Isaac Malheiros [1]

Este breve estudo pretende verificar se é verdade que nenhuma passagem bíblica fala do homem como plenamente humano antes do nascimento, e se o nascituro não é considerado uma vida humana na Bíblia [2]. Não será discutido especificamente o tempo a partir do qual um embrião/feto/bebê pode ser considerado uma vida humana (apesar do estudo tocar tangencialmente nesse tema).

Este é um estudo estritamente bíblico a respeito do status do nascituro na Bíblia. Por questão de espaço, este estudo não utilizará argumentos baseados no hebraico ou grego extra bíblicos, nem na literatura judaica ou cristã, apenas a evidência bíblica.

1. O nascituro tem individualidade equivalente a de um nascido

Falando sobre os nascituros Esaú e Jacó, Deus afirma que havia “dois povos”, “duas nações” no ventre de Rebeca (Gn 25:23). Deus viu mais que dois não-nascidos, viu a história, a personalidade e a descendência deles. Ao relembrar a história deles, a Bíblia considera que o Jacó de dentro do útero é o mesmo Jacó adulto: “No ventre da mãe segurou o calcanhar de seu irmão; no seu vigor, lutou com Deus” (Os 12:3). Não há diferença na individualidade e na personalidade do nascido e do não-nascido, ambos são “Jacó”.

Sansão já era nazireu “desde o ventre de sua mãe” (Jz 13:5, 7; 16:17), [3] sujeito às restrições do nazireado (e, por isso, sua mãe teve que se submeter às restrições também; Jz 13:4, 7). O nazireado era igual para ambos, o nascituro e o nascido.

Na concepção, e não apenas no nascimento, Jó já era considerado um “homem” (גֶּבֶּר , geber): “Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse: Foi concebido [4] um homem!” (Jó 3:3) [5]. Ao lamentar sua existência, Jó conecta seu nascimento e sua concepção como itens paralelos de uma mesma unidade. Tanto sua concepção no ventre de sua mãe quanto seu nascimento são parte integrante do que ele é [6]. Davi também liga nascimento e concepção: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

Jeremias foi consagrado e constituído profeta antes de sair do ventre (Jr 1:5). Foi tratado como pessoa no ventre. Jeremias considera que o que estava no ventre era ele mesmo, e que a morte no ventre seria a sua morte: “Por que não me matou Deus no ventre materno? Por que minha mãe não foi minha sepultura?” (Jr 20:17).

João Batista já era cheio do Espírito Santo no ventre materno, antes do seu nascimento: “Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1:15). João Batista tinha seis meses no ventre da mãe (Lc 1:24, 26, 36) quando reagiu à presença de Maria e do nascituro Jesus, que tinha menos de três meses no ventre de Maria [7].

2. Os nascituros e os nascidos são igualmente “filhos”

No AT, os nascituros são chamados de ben (בֵּן ), são “filhos” da mesma forma que os já nascidos (2Rs 19:3; Rt 1:11). Na Bíblia, uma “mãe” (אֵּם , ‘em) é a mulher que fica grávida, que carrega uma criança no ventre, e não apenas a que dá a luz. Quando relata que os filhos não-nascidos de Rebeca lutavam dentro dela (Gn 25:22), a Bíblia usa o termo “filhos” (banim, plural de ben), mesma palavra usada para filhos nascidos.

Da mesma forma, no NT, a mulher já é chamada de “mãe” (μήτηρ, mḗtēr) mesmo quando seu bebê ainda não nasceu: Maria estava no início da gravidez quando foi chamada de “a mãe do meu Senhor” (Lc 1:43). Isabel “concebeu um filho na sua velhice” (Lc 1:36). O que é concebido, antes do nascimento, já é chamado de “filho” (σἱός, huiós), e o que nasce também (Lc 1:57; cf. At 7:29).

O status de ambos, mulher grávida e nascituro, é mantido o mesmo antes e depois do nascimento: ela já é “mãe”, e o nascituro já é “filho”. Essa constatação é quase óbvia, mas precisa ser destacada. A mulher é chamada de “mãe” mesmo quando seu filho é abortado (Nm 12:12). Se um bebê morre antes de nascer, a mulher que o concebeu ainda é uma “mãe”.

