Trecho da tese doutoral “Ensino em casa no Brasil: um desafio à escola?”, de Luciane Barbosa.

Na década de 80, o movimento norte-americano em prol do ensino em casa ―pendeu para aquela que havia sido uma das suas primeiras origens: o argumento do direito divino de os pais educarem (VIEIRA, 2012, p. 16). Dessa reivindicação, então com fundo religioso, destacam-se sobretudo o trabalho de Raymond e Dorothy Moore, os quais estabeleceram relação de trabalho direta com [John] Holt (GAITHER, 208, p. 128).

O casal Moore, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, influenciado pelo que a igreja já defendia sobre a relevância do papel da mãe na educação das crianças pequenas e como fruto de sua formação e atuação na área da educação (ambos trabalharam como professores em escolas públicas), decidiu pesquisar e divulgar resultados de estudos que indicavam os malefícios que a educação escolar trazia para as crianças muito pequenas, no que diz respeito a questões psicológicas, biológicas (formação neural e sensório-motora) e de desempenho acadêmico (GAITHER, 2008, p. 130).

O artigo The Danger of Early Schooling (1972) e os best-sellers Better Late Than Early (1975), e School Can Wait (1979) buscavam detalhar ao público as conclusões dessas pesquisas sobre os malefícios de uma escolarização precoce, defendendo que as crianças se mantivessem longe de ambientes estruturados de aprendizado até os oito ou dez anos, mantendo-se em um ambiente acolhedor e gastando tempo regular com os pais, os fatores preditores de uma estabilidade e maturidade cognitiva (GAITHER, 2008, p. 132).

Em 1982, em duas participações em programa televisivo, Raymond Moore alerta o mundo de ―um perigo até então desconhecido‖: que cerca de 70% de todos os problemas de comportamento seriam apresentados por jovens que foram para a escola muito cedo; afirmação apresentada como resultado de mais de dez anos de pesquisas e leituras de mais de sete mil estudos focados em desenvolvimento infantil por equipes de renomadas universidades. Para muitos, as entrevistas que o autor concedeu nesses programas representariam o lançamento do recente movimento do homeschooling nos Estados Unidos (VIEIRA, 2012, p. 17).

Em 1981, o casal Moore publicou o livro How Grown Kids, um manual de criação dos filhos baseado em suas questões de pesquisa. Este tornou-se o mais influente trabalho na comunidade dos praticantes do homeschooling (GAITHER, 2008, p. 132). Dada a linguagem evangélica que usavam, passaram a ser reconhecidos como os líderes dos homeschoolers cristãos, aproximando-se também de mórmons, católicos, entre outros, que apresentavam os valores familiares como base para o ensino (em casa) dos filhos. Raymond Moore também despertou a atenção por atuar como testemunha a favor de várias famílias em 20