Davi Boechat

“Uma vez que Cristo padeceu fisicamente por nós, vocês devem estar dispostos a sofrer” (1 Pedro 4:1, NVT).

No verão do Rio de Janeiro, especialmente em igrejas que não dispõe de ar-condicionado, os cumprimentos no fim de culto do sábado pela manhã costumam ser apressados. O calor aliado a fome, que no início da tarde vira um alarme biológico insuportável pra muita gente, se torna um diácono rude e ranzinza que enxota a todos para casa rapidamente. Num desses cultos comuns, em dezembro de 2017, eu havia pregado. Ao terminar o sermão, uma exposição em Filipenses 4, que tratara da contradição entre ansiedade e alegria, cumprimentava aos irmãos, um a um, quando ouvi de uma senhora de meia idade: “Eu acreditava que tiro não pegava em crente, até uma bala perdida acertar meu irmão”.

Se passaram dois anos que ouvi essas palavras. Desde então são para mim uma representação da tendência humana de exigir a Deus a realização de promessas que Ele nunca fez, como constante sombra e água fresca. Essas expectativas equivocadas acabam sendo seguidas por amargas decepções. Entretanto, se de um lado há quem afirme que o cristão não irá sofrer, outros justificam todo o sofrimento que tem como sendo ocasionado por serem cristãos.

Um questionamento feito por Ranko Stefanovick me parece conveniente aqui: “Qual é a diferença entre sofrer por amor a Cristo e sofrer por outros motivos?” [1]. Essa distinção pode parecer pequena, mas é relevante. Portanto, seguindo essa perspectiva os cristãos enfrentam duas formas diferentes de sofrimento:

  1. Uma é implicação da profissão de fé em Cristo, manifestada pela perseguição religiosa. O próprio Jesus disse: “Então vocês serão presos, perseguidos e mortos. Por minha causa, serão odiados em todo o mundo” (Mateus 24:9, NVT).
  2. A outra possibilidade é diversificada, indo de acidentes até escolhas ruins. Sendo assim, o prejuízo com o carro que escangalhou e com o celular que rachou a tela ao cair não são provas de que o diabo está furioso.

Sofrendo por causa do Evangelho

O sofrimento é democrático. Atinge a todos de diversas formas e tem instrumentos de tortura específicos pra cada um. Mas crentes são convidados a “tomar parte nos seus sofrimentos [os de Cristo]” (Filipenses 3, NTLH), mostrando que há um tipo específico de dificuldade para crentes. Além de enfrentar os problemas de um mundo tomado pelo pecado, temos que vencer as perseguições que surgem ao decidirmos seguir a Cristo. Essas duas possibilidades nos servem como prova de que a fé de maneira nenhuma nos deixa imunes aos problemas e que também nem todos os problemas são originados de reações agressivas ao que cremos.

A fé também não irá prover um estado de conforto e prosperidade materiais como meios para a paz. Ao invés disso, faz brotar no coração do crente “a paz que excede todo o entendimento” (Filipenses 4:7) em meio a qualquer caos. Como bem disse Paulo: “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:12 e 13, NVI).
Por isso nós somos “perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4:9, ACF). A expressão perseguidos, aliás, aparece qualificando aqueles que obedeceram a Jesus aparece diversas outras partes do Novo Testamento (confira Mateus 5:10-12, 10:21-23, 24:9; Marcos 4:17; Atos 5:17-18; 1 Coríntios 4:11; Gálatas 6:12; 1 Tessalonicenses 2:14; Hebreus 11:37-38; Apocalipse 2:10). Quanto mais conhecida a mensagem, mais oposição ela levantava. A popularidade representava rejeição e sofrimento para os discípulos no primeiro século. Não podemos esperar nada muito diferente disso hoje.

Sofrendo por escolhas ruins

As palavras de Pedro sobre o sofrimento dos crentes também são pertinentes: “Que nenhum padeça por homicídio ou roubo ou desacato ou por se meter na vida dos outros. Mas sofrer por ser cristão não é de forma alguma uma vergonha. Louvem Deus por isso!” (1 Pedro 4:14 e 15, NVT). O sofrimento resultante de punição por delinquência (homicídio ou roubo ou desacato) é resultado de escolhas ruins, enquanto o sofrimento em causa do Evangelho é resultado de uma escolha boa! Para o bandido há vergonha, enquanto para o mártir glória, independente de quão dolorosa seja a situação que ambos enfrentarão.