3. Os nascituros e os nascidos são igualmente “crianças”

João Batista é chamado de “criança” (βρέφος, bréphos) no ventre (Lc 1:41, 44). Jesus já nascido também é chamado de “criança” (bréphos, [Lc 2:12, 16]). As crianças abençoadas por Jesus (Lc 18:15), e os recém nascidos mortos por Faraó (At 7:19) também são “crianças” (bréphos). Nascidos e não-nascidos recebem a mesma designação no NT.

No AT, ocorre o mesmo. Em Ex 21:22, o nascituro é chamado de yeled, uma palavra comum para uma criança viva, um filho. Essa palavra hebraica geralmente designa a criança de maneira genérica, mas pode referir-se também ao recém-nascido (Ex 1:18), ao filho que foi desmamado (Gn 21:8), ao adolescente [8] (Gn 21:15; 37:30), aos jovens (2Rs 2:24; Dn 1:4, 10, 15, 17), aos adultos, [9] e aos descendentes (Is 29:23).

Apesar de yeled também ser usada para designar os filhotes de animais (Jó 38:41, 39:3, Is 11:7), o abundante uso dessa palavra para se referir às pessoas, aos seres humanos na Bíblia, indica que o nascituro também é uma pessoa. Ao identificar o nascituro como um yeled, Ex 21:22 sugere a humanidade e a personalidade do não-nascido.

No relato do infanticídio de Ex 1:16-17, Faraó mandou matar os filhos (ben) recém-nascidos dos hebreus, mas as parteiras deixaram viver os meninos (yeled). Ao contar essa história, o NT chama essas crianças de bréphos. Todos esses termos também são usados para nascituros na Bíblia: como os já nascidos, os não-nascidos também são ben, yeled e bréphos.

Até o bebê abortado, ou que nasceu morto e nunca viu a luz, é chamado de “criança” (עוֹלֵּל , ‘olel; ou νήπιος, nēpios, na LXX): “ou, como aborto oculto, eu não existiria, como crianças que nunca viram a luz” (Jó 3:16). A palavra hebraica ‘olel sempre se refere a indivíduos humanos [10].

Uma pergunta importante é: os autores bíblicos tinham palavras mais adequadas para falar dos nascituros? Será que a Bíblia usa esses termos por falta de opções melhores? O hebraico bíblico apresenta pelo menos duas palavras mais específicas para usar: o embrião pode ser designado por golem (גלֶֹּּם ), como no Sl 139:16, e o feto natimorto por nephel (נֵּפֶּל ), como em Sl 58:8; Ec 6:3 e Jó 3:16. E se levarmos em conta o hebraico e o grego extra-bíblicos, veremos que havia palavras e expressões mais específicas à disposição [11].

Além de descrever o nascituro com expressões mais gerais, associadas a pessoas, seres humanos, a Bíblia vincula o nascituro a outras expressões, pensamentos e ideias que o equiparam a uma pessoa humana completa. Mesmo se não houvesse palavras alternativas para falar sobre a vida intrauterina, no mínimo, os escritores bíblicos não vinculariam o nascituro às características humanas se de fato eles não acreditassem que o nascituro fosse um ser humano.

Por que a Bíblia emprega essa linguagem geral? Por que não usou termos técnicos mais precisos para se referir ao embrião ou ao feto? Não podemos ter completa certeza a respeito dos motivos pelos quais os autores bíblicos escolheram uma determinada palavra em vez de outra, mas há aqui uma evidência que não pode ser desprezada.

Na Bíblia, portanto, o que foi concebido e vive no ventre materno desde a concepção é um “filho”, uma “criança”. E a mulher em cujo ventre esse pequeno ser vive é uma “mãe”. Mesmo que a criança ainda não tenha nascido, e mesmo que morra antes do nascimento, ela é “filho” e “criança”, e a mulher que a concebeu é uma “mãe”.

Essas expressões mostram que o nascituro na Bíblia é identificado por termos distintamente humanos, e tal linguagem sugere que não há diferença essencial entre o nascido e o não-nascido, pois a Bíblia usa exatamente os mesmos termos para ambos. Portanto, diante dessas evidências, é possível concluir que a Bíblia sugere que nascituros e nascidos partilham da mesma natureza, e que a vida no ventre materno é a vida humana.

