Por Davi Caldas

Ser bíblico é combater tanto o extremo do liberalismo teológico como o extremo do perfeccionismo. O problema do perfeccionismo é que ele procura partir do micro para o macro, quando a proposta divina para a santificação é partir do macro para o micro.

Alguns procuram sustentar a tese perfeccionista através das palavras do Senhor: “Quem é fiel no pouco, também é  fiel no muito” (Lc 16:10). Isso ensejaria uma lógica do tipo: “Se você não consegue vencer pequenos pecados, não vencerá os grandes”. Mas a passagem está descontextualizada. Jesus falava sobre dinheiro. A lógica é diferente quando se trata de amor ou santificação. Um homem não passará a amar mais a Deus porque deixou de tomar refrigerante. O oposto está mais próximo da verdade: pelo desenvolvimento do amor a Deus, um indivíduo pode um dia se incomodar de tomar algo que lhe faz mal e deixar de lado por amor a Deus. Trata-se de um efeito e que não deve ser tomado como padrão geral que prova a conversão, já que o nível de consciência e sensibilidade de cada um difere de um para o outro, bem como as prioridades de Deus em cada vida.

O Senhor está muito mais preocupado em desenvolver mais amor por Ele e pelo próximo (perspectiva macro) do que formar indivíduos que fazem das pequenas abstinências o suprassumo da santidade (perspectiva micro).

Se quero uma vida de santidade real, não devo tentar isso focando numa lista de pecados que não cometo, mas focando no amor que devo nutrir por Deus e pelo próximo. O foco no amor que devo desenvolver diariamente acaba por afastar os meus pecados naturalmente (bem como gerar mais consciência e sensibilidade), sem que eu precise pensar muito sobre isso. O foco nos meus pecados, por outro lado, acaba por me afastar do amor e me aproximar de um relacionamento por listas. Deixo de me preocupar com o amor para me preocupar com uma contabilidade, uma planilha, uma tabela do que tenho deixado de fazer de mal; como se a busca pela santidade fosse um trabalho de somar pontos até chegar a uma pontuação máxima, a qual chamamos de perfeição.

Toda vez que fazemos isso, limitamos a perfeição a uma linha de chegada. Talvez por isso o perfeccionismo seja tão chamativo. Ele é mais palpável. Você tem um alvo e um dia ele chega (ao menos, é o que você acha). Mas a santidade baseada no amor é muito mais radical, pois não estabelece linha de chegada. Enquanto vivo, você pode amar e deve mais. Não há limites. Nessa perspectiva, somar pontos perde o sentido. Você percebe que sempre poderá ser melhor e, portando, desiste de contar e passa apenas a amar mais a cada dia.

A verdade é que a perfeição cristã não se baseia numa lista de coisas negativas que você não faz, mas no que você faz de positivo por amor.

Assim, o candidato à perfeição vai além de não matar; distribui vida. Vai além de não roubar; supre as necessidades dos outros. Vai além de não adulterar; casa-se todos os dias com a mesma pessoa. Vai além de não cobiçar; pensa no que pode doar. Vai além de não dar falso testemunho; expõe os pontos positivos das pessoas. Vai além de não adorar outros deuses; se alegra em Deus. Vai além de não adorar imagens; enxerga a superioridade de Deus por trás de cada criatura. Vai além de não dizer o nome de Deus em vão; leva o nome de Deus aos lugares. Não só honra os pais; os satisfaz. Não só se abstém de trabalhar no sábado; separa alegremente esse dia para deleitar-se inteiramente na presença do Senhor.

A base da perfeição é ser cada vez mais amoroso. Quem ama ultrapassa os limites das listas negativas. A obediência é um efeito do amor. Quem ama obedece porque tem um relacionamento vivo com Deus e com o próximo. Quem não ama, ou pouco ama, limita-se a um terrível esforço de não fazer o que é mau, não conseguindo ir além disso e fazer o que é bom. A base da lei é o amor. Tire o amor e tudo o que restará será uma lista fria e um coração obscuro.

