Por Davi Caldas

Como se deu a rejeição do sábado na Igreja? O processo não pode ser explicado senão por uma série de causas que corroboraram para isso. Uma delas, sem dúvida, foi o antijudaísmo religioso dos chamados “pais da Igreja”. Até o livro “Do Shabbath para o dia do Senhor”, organizado por D. A. Carson, que é contrário à ideia de que o sábado ainda é válido para os cristãos, reconhece isso. Vejamos alguns trechos interessantes:

“Não fica evidente até que ponto os cristãos judeus dentro das igrejas predominantemente gentias do século 2 continuaram a guardar o Shabbath. Acredita-se que Inácio (Magn. 9.1) se refere aos cristãos judeus que abriram mão da observância do Shabbath; porém, o mais provável é que sua intenção fosse fazer referência aos profetas do Antigo Testamento. De qualquer modo, seu propósito era dissuadir os cristãos gentios da judaização e não pode ser usado como evidência de que os cristãos judeus em geral haviam deixado de guardar o Shabbath. Antes, suas cartas indicam que a forte influência judaica sobre as igrejas da Ásia tentava os gentios a guardar o Shabbath. Pelo menos sob a pressão da controvérsia, o próprio Inácio considerou o Shabbath uma prática tão contrária ao Cristianismo que, supostamente, até mesmo os cristãos judeus deviam abandoná-la, mas Justino Mártir expressa uma atitude mais tolerante com relação à observância do Shabbath pelos cristãos judeus que não insistiam que os gentios judaizassem.

Sem dúvida, as comunidades cristãs judaicas da Síria e Palestina continuaram a guardar o Shabbath. E bem possível que sua relação tanto com a igreja como um todo quanto com o Judaísmo ainda fosse flexível nesse período em que enfrentaram a exclusão das sinagogas em decorrência de sua lealdade a Jesus, mas em que também lutaram para manter sua identidade judaica ao continuarem a guardar a lei. Num gesto de repúdio ao ‘antinomianismo’ das igrejas gentias, os grupos mais rígidos se retraíram a uma posição considerada herética pelos teólogos da igreja como um todo.

Esses cristãos judeus preservaram as tradições da controvérsia entre Jesus e os fariseus sobre a observância do Shabbath e, provavelmente, muitos deles seguiram o exemplo de Jesus ao desconsiderar toda a Halaká acerca do Shabbath. E bem provável que essa tenha sido uma questão polêmica dentro da sinagoga e o relato de Mateus nas perícopes do Shabbath pode refletir um estágio inicial da discussão. Ao que parece, os judeus usaram a acusação de transgressão do Shabbath por Jesus como parte da argumentação contra os cristãos e cabe observar que até mesmo os autores cristãos gentios dos séculos 2 e 3 não citam Jesus em momento algum como um precedente para transgredir o mandamento do Shabbath. Para eles, Jesus havia guardado a lei de Deus, mas não as tradições dos homens” (p. 267).

Em outro trecho lemos:

“O contraste nítido que [Inácio] faz entre ‘guardar o Shabbath’ e ‘viver de acordo com o Dia do Senhor’ é digno de nota, uma vez que, a julgar pelos textos que chegaram até nós, tal questão jamais havia sido colocada desse modo na literatura cristã. Não se trata exatamente da preocupação paulina com a liberdade que os gentios gozavam da lei, mas de uma distinção mais radical entre o Judaísmo e o Cristianismo. Na concepção de Inácio, o Shabbath é a insígnia de uma atitude falsa para com Jesus Cristo, enquanto o culto eucarístico no Dia do Senhor define o Cristianismo como a salvação pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Inácio é uma das primeiras testemunhas da dissociação entre o Cristianismo e o Judaísmo que caracteriza o século 2, bem como da atitude inteiramente negativa com relação à observância do Shabbath que era o corolário da mesma” (p. 271).

Mais adiante:

“Essa tendência judaizante era de caráter popular e sofria a oposição das autoridades eclesiásticas. O Concilio de Laodicéia (380 d.C .), por exemplo, legislou contra uma série de práticas judaizantes, incluindo o descanso no Shabbath (cânone 29). Ao que parece, enquanto a inclinação popular era imitar as práticas judaicas, as autoridades muitas vezes reagiam insistindo numa forma cristã de observância do Shabbath claramente distinta da forma judaica. Esse Shabbath não devia ser observado por ‘inatividade’, conforme a prática dos judeus, mas como um dia cristão de culto no qual eram lidas as Escrituras do Novo Testamento e como uma comemoração da criação do mundo por Deus por meio de Cristo. Rordorf argumenta que essa observância distintamente cristã do Shabbath não podia ser ligada às tendências judaizantes mais antigas. No entanto, é provável que se deva considerá-la uma tentativa da parte da igreja de usar a cristianização do Shabbath para conter as tendências judaizantes” (p 271-272).