4. Características humanas são atribuídas ao nascituro

Há natureza emocional, personalidade no não-nascido em Sl 139:13-16: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir”.

Destaque para a primeira frase, Deus criando o “íntimo de meu ser”, ou as “partes interiores”, literalmente “os rins” (כִּלְיָּה , kilyah). Metaforicamente, essa é uma expressão que indica as emoções, o “coração dentro de mim” (Jó 19:27), a mente e os afetos do ser humano, que podem ser sondados por Deus (Sl 7:9; 26:2; Jr 11:20; 17:10; 20:12).

Apesar da evidente linguagem poética, diante de Sl 139:13-16 é difícil rebaixar o status do ser humano não-nascido. Nesse texto está a única ocorrência de golem (embrião, ou “substância sem forma”) na Bíblia. Na única vez que o AT fala especificamente de um embrião, a descrição é poética e grandiosa.

Uma natureza moral já está vinculada ao nascituro desde a sua concepção em Sl 51:5 (cf. Rm 5:12-19). Ao refletir sobre o pecado em seu coração, o adulto Davi reconhece que o pecado de seu coração não é algo recente, mas volta ao ponto de sua concepção no ventre de sua mãe. Tal estado moral contínuo só poderia ser atribuído a uma pessoa humana no ventre. Os ímpios também já são pecadores desde o ventre (Sl 58:3; Is 48:8).

Além disso, há a descrição da relação de Deus com nascituros. O salmista declara: “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” (Sl 22:10). Paulo afirma: “Mas Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou” (Gl 1:15).

5. O desenvolvimento do nascituro é obra de Deus contada em linguagem pessoal

A Bíblia nunca fala da vida no ventre como mera atividade química ou algo vago, em vez disso, o nascituro no ventre materno é descrito em linguagem vívida e pessoal, como um ser humano sendo modelado, formado, e tecido pelo próprio de Deus (Sl 139:13-16). Como relata Jó a respeito de sua formação no ventre: “De pele e carne me vestiste e de ossos e tendões me entreteceste” (Jó 10:11). Até o início do processo é atribuído a Deus: o Senhor deu a concepção para Rute (Rt 4:13).

Analisando os textos que se referem à existência intrauterina, alguns verbos se destacam, como, por exemplo:

“As tuas mãos me plasmaram e me aperfeiçoaram ((עָּשָּה , asah) […]” (Jó 10:8); “[…] me formaste (עָּשָּה , asah) como em barro” (Jó 10:9); “Aquele que me formou (עָּשָּה , asah) no ventre materno não os fez (עָּשָּה , asah) também a eles? Ou não é o mesmo que nos formou na madre?” (Jó 31:15)

“As tuas mãos me fizeram (עָּשָּה , asah) e me afeiçoaram […]” (Sl 119:73)

“Assim diz o SENHOR, que te criou (עָּשָּה , asah), e te formou (יָּצַּר , yatsar) desde o ventre […]” (Is 44:2); “[…]o mesmo que te formou (יָּצַּר , yatsar) desde o ventre materno […]” (Is 44:24; cf. 49:5).

Quando Deus disse “façamos (עָּשָּה , asah) o homem à nossa imagem” (Gn 1:26, cf. 1:31, 2:18), e quando relata que “formou (יָּצַּר , yatsar) o SENHOR Deus ao homem do pó da terra […]” (Gn 2:7), a Bíblia usa os mesmos verbos destacados acima. Ou seja, assim como Deus formou Adão do pó da terra, ele também está ativamente envolvido na criação do feto no útero [12]. Deus é o que forma “desde o ventre” (Is 44:2, 24; 49:5), chama desde o ventre (Is 49:1). É Deus quem sustenta no ventre e tira do ventre (Sl 22:9, 71:6).

Além disso, nesse tema também é importante destacar a continuidade entre a identidade do nascido e do não-nascido: a Bíblia retrata o nascituro já como sendo o indivíduo nascido (Jó, Jacó e os salmistas já são considerados Jó, Jacó e os salmistas desde o ventre).

