Por Arthur Rodrigues

“De fato, mil anos para ti são como o dia de ontem que passou, como as horas da noite.” (Salmos 90:4)

Deus não está sujeito ao tempo, pois ele é eterno. A vida humana, entretanto, é comparada a uma espécie de relva palestina que surge promissora com o raiar do dia, porém murcha, sob o sol escaldante de Canaã e morre o final da tarde, antes que se encerre a segunda vigília da noite. (Comentário Bíblia King James atualizada, Salmos 90:4 )1

Antes de entrar especificamente no tema desse texto gostaria de dizer que esse não representa um consenso do pensamento dos administradores do Reação Adventista, reflete tão somente o que creio. Também não é o propósito esgotar o tema, outras publicações podem vir a ser complemento desta reflexão inicial.

Hoje não quero falar sobre a repercussão dos nossos anseios no tempo de Deus, mas sim da repercussão das nossas ações e decisões nesse desconhecido espectro de tempo.

Uma dúvida recorrente entre nós, seres caídos, é como se dá o tempo de Deus. Como é o transcurso desse tempo? Existe uma espécie de linha do tempo paralela a nossa? Como Ele pode prevê nossas ações nessa dimensão temporal diferente? Ele sabe do futuro porque já o determinou?

Esses questionamentos permeiam tanto as correntes calvinista e arminiana quanto algumas outras, a exemplo do molinismo, que se propõe a ser uma alternativa.

Os calvinistas acreditam na previsão pela determinação, ou seja, Deus sabe do futuro porque já determinou como ele haveria de ser. Linha de pensamento precária, uma vez que constitui-se como negativa ao livre arbítrio e anularia completamente o escolhe pois a vida de Deuteronômio 30:19-20.

Esse futuro pré-determinado constrói a imagem de que Deus colocou todos numa grande peneira e definiu quem seria salvo ou não, ou seja, a compreensão errônea sobre a onisciência de Deus culmina na predestinação.

Os arminianos acreditam na presciência de Deus, afirmando conjuntamente que essa “previsão do futuro” não exclui nossa capacidade de escolha. Porém, não conseguem responder como Deus prevê o futuro sem comprometer o nosso livre arbítrio. Como pode Deus saber da minha escolha se ainda não a fiz?

Tentando solucionar esse impasse arminiano, o molinismo surgiu para propor que Deus prevê o futuro com base em exercícios probabilísticos: “Aquilo que Deus decreta é obviamente um subconjunto de todas as possibilidades que Ele conhece”2.

Vejo essa linha ainda mais precária que a calvinista. Praticamente reduz O Criador a um matemático, que por conhecer todos os conjuntos de possibilidades é capaz de fazer uma “previsão do futuro”.

Confesso que dentre as três correntes apresentadas preferiria continuar desconhecendo a forma com Deus “prevê” o futuro, todavia, o comentário bíblico da versão King James, exposto no início desse texto, dá um pequeno vislumbre sobre a visão que me parece mais próxima de compreender a manifestação de Deus no tempo.

A visão da atemporalidade diz que Deus não está limitado pelo tempo e passeia pela história da humanidade em seu presente. Essa corrente possui inúmeros defensores, traremos aqui apenas um.

Complementando o comentário bíblico supracitado o apologista cristão britânico C.S. Lewis afirma que não há diferença para Deus entre passado e futuro, ambos para Ele são presente. O que você fez ontem ou fará amanhã acontece hoje para Deus.

“Mas suponha que Deus esteja fora e além da linha do tempo. Nesse caso, o que nós chamamos de amanhã é visível para ele da mesma forma que o que chamamos de hoje. Todos os dias são “agora” para ele. Ou seja, ele não se lembra de você fazendo essas coisas, pois, embora você tenha perdido o dia de ontem, ele não perdeu. Ele não prevê você fazendo coisas amanhã. Ele simplesmente o vê realizando-as, pois embora o amanhã ainda não ocorreu para você, já é para ele.” (Cristianismo Puro e Simples, p.223)

Com isso C.S. Lewis nos ensina que Deus não prevê o futuro, ele simplesmente o contempla. Nós escrevemos as nossas próprias escolhas e Deus, por sua eternidade, as conhece no momento em que fazemos.

Deus é Eterno, é o próprio existir, definir o seu agir em passado, presente e futuro é delimitar O Criador, é diminuí-lo, é colocá-lo dentro de um espaço, e sabemos que não há espaços suficientemente grandes para compreender Deus.

É um tema complexo e demanda muito estudo. Como o próprio Lewis afirma, você pode ser um bom cristão sem entender ou até mesmo pensar dessa forma, ela não encontra base bíblica mas também não é contrária a fé cristã. Todavia, a essa abordagem me encontro inclinado e decidi compartilhar com vocês.

Passei a ver as outras visões como se de certa forma limitassem a grandeza de Deus, como se o exercício de prever o futuro fosse um poder a Ele atribuído, quando na verdade a sua condição de grandeza sobre o tempo parece responder a questão da onisciência de forma mais satisfatória.

A condição de “Para além do tempo”, sem bem defendida, pode até mesmo desbancar argumentações em favor da predestinação.

Como disse inicialmente, esse texto é uma breve reflexão sobre o tema e não pretende esgotar o assunto. O propósito dessa publicação é levar o leitor a uma reflexão e provocar o estudo.

Bibliografia:

  1. BÍBLIA, A. T. SALMOS. Português. Bíblia King James Atualizada: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Abba Press Editora, 2012. p. 1111.
  2. HELM, Paul. “O que é o Molinismo?. Blog Bereianos (https://goo.gl/beRbvz)
  3. LEWIS, CS. Cristianismo puro e simples”. Rio De Janeiro: Thomas Nelson. 1a 2017.