Lemos também:

“Como no caso de Inácio, devemos observar que a rejeição do Shabbath (literal) por Barnabé faz parte de um contexto de diferenciação clara entre o Judaísmo e o Cristianismo. Para Barnabé, a prática dos ritos judaicos em geral, incluindo a observância do Shabbath, era uma religião falsa e, em momento algum – nem mesmo no Antigo Testamento – era o que Deus havia desejado. A prática judaica do Shabbath não era obediência, mas desobediência a Deus, de modo que os cristãos, os herdeiros legítimos da aliança, não devem observar o Shabbath. Barnabé se mostra radical ao declarar esse ponto de vista, mas a avaliação inteiramente negativa do Shabbath judaico no contexto de uma condenação total do Judaísmo é uma característica dos patriarcas” (p. 275).

Os dois próximos trechos são bastante reveladores também:

“No que se refere aos autores do século 2, também parece axiomático que, apesar do seu lugar no Decálogo, o mandamento do Shabbath pertence à mesma categoria que as leis cerimoniais judaicas, cuja observância literal já não vigorava mais, pois essas leis haviam se cumprido em Cristo. Em Actus Vercellenses 1, Paulo é mostrado pregando que Cristo ‘aboliu seus dias de Shabbath, jejuns e festivais, e a circuncisão’. Para Justino, o Shabbath se encontra, sem sombra de dúvida, na mesma categoria que a circuncisão e os festivais: são leis que os cristãos não observam, pois foram dadas aos judeus em função de seu pecado e da dureza do seu coração. No contexto da polêmica anti-judaica, a linguagem pode ser extrema. A Epístola de Diognetus fala de sua ‘escrupulosidade com relação às carnes, suas superstições sobre o Shabbath, seu orgulho da circuncisão e suas obsessões com o jejum e as luas novas, considerando tudo isso ridículo e nem sequer digno de atenção’. De acordo com Aristides, os judeus ‘Supõem em sua mente, que estão servindo a Deus, mas nos métodos de suas ações, prestam seu serviço aos anjos e não a Deus, uma vez que observam os dias de Shabbath, as luas novas, a Páscoa e o grande jejum…’ . Partindo de atitudes tão absolutamente negativas e até mesmo anti-semitas, não é preciso ir muito longe para chegar às idéias de Marcion, que fez todo o possível para desonrar o Shabbath ao transformá-lo num dia de jejum” (p. 278). 

“A interpretação metafórica dos mandamentos só foi desenvolvida mais tarde, originando-se provavelmente em Alexandria, onde cristãos judeus de convicções firmes, como Pseudo-Barnabé e o redator do dito atribuído a Jesus no Evangelho de Tomé, usaram-na para dissuadir seus irmãos ‘mais fracos’ (tanto judeus quanto cristãos gentios judaizantes) das práticas judaicas. Ganhou popularidade no final do século 2, em parte no contexto da controvérsia com o Judaísmo, do qual a igreja se preocupava cada vez mais em se diferenciar e, em parte, também, dentro do contexto da controvérsia com Marcion, que repudiou inteiramente o Antigo Testamento. A tentativa de traçar um rumo entre o Judaísmo e a heresia marcionita obrigou autores cristãos como Irineu e Tertuliano a esclarecer os elementos de concordância e discordância entre as religiões do Antigo e Novo Testamentos” (p. 280).

A tese doutoral “Do Sábado para o Domingo”, do teólogo adventista Samuele Bacchiocchi também traz algumas análises interessantes sobre esse tema. Sobre Inácio, afirma:

“Segundo Irineu, Inácio era bispo de Antioquia no tempo de Trajano (98-117 A.D.). O bispo argumenta ‘contra as tendências judaizantes de seu território, que, não distante geograficamente da Palestina, havia sofrido as influências da sinagoga e dos cristãos judeus’. Sua linguagem deixa implícita a sugestão de que a separação do judaísmo estava progredindo embora sem os laços terem-se ainda rompidos. De fato, a tenaz sobrevivência e observância das instituições judaicas como o sábado, é explicitamente mencionada por este autor. Por exemplo, em sua Epístola aos Magnesianos, Inácio escreve: ‘pois se ainda estamos praticando o judaísmo, admitimos não termos recebido o favor de Deus. Pois os profetas divinos viveram em harmonia com Jesus Cristo (cap. 8:1, 2)’. No capítulo seguinte, de novo ele cita estes profetas do Velho Testamento ‘que viveram em caminhos antigos’ e ‘alcançaram uma nova esperança, não mais sabatizando, todavia vivendo segundo a vida do Senhor (ou o dia do Senhor— meceti sabbatizonteς alla cata zweς// zonteς)’. A necessidade de se renunciar aos costumes judaicos é novamente solicitada no capítulo 10:3, onde se faz advertência de que ‘é errado falar sobre Jesus Cristo e viver como os judeus. Pois o cristianismo não acreditava no judaísmo, e sim o judaísmo no cristianismo’. Em sua carta aos de Filadélfia, o bispo semelhantemente admoesta que ‘se alguém lhe expuser o judaísmo, não o ouça, pois é melhor ouvir o cristianismo de alguém circuncidado, que o judaísmo de alguém não circuncidado’ (cap.6:1). 

Estas freqüentes recomendações para abandonar a prática do judaísmo deixa implícita uma forte inclinação para com os rituais judaicos dentro das comunidades cristãs da Ásia Menor. Nesse clima, é difícil até conceber que uma ruptura radical com a guarda do sábado já houvesse ocorrido. Por outro lado, condenar as práticas judaicas como ‘sabatizantes’, isto é, a observância do sábado segundo o modo judaico, e a exortação de se ‘viver segundo a vida do Senhor’, no decurso do tempo bem pode ter motivado a adoção, não somente de um modo de vida, mas até mesmo de um dia de adoração que fosse diferente daquele dos judeus. A introdução da guarda do domingo poderia então, ser parte do processo de diferenciação do judaísmo, o que se tornou necessário por razões anteriormente mencionadas” (p. 132).

Já sobre Barnabé, Bacchiocchi expõe:

“Uma leitura cuidadosa da Epístola de Barnabé permite perceber que o autor propõe demonstrar o total repúdio da parte de Deus ao judaísmo como religião verdadeira. Enquanto Inácio condena o ‘judaizar’ de alguns cristãos, Barnabé rejeita totalmente ‘o judaísmo’ como um sistema tanto teológico quanto social. Fica a nítida impressão de que os ataques do autor são direcionados particularmente, como A. Harnack observa, ‘contra cristãos judaizantes que provavelmente queriam salvaguardar crenças e costumes religiosos judaicos’. Na verdade, Barnabé de modo categórico condena aqueles cristãos que pendiam no rumo de uma posição de comprometimento com os judeus, dizendo: ‘acautelai-vos e não sede como alguns, amontoando vossos pecados e dizendo que o concerto é deles tanto quanto vosso. É nosso, mas eles o perderam completamente logo após Moisés tê-lo recebido’ (4:6-7). 

A fim de persuadir os cristãos judaizantes a abandonar crenças e práticas judaicas, Barnabé lança um duplo ataque contra os judeus: difama-os como um povo e esvazia suas praticas e crenças religiosas de qualquer validade histórica, ao colocar como alegoria o seu significado. Como um povo, os judeus são descritos como ‘homens miseráveis’ (16:1) que foram enganados por um anjo mau (9:5) e que ‘foram abandonados’ por Deus por causa de sua antiga idolatria (5:14). Puseram ‘seus profetas à morte’ (5:12) e crucificaram a Cristo ‘considerando-o nada, ferindo-o e cuspindo nele’ (7:9). Quanto às crenças judaicas fundamentais (tais como o sistema sacrifical, o concerto, a terra prometida, a circuncisão, as leis levíticas, o sábado e o Templo), o escritor procura demonstrar que não se aplicam literalmente aos judeus, pois têm um significado alegórico mais profundo, que encontra seu cumprimento em Cristo e na experiência espiritual dos cristãos. O escritor, contudo, como assinala J. B. Lightfoot, ainda que ‘seja um antagonista descomprometido do judaísmo, . . . além desse antagonismo nada tem em comum com as heresias anti-judaicas do segundo século’. W. H. Shea corretamente observa de fato que “em muitas das crenças cardeais do cristianismo, o autor é bastante ortodoxo”. 

O repúdio e separação do judaísmo por Barnabé, representa então, não a expressão de um movimento herético, mas a necessidade sentida pela comunidade cristã de Alexandria. Contudo, o método alegórico e atitude extrema do escritor testificam, J. Lebreton adequadamente assinala, ‘não até o profundo pensamento da Igreja, deveras, mas pelo menos, até ao perigo que o judaísmo representava para ela, e a reação da Igreja ao perigo’. 