6. As mortes dos nascituros e dos nascidos são maldições equivalentes

Não conceber, não manter uma gravidez, não dar à luz ou perder um filho já nascido fazem parte de uma mesma maldição: “Quanto a Efraim, a sua glória voará como ave; não haverá nascimento, nem gravidez, nem concepção. Ainda que venham a criar seus filhos, eu os privarei deles, para que não fique nenhum homem. Ai deles, quando deles me apartar!” (Os 9:11-12).

A perda de um filho no ventre é apresentada lado a lado com a perda de um filho já nascido: “[…] Dá-lhes ventres que abortem e seios secos” (Os 9:14 NVI, ou “madre que aborte”, na Almeida Corrigida e Revisada, Fiel e Almeida Atualizada).

“Ferido está Efraim, secaram-se as suas raízes; não dará fruto; ainda que gere filhos, eu matarei os mais queridos do seu ventre” (Os 9:16).

Nessa advertência, Deus avisa que abortos seriam provocados como um castigo, um juízo. O contrário dessa maldição é a bênção de Ex 23:26: “Em sua terra nenhuma grávida perderá o filho, nem haverá mulher estéril. Farei completar-se o tempo de duração da vida de vocês”.

Não há no texto de Os 9:11-16 nenhuma indicação clara de que Deus faz diferença significativa entre um filho no ventre ou fora dele.

7. Uma breve observação sobre Ex 21:22-23

Um dos textos mais disputados quando se discute o status do nascituro e o aborto é Ex 21:22-23. As diferentes interpretações já podem ser vistas ao se comparar algumas versões do texto: trata-se de um aborto ou de um nascimento prematuro?

“Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, […]” (versão ARA, ênfase acrescentada).

“Se homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela der à luz prematuramente, não havendo, porém, nenhum dano sério, o ofensor pagará a indenização que o marido daquela mulher exigir, conforme a determinação dos juízes. Mas, se houver danos graves, a pena será vida por vida, […]” (versão NVI, ênfase acrescentada).

Vamos resumir as duas principais interpretações desse texto. A interpretação tradicional (como mostra a versão ARA) sustenta que esta passagem trata de um caso de aborto provocado por um ferimento acidental de uma mulher grávida. A lei exigiria apenas uma indenização pela perda do feto, mas se a mãe sofresse qualquer dano mais sério ou morresse, a lex talionis (“vida por vida”) ser executada. Visto desta forma, esse texto diferencia o feto e a mãe, tratando apenas a mãe como um ser humano, e considerando apenas a morte da mãe como assassinato. Assim, já que o feto não é considerado plenamente humano, o aborto não deveria ser equiparado ao assassinato.

A segunda interpretação sugere que o texto está falando do nascimento prematuro de um bebê vivo, pelo qual uma indenização deveria ser paga. Mas houvesse maior dano (ferimento ou morte) à mãe ou ao feto, a lex talionis deveria ser aplicada. Nessa interpretação, o feto tem o mesmo status de sua mãe, e esse texto não daria apoio à legitimação do aborto.

Já dissemos que, nesse texto, o nascituro é chamado de “criança” (yeled, mesma palavra usada para crianças já nascidas). Mas não faremos aqui uma análise exegética desse texto, [13] apenas algumas observações, considerando que o caso seja mesmo de um aborto (conforme a versão ARA). Em primeiro lugar, Ex 21:22-23 não lida com o caso de um aborto intencional. Não se trata de um feto morrendo por vontade da mãe e do pai, portanto, sua aplicabilidade é bem restrita.

Em segundo lugar, ainda que a punição para causar a morte de um nascituro seja uma indenização financeira, em vez da pena de morte, isso não significa que o nascituro não seja uma pessoa humana. As diferentes penalidades não indicam necessariamente nada sobre a personalidade e a condição humana das vítimas. A lei também não exigia a pena de morte em casos de morte acidental de alguém já nascido (Ex 21:13), e havia a punição mais branda no caso de um dono de escravo que matasse seu escravo (Ex 21:20-21). A punição por matar um escravo era diferente da punição por matar um livre, mas isso não significa que o escravo não é pessoa humana. A diferença era o status legal, não o status moral ou a natureza humana do escravo.

