Por Davi Caldas

Você já ouviu falar em guerra semântica? Trata-se de uma estratégia manipulatória muito simples e eficaz. Ela consiste em mudar o sentido das palavras para que elas possam trazer ideias e sentimentos favoráveis às intenções do manipulador. Vamos citar alguns exemplos.

Um socialista quer que a palavra socialismo remeta a uma boa ideia e gere bons sentimentos em quem a ouve ou lê. Ele então equipara socialismo à “saber dividir suas coisas”. A partir daí, ele pode, por exemplo, olhar para o livro de Atos dos Apóstolos, na Bíblia, e dizer que os primeiros cristãos eram socialistas porque sabiam dividir as coisas. Percebe? Houve uma manipulação semântica. O termo socialismo não significa isso. Mas ao fazer as pessoas pensarem que significa, gera simpatia. Afinal, saber dividir as coisas, não ser egoísta, é algo bom.

O resultado é impressionante. A pessoa que comprou o novo significado sempre que ouvir a palavra socialismo, vai pensar no sistema com bons olhos, pois pensará em “saber dividir as coisas”. E toda vez que ver alguém criticá-lo, considerará que tal pessoa é egoísta e mal caráter.

Quando alguém mostrar a essa pessoa que socialismo não é “saber dividir”, mas sim um regime de governo centralizador que redistribui renda por meio da coação, ela tentará equiparar os dois sentidos. E quando mostrarem que os governos socialistas não foram (nem são) exemplos de virtude, a pessoa dirá que não se trata do verdadeiro socialismo. E continuará a defender outras tentativas de socialismo, mantendo a mesma ideia de que socialismo é “saber dividir”. Curiosamente, muitas vezes a própria pessoa que pensa isso não sabe dividir as coisas. Mas ela desfará essa contradição, terceirizando a responsabilidade para o governo.

A palavra fundamentalismo é outro exemplo. Ela surgiu no início do século XX para se referir a cristãos tradicionais e criacionistas, que criam na literalidade dos primeiros capítulos de Gênesis, na inerrância das Escrituras Sagradas, nos milagres e nas doutrinas cristãs ortodoxas. Ou seja, eram fundamentalistas porque defendiam tudo o que foi, desde sempre, fundamento da religião cristã. Em oposição, estavam os cristãos liberais e evolucionistas, que vinham se afastando desses fundamentos. Adventistas estavam nesse grupo de fundamentalistas.

Com o tempo, contudo, fundamentalista passou a ter o sentido de fanáticos. Uma vez que a palavra fanático também é usada para designar grupos religiosos violentos, então todos esses foram jogados no mesmo saco. Assim, semanticamente um adventista ou qualquer outro cristão criacionista e tradicional é fundamentalista tal como um homem-bomba islâmico.

O efeito psicológico que isso causa é que qualquer cristão que siga os fundamentos bíblicos fielmente é quase tão intolerante como um homem-bomba e está seguindo pelo mesmo caminho. A guerra semântica é, por conseguinte, uma guerra de rótulos e uma guerra psicológica. Cole um bom rótulo no que você defende e um mal rótulo no que o outro defende, e os efeitos psicológicos desse trabalho garantirão pessoas do seu lado.

O mesmo é feito quando se força o capitalismo a tornar-se sinônimo de consumismo, egoísmo e exploração; fé sinônimo de crença irracional; conservadorismo sinônimo de elitismo e defesa do status quo; feminismo sinônimo de “estar a favor da mulher” (o que implica semanticamente que quem não é feminista é contra a mulher).

Alguns movimentos são engenhosos. Muitos grupos feministas transformaram as palavras vadia e p*ta em termos bons. Há a Marcha das Vadias, que procura defender que a mulher tem direito de ser vadia e isso não é demérito, mas uma opção normal, viável, que emana da liberdade feminina. Ao mesmo tempo, muitos grupos procuraram criar um eufemismo para as palavras prostituta e meretriz. Seriam ofensivas. A ideia seria substituir por “profissionais do sexo”.

Pode parecer paradoxal, mas não é. Em ambos os casos, a intenção é tornar a promiscuidade algo bom, normal, aceitável. As meretrizes se tornam “profissionais”. E as mulheres “normais” podem ser vadias. Guerra semântica.