A depreciação do sábado e a introdução do ‘oitavo dia’ é parte desta tentativa que faz o autor para destruir os alicerces do judaísmo” (p. 134).

Sobre Justino, Bacchiochi comenta:

“A atitude de Justino para com o sábado judaico aparece condicionada tanto por seu conceito da Lei Mosaica, como por seu sentimento para com os judeus—este possivelmente evidenciou aquele. Barnabé, de origem judaica, com seu método alegórico tentou esvaziar tais instituições judaicas como o sábado e a circuncisão de todo o seu valor temporal e histórico, atribuindo-lhes significado espiritual e escatológico exclusivos. Justino, pelo contrário, sendo de origem gentia, ignorava o valor moral e corporal da legislação mosaica, e considerava a lei, como James Parkes declara, ‘uma parte das Escrituras, sem importância, um acréscimo temporário a um livro doutro modo universal e eterno, acrescentado em virtude da especial impiedade dos judeus’. Por exemplo, para Trifo, Justino explica: Nós também observaríamos a circuncisão da carne, os dias de sábado, numa palavra, todas as suas festividades, se não soubéssemos a razão do porquê lhes foram impostas, a saber, por causa de seus pecados e dureza de coração. 

Conquanto Paulo reconheça o valor educativo da lei cerimonial, Justino considera-a ‘de um modo negativo, como a punição para os pecados de Israel’. Ele confirma sua tese repetidamente. Após argumentar, por exemplo, que os homens santos anteriores a Moisés não observaram nem o sábado nem a circuncisão, conclui: ‘Portanto, devemos concluir que Deus, que é imutável, ordenou estas coisas e outras similares, para serem feitas unicamente por causa dos homens pecaminosos’. O sábado, então, segundo Justino, é uma ordenança temporária, originando-se em Moisés, imposta aos judeus por causa de sua infidelidade, por algum tempo, precisamente até a vinda de Cristo. A aceitação desta tese é indispensável para Justino, a fim de salvaguardar a imutabilidade e ocorrência de Deus. Ele explica: Se não aceitamos esta conclusão, então teremos idéias absurdas, como a insensatez de que nosso Deus não é o mesmo Deus que existiu nos dias de Enoque e todos os outros, que não eram circuncidados na carne, e não observavam os sábados e outros ritos, uma vez que Moisés somente mais tarde os instituiu; ou que Deus não deseja que cada geração que sucede da humanidade sempre execute os mesmos atos de justiça. Qualquer uma das suposições é ridícula e despropositada. Portanto, devemos concluir que Deus, que é imutável, ordenou que estas coisas e outras semelhantes fossem cumpridas apenas por causa de homens pecadores. 

A Igreja Cristã jamais aceitou tese tão falsa. Dizer, por exemplo que Deus ordenou a circuncisão e o sábado unicamente por causa da impiedade dos judeus ‘como marcos distintivos, para destacá-los de todas as outras nações e de nós, cristãos para que os judeus somente sofressem aflição’, torna a Deus culpado, para dizer o mínimo, de atos discriminatórios. Deixaria implícito que Deus deu ordenanças com o propósito primordialmente negativo de destacar judeus para a punição. Infelizmente, é com este pensamento que Justino argumenta pelo repúdio do sábado” (p. 136-137). 

Os trechos que lemos nos servem para refletir sobre a influência que esses e outros líderes certamente tiveram sobre a Igreja ao instigar tais teologias antijudaicas. Não é de se espantar que o sábado tenha sido descartado e a Igreja se romanizado. Nada, contudo, que já não estivesse previsto na Bíblia. O chifre pequeno da profecia de Daniel, o qual simboliza a Igreja Romanizada, iria “mudar os tempos e a lei” (Dn 7:25). Seu sistema corrompido é “o homem da iniquidade (anomia – sem lei), o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (II Ts 2:3-4). Segundo Paulo, a iniquidade (anomia) desse sistema já operava em sua época e iria ser revelado quando fosse “afastado aquele que agora o detém” (v. 7). Em outras palavras, o terreno antijudaico já era preparado para que, em poucas décadas, doutrinas estranhas aparecessem e iniciassem o processo de romanização da Igreja. Os ensinos de homens como Inácio, Barnabé e Justino quanto ao sábado e os judeus demonstram claramente como o processo se deu.