Assim, pagar uma indenização pela morte de um nascituro não indica de maneira alguma que ele é menos do que uma pessoa humana. Se fosse assim, quem usa Ex 21:22-23 para justificar que o nascituro tem status inferior está logicamente obrigado a considerar os escravos menos do que pessoas humanas.

Em terceiro lugar, Ex 21:22-23 não especifica a idade do feto, portanto, o status do nascituro é o mesmo durante toda a gravidez. Esse fato causa uma dificuldade para quem usa Ex 21:22-23 para justificar o aborto: não há aí nenhuma diferença entre um feto de 12 semanas e um bebê a poucos minutos de nascer. Portanto, um bebê de 42 semanas também não seria uma pessoa humana, e matá-lo não poderia ser considerado mais grave ou mais errado.

Mesmo se o texto estiver falando de um aborto acidental, a exigência de uma indenização dos culpados da tragédia mostra que a morte de um feto não é aceitável, não é para se tornar algo normal, corriqueiro. Se um aborto acidental resulta em punição do culpado, quanto mais grave seria a morte intencional de um feto? É totalmente inadequado usar esta passagem para sancionar o aborto intencional de uma criança.

8. Seria hermeneuticamente necessário um mandamento “não abortarás”?

Este estudo sobre o status do nascituro mostra que a Bíblia contém mais material sobre o tema do que se costuma acreditar. É comum ouvir alegações do tipo “a Bíblia não diz nada sobre o aborto”, ou “a Bíblia não fala nada a respeito de quando começa a vida”, e deixar as Escrituras de lado logo de partida. A questão do aborto se relaciona com as doutrinas cristãs adventistas em vários pontos (natureza do homem, os dez mandamentos, casamento e família, mordomia, e outros), e nós, como igreja, deveríamos reconhecer nossa indolência ao tratar o assunto mais culturalmente que biblicamente.

O suposto silêncio bíblico contra o aborto pode ser considerado uma tácita aprovação do aborto? Retomando uma comparação já utilizada, o argumento “a Bíblia não diz nada diretamente contra o aborto” pode ser comparável a “a Bíblia não diz nada diretamente contra a escravidão”. De fato, a Bíblia até parece apoiar a escravidão, por vezes. Mas os cristãos conseguiram extrair da Bíblia princípios a respeito da dignidade humana e da igualdade essencial de todos os homens, e isso foi suficiente para eles desempenharem um importante papel na luta contra a escravidão.

Apesar de existirem vários textos positivos, mandamentos regulamentando a prática da escravidão, não foi difícil para os cristãos perceberem que a totalidade da Escritura apontava em outra direção. No caso do aborto, sequer existem esses textos positivos! [14]
O silêncio do AT sobre o aborto intencional indica que uma legislação contra o aborto era desnecessária, em vez de indicar uma aprovação implícita. O mandamento “não matarás” seria suficiente para aquela época (e, por que não para a nossa?), não precisando de uma legislação específica sobre matar crianças. Os hebreus não praticavam o aborto intencional, e não viam isso como algo normal ou positivo, e sim como uma maldição.

Afirmar que a Bíblia não diz nada sobre determinado assunto e concluir que isso é uma permissão tácita é uma prática hermenêutica questionável. Mesmo se a Bíblia não disser nada sobre um determinado tema (o que, em minha opinião, não é o caso do aborto), é preciso buscar princípios relacionados ao assunto e deduzir normas de conduta a partir deles.

Será que, na questão do aborto, os cristãos deveriam usar hoje a mesma hermenêutica e a mesma argumentação que os escravagistas usavam no século XIX para defender que a escravidão era biblicamente justificada, ou que pelo menos a Bíblia não lhe era contrária? Deveriam buscar textos selecionados, exigir ordens divinas mais claras e usar o “argumento do silêncio”?

Conclusão

A análise da evidência bíblica revela uma linguagem que se refere ao homem como plenamente humano mesmo antes do nascimento. Deus chama, consagra, sustenta, forma, molda o nascituro. Mesmo no ventre, ele recebe a atenção e o cuidado de Deus. E a Bíblia jamais o descreve como uma “coisa” inanimada ou sub-humana, pelo contrário: dedica-lhe textos poéticos, proféticos e históricos, com adjetivos, substantivos e verbos igualmente usados para seres humanos já nascidos.