O politicamente correto é um exemplo de guerra semântica. A partir dele proíbe-se culturalmente algumas palavras e expressões por, supostamente, ofenderem ou discriminarem certos grupos de pessoas. Já foi proibido, por exemplo, que chamar pessoas de pretas. Era preciso chamar de negro. Depois negro deixou de ser o ideal é criou-se o afrodescendente. Nos EUA, há o afro-americano. Em relação aos homossexuais, tenta-se proibir culturalmente agora a palavra homossexualismo; o “ismo” supostamente traz a noção de doença. A palavra adotada, por enquanto, é homossexualidade.

Esse tipo de policiamento se estende às piadas, aos temas abordados por filmes e às críticas aceitáveis. Qualquer ponto de um discurso pode ser taxado de ofensivo ou não inclusivo. Trata-se de um controle de linguagem. E quem controla a linguagem, pode mudar e manipular os termos, interpretar como quer os discursos e, desta forma, apontar como racista, discriminadora, homofóbico, etc. quem não segue a cartilha de termos e temas permitidos.

Homofobia é outra palavra alvo de manipulação. Seu sentido é de aversão aos homossexuais. Ela tem sido usada, contudo, tanto para designar agressores de homossexuais, quanto quem simplesmente não concorda com a prática. Qual o efeito psicológico? Quem não concorda está é quase um agressor e está caminhando para isso. De quebra, isso leva a outra manipulação semântica. Respeitar passa a ser sinônimo de concordar e achar correto.

Três palavras muito usadas na guerra semântica são fascista, nazista e democracia. Fascista e nazista viraram xingamentos. O adversário, não importa o que defenda, é rotulado com um desses termos para que todos pensem que suas ideias são inadmissíveis, não podem sequer serem discutidas. É uma forma inteligente de ser intolerante com alguém, mas com aparência de bom moço. Afinal, não se pode tolerar fascismo e nazismo.

Curiosamente, é comum que quem chama os adversários de fascista e nazista, aja e pense como um fascista, saído em grupos na rua para defender o partido com violência e sustentando a ideia de um Estado forte e controlador; e como um nazista, sendo antipático a judeus. E muitas vezes o alvo da ofensa é favorável a um Estado mais enxuto, simpático aos judeus e pacífico.

Já democracia se tornou um sinônimo de algo bom para o povo. E quem define o que é bom para o povo? Os “representantes” do povo, que formam um partido. Assim, mesmo que o povo não escolha algo, se seus representantes escolhem, é bom pra todos. E sendo eles legítimos representantes, se eles escolhem, todos escolheram. Com essa manipulação, qualquer ditadura pode ser chamada de democracia. Não por acaso, diversos regimes socialistas se intitularam (e se intitulam) democráticos ao longo do tempo.

As palavras puritano e moralista sofreram manipulação também. Puritano é quem procura ser puro. Moralista é quem procura ser moral. Embora isso possa ser um erro espiritual quando colocado como alvo no lugar de Cristo, em vez de consequência de seguir a Cristo, não é necessariamente algo ruim. Ser puro e moral são virtudes. Mas os manipuladores chamarão de puritano e moralista todos os hipócritas. E chamarão todos os que levam à sério a Bíblia e a santificação de moralistas e puritanos. Assim, servir a Deus passa a ser coisa de hipócrita.

Legalista e perfeccionista serão usadas para esses fins. O simples cristão obediente será jogado no mesmo saco de quem crê na perfeição absoluta e na salvação pelas obras da lei. A própria palavra legalista talvez seja um exemplo antigo de manipulação, pois em outros contextos, como no do direito, legalista é simplesmente quem segue a lei. E isso não é ruim (conquanto que não se encare a lei como salvífica, no caso espiritual). Em Salmos 119:4, lemos: “Tu [Senhor] ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca“. Obedecer a Deus é bíblico.

Com esses exemplos, fica claro o que é guerra semântica. É uma batalha travada por manipuladores no intuito de mudar o sentido das palavras para benefício próprio. Isso ocorre o tempo todo e por essa manipulação, nos tornamos, na visão do povo, intolerantes, hipócritas e maus, enquanto os manipuladores ficam com a aparência de bons moços. Que fiquemos espertos a essa estratégia e saibamos fazer uso da verdade para barrar manipulações das palavras.