E como se ama mais? Quem ama, dá atenção. Quem ama, perdoa. Quem ama, ajuda. Quem ama, procura não magoar. Quem ama, conversa. Quem ama, quer estar junto. Quem ama, se alegra com o outro e no outro. Quem ama, repreende, mas com a intenção de ajudar, não de se sentir superior. Quem ama, desenvolve humildade. Quem ama, se relaciona não para contar pontos, para ficar quite, mas para fazer feliz e ser feliz.

Experimente fazer isso com Deus e com o próximo constantemente e, com o tempo, seus pecados tenderão a se reduzir. A partir daí, é possível que até o que não é pecado, mas também não é o ideal, deixe de fazer parte de sua vida. Mas não por princípio. Não por ser fim em si mesmo. Apenas porque quando muito se ama, todo o resto, naturalmente, passa a ser indiferente.

Eis a minha divergência contra radicais vegetarianos. Ao adotarem esse estilo de vida, colocam a prática como um princípio que não pode ser quebrado por eles em nenhuma hipótese. E assim caem no mesmo erro de carnívoros radicais, que não abririam mão da carne em nenhuma hipótese. Deus está interessado é naquele que, com o tempo, deixou de comer carne muito mais por indiferença. Ele não compra carne para sua casa, nem come na rua. Não se lembra a última vez que comeu. Mas se for convidado para um jantar com amigos e servirem carne, comerá normalmente, visto que para ele é indiferente. Ele não leva o vegetarianismo como princípio, pois a Bíblia não coloca o comer carne como pecado. Mas sabendo que o ideal da criação era vegetariano e amando muito mais a Deus do que qualquer outra coisa, acaba vendo a comida como indiferente, não se incomodando de quase nunca comer carne.

A postura do indiferente é mais elevada que a dos radicais carnívoros e vegetarianos. Ele entendeu que Deus não quer sua abstenção, mas seu amor. A abstenção é efeito e não causa; prática e não princípio; detalhe e não centro. Ele está bem com ou sem carne. Por ele, pela indiferença, não vai atrás dela. Mas se ela lhe vier, também não a dispensa. Esse indivíduo está muito mais preocupado com o amor. A comida não faz parte do centro de suas atenções. O que quer que seja boa prática e não princípio, assim deve ser visto pelo cristão.

O perfeccionismo falha em querer padronizar o relacionamento de todos com Deus nos detalhes secundários, como se todos devessem ter a mesma trajetória espiritual no que é borda, não centro. Mas Deus nos chama para um padrão no centro, no âmago, naquilo que nos pode transformar de fato: no amor. Essa deve ser nossa preocupação pessoal. Tenho eu amado? Tenho amado muito? Tudo o que faço está envolto de amor? Meu amor por Deus e pelo próximo são tão grandes que tudo o mais se torna secundário?

Não, isso não é um endosso à turma do “mais amor, por favor” e “não julgueis”, que procura ser permissiva e conivente com pecados a partir desses bordões. O pecado deve ser apontado e rechaçado. O amor não implica amizade com o pecado. Quem assim o faz não ama de verdade, pois amar a Deus e ao próximo implica odiar o pecado.

A questão central tratada nesse texto é: como você tem combatido o pecado na sua própria vida? Com listas, contabilidade e busca por pontuação para com Deus? Com uma quase crença na salvação pelas obras e pelo mérito próprio? Com uma preocupação sufocante com cada pequeno ato do cotidiano? Com o foco em si mesmo? Ou com um trabalhar intenso em constante no desenvolvimento do seu amor por Deus e pelo próximo? Note que ao focar no amor a Deus e ao próximo, deixa-se de focar em si mesmo. Como você tem buscado a perfeição? Ser perfeito é ser amoroso. O quão amoroso você tem sido?

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Obs.: quer saber mas sobre o assunto? Leia “Eu costuma a ser perfeito”, de George Knight, um dos melhores teólogos da Igreja Adventista do Sétimo Dia e o seu maior historiador. Também é recomendável assistir uma palestra homônima dele neste link.