É temerário dizer que o nascituro não é considerado uma vida humana na Bíblia, pois nela ele tem individualidade como a de um nascido, é chamado de “filho” e de “criança” como um nascido, é descrito com características humanas e pessoais, seu desenvolvimento é descrito como obra de Deus e em linguagem pessoal, e sua morte é uma maldição equivalente à morte de um nascido.

Finalmente, um texto-chave nesse tema, Ex 21:22-23, merece continuar sendo exegeticamente avaliado, mas dentro de seus limites de aplicabilidade. Mesmo considerando correta a interpretação tradicional (que vê ali um caso de aborto), esse texto não deve servir à argumentação pró-aborto (ou pró-escolha) contemporânea, visto que não se trata de um caso de aborto intencional. Ademais, o fato de, nessa interpretação, o aborto ser punido com uma indenização (e não com pena de morte) não indica que o feto não é humano, pois outras mortes de humanos já nascidos também não eram punidas com a lex talionis. As diferentes punições estavam relacionadas com o status legal dos envolvidos e não com sua condição de ser considerado humano ou não.

Referências:

1 Mestre em Teologia (Escola Superior de Teologia, São Leopoldo-RS), doutorando em Teologia (Escola Superior de Teologia, São Leopoldo-RS), bolsista da CAPES. Email: pr_isaac@yahoo.com
2 Declarações como essas podem ser facilmente encontradas em obras cristãs sobre o tema. No contexto do adventismo, isso foi afirmado no documento Interruption of Pregnancy (Recommendations to SDA Medical Institutions): Statement of Principles. Proposta ad hoc da Comissão da Conferência Geral da IASD sobre o aborto. Loma Linda, 25 de janeiro de 1971: “A posição Adventista reconhece que nenhuma passagem bíblica expressamente condena o aborto ou fala de um homem como plenamente humano antes do nascimento.” Cita Ex 21:22-25, e conclui que “deve ser notado que o feto não era considerado uma vida humana até o ponto onde ‘vida por vida’ deveria ser exigido. Assim uma distinção é feita entre a destruição de um feto e a morte de uma pessoa”. Disponível em: <http://ellenwhite.org/sites/ellenwhite.org/files/books/5103/5103.pdf&gt;. Acesso em 15/12/2016.
3 “Desde o ventre” no AT, por vezes, parece ser uma expressão idiomática para indicar “desde o início”, “desde a origem”, “desde muito tempo”, mas não nesse caso, onde o sentido é literal.
4 O verbo aqui é הָּרָּה (harah), conceber, utilizado também para a gravidez de Hagar (Gn 16:4), e para a gravidez de Tamar (Gn 38:18).
5 A palavra hebraica geber (גֶּבֶּר ) geralmente é usada para indivíduos adultos (cf. Jó 3:23; 4:17; 10:5; 34:7; Sl 127:5; 128:4, e outros). Ao aplicar geber ao nascituro, o AT indica que trata-se de algo mais significativo que um amontoado de células e tecidos.
6 Em Jó 10:18-19 ele diz que se tivesse morrido ao sair do ventre da mãe, teria sido como se “nunca tivesse existido”. Ou seja, aqui aparentemente ele despreza o período anterior ao nascimento, não considera como existência. No entanto, Jó também se refere a esse período anterior ao nascimento com expressões pessoais (“se eu morresse” “me vissem”, etc.), quem estava no ventre era ele mesmo. Além disso, ele faz uma comparação levantando uma mera hipótese do que teria sido, usando a partícula como. Em outras palavras, ele seria como se nunca tivesse existido, mas não de fato. Essa teria sido a “impressão dele” se tivesse nascido morto.
7 O relato diz que Maria resolveu visitar Isabel “naqueles dias”, ou seja, num período próximo ao começo da gravidez de Maria (Lc 1:39). Ela ainda ficou mais três meses com Isabel, até o tempo do nascimento de João Batista.
8 Ismael tinha pelo menos 14 anos de idade quando a Bíblia se refere a ele como um yeled (Gn 21:15, cf. 16:16, 21:5), e José é chamado de yeled com pelo menos 17 anos de idade (Gn 37:30, cf. 37:2).
9 Roboão tinha 41 anos quando começou a reinar sobre Judá (2Cr 12:13). E seus jovens (yeladim) conselheiros eram contemporâneos dele (2Cr 10:8, 10, 14). Assim, yeled designa adultos de cerca de 41 anos de idade.
10 1Sm 15:3; 22:19; 2Rs 8:12; Sl 8:2; 17:14; 137:9; Is 13:16; Jr 6:11; 9:21; 44:7; Lm 1:5; 2:11, 19, 20; 4:4; Os 13:16; Jl 2:16; Mq 2:9; Na 3:10.
11 Em grego, por exemplo, ἔμβρσον especificaria um feto, enquanto τέκνον, παιδίον e νήπιος seriam expressões mais específicas para crianças já nascidas, ao contrário de βρέφος, que é genérico. O hebraico, bíblico e pós-bíblico, possui pelo menos seis palavras para se referir ao feto ou ao nascituro. Ver FULLER, Russell. Exodus 21:22-23: The Miscarriage Interpretation and the Personhood of the Fetus. JETS, v. 37, n. 2, 1994, (p. 169-184). p. 178-179
12 Na criação de Eva, o verbo utilizado é בָּנָּה (banah), mesmo verbo utilizado para referir-se ao(s) filho(s) que Abraão teria com Hagar (Gn 16:2), e aos filhos nascidos através da lei do levirato (Dt 25:9).
13 Para uma rápida apresentação dos principais argumentos exegéticos das diferentes interpretações de Ex 21:22-23, ver DU PREEZ, Ron. The fetus in biblical law. Ministry, setembro de 1992. Disponível em: <https://www.ministrymagazine.org/archive/1992/09/the-fetus-in-biblical-law&gt;. Acesso em: 18/12/2016.
14 Alguns textos bíblicos supostamente favoráveis utilizados pelos defensores do aborto são: “E o Senhor disse a Moisés: Conte todos os primeiros filhos dos israelitas, do sexo masculino, de um mês de idade para cima e faça uma relação de seus nomes” (Nm 3:40; cf. 3:15). Esse texto poderia indicar que a vida humana era considerada apenas depois do primeiro mês após o nascimento. No entanto, interpretar esse texto assim abre portas para o infanticídio, pois bebês poderiam ser descartados com até um mês de nascimento, já que não seriam pessoas no sentido pleno. Na verdade, a idade de um mês era o tempo limite para que um primogênito fosse resgatado e os levitas ocupassem o lugar desses primogênitos: “Eis que tenho eu tomado os levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo primogênito que abre a madre, entre os filhos de Israel; e os levitas serão meus” (Nm 3:12). Os primogênitos eram permutados pelos levitas com um mês de idade (Nm 3:45-47; 18:15-16). Portanto, essa não é uma questão referente ao status moral do bebê, mas a uma questão legal relativa ao resgate dos primogênitos.
Outro texto é o teste para o caso de uma mulher sob suspeita de adultério: “Que esta água que traz maldição entre em seu corpo, inche a sua barriga e a impeça de ter filhos. Então a mulher dirá: Amém. Assim seja” (Nm 5:22). Alguns entendem que a água, além de deixar a mulher infértil, provocaria um aborto do filho gerado no adultério (a expressão “inche a sua barriga”), e isto indicaria que Deus estaria aprovando o aborto de filhos indesejados. Esse texto não é claro com respeito ao que aconteceria com uma mulher adúltera grávida, e o aborto pode ser apenas inferido como um possível resultado. Mesmo assim, trata-se de uma severa punição imposta à mulher, não um ato de livre escolha individual. Se o caso for mesmo de um aborto, ele seria um juízo divino, como os nascituros abortados em Os 9:11-16, e como a morte do filho de Davi com Bate-Seba (2Sm 12:13-14). Utilizar um aborto provocado por um castigo divino para justificar o aborto hoje é tão errado quanto usar a morte de crianças em juízos divinos para justificar o infanticídio hoje.