nesse caso há pouca esperança para você, ou você ainda não leu até aqui.


[1] Aliyah é um termo que descreve o processo em que judeus nascidos em qualquer lugar do mundo imigram para Israel para exercerem o direito à cidadania israelense.

[2] Shiur é uma espécie de aula, onde uma passagem do Talmude é estudada por um grupo de pessoas.

[3] A Dvar Torá, também conhecida como drasha ou drash nas comunidades Ashkenazic, é uma palestra sobre tópicos relacionados a uma parashah (seção) da Torá – normalmente a parte da Torá que está sendo lida na semana.

[4] Halachá é o conjunto de normas e leis judaicas.

[5] Tanakh é o nome dado à Bíblia Hebraica, o Antigo Testamento. É ua espécie de abreviação ou acróstico para Torah (“Lei” ou “Instrução” – o Pentateuco), Nevi’im (“Profetas”) e Ketuvim (“Escritos”).

[6] Uma parte do Talmude.

[7] Haredim é um termo usado para se referir a judeus ultraortodoxos.

[8] Ovadia Yosef (1918-2013) foi um rabino muito reverenciado por seus conhecimentos sobre a Torah.  

[9] O “desengajamento” foi a remoção de alguns milhares de colonos judeus que viviam na Faixa de Gaza, em razão das tensões entre o governo israelense e o governo palestino, que controla a região.   

[10] Ashkenazis são os judeus provenientes da Europa Central e Europa Oriental. E Sefarditas são os descendentes de judeus originários de Portugal e Espanha.

[11] Yeshivá são as instituições que promovem o estudo de textos religiosos tradicionais, principalmente o Talmud e a Torá.

[12] Moshe Zalman Feiglin (1962-) é um político e ativista israelense, líder do partido sionista libertário Zehut.