Certa vez, conversando com um amigo que trabalha há muito tempo como agente penitenciário, perguntei sobre a atuação das igrejas que oferecem assistência religiosa aos presos. Ele disse que havia cultos absurdamente cheios enquanto outros ficavam muito vazios. Fiquei curioso e ele explicou o motivo: “Se o pastor falar que vai ter libertação, um monte quer ouvir. Quando tem pastor que fala que eles precisam se arrepender e pagar pelos erros, meia dúzia fica até o final”. Ficar atrás das grades não muda a natureza humana. Procurar promessas à la carte é realidade fora ou dentro dos presídios.

É necessário diferenciarmos os sofrimentos por causa do Evangelho daqueles que chegam a nós por conta de nossas escolhas. Se sofremos por nossos de erros, devemos assumi-los e trabalhar para repará-los. Se sofremos perseguição por causa do Evangelho, é momento de orarmos pedindo forças para suportar aquilo que nos vem de forma injusta.

Cristão não tem corpo fechado

Muitas das pessoas que se decepcionam com Deus têm se chateado como resultado de expectativas erradas. Ao enxergarem o cristianismo como trampolim para o sucesso, dificilmente desenvolvem força para resistir aos problemas que aparecerão, sejam aqueles manifestos por causa da fé ou mesmo os que fazem parte da vida em sentido mais geral. Essa visão do cristianismo como imunização aos problemas parece mais baseada nas concepções de corpo fechado[2] comuns aos cultos afro-brasileiros que ao relato bíblico.

“O fechamento de corpo é baseado em uma oração de proteção que resulta em um corpo protegido. O ritual é feito para afastar o mal — seja ou espiritual, físico ou os dois. Se a garantia procurada for no sentido físico, o beneficiário acreditaria estar protegido contra ataques dos seus inimigos, sejam eles perpetrados por facas, armas de fogo ou veneno de cobra”.[3]

Sendo assim, para muita gente, batismo cristão seria equivalente a uma cerimônia de fechamento de corpo realizada por religiões espiritualistas brasileiras. O devocional seria como uma reparação diária na blindagem. Por isso, vivem a vida cristã como se fazer algo a Deus gerasse a obrigação de serem afagados de todo desconforto.

A irmã que foi exemplo logo no início do texto pensava assim antes de sofrer e encontrar graça em meio a dor. Tantos outros acabam desistindo. Quantas esperança falsas, que negam as promessas reais, temos cultivando? Muitos estão sendo desgastados por conta disso, afinal, “um anelo pelo impossível leva a uma progressiva inabilidade para a experiência do possível”[4].

O cristianismo é também um chamado ao sofrimento. Mas não coloque todo o seu sofrimento na conta do cristianismo. Seja responsável com seus erros. Não queira de forma alguma comprar bênçãos com obediência.


[1] Ranko Stefanovick. Lição da Escola Sabatina, O Livro do Apocalipse, p. 25, CPB

[2] Há umbandistas que discordam da concepção de corpo fechado como garantia para não enfrentar problemas, como colocado a seguir: “Isso não quer dizer que uma pessoa que passou por um ritual de fechamento de corpo está totalmente imune a qualquer ato de maldade ou de algo chamado fatalidade. […] Dizer “eu tenho o corpo fechado” não quer dizer que se tornou de aço, que a partir de hoje lhe foi posta uma superproteção, que você pode levar um tiro e não vai acontecer nada. Não quero deixá-lo triste, mas vai sim!” <disponível em: http://www.tucabocloubirajara.com/eu-tenho-o-corpo-fechado/patuas-2/>.

[3] Adam Lee, Um ritual de proteção para “fechar o corpo” liga tradições religiosas diferentes no Brasil, disponível em: <https://pt.globalvoices.org/2016/08/06/um-ritual-de-protecao-para-fechar-o-corpo-liga-tradicoes-religiosas-diferentes-no-brasil/>).

[4] R. J. Rushdoony. A Política da Pornografia, p. 150, Editora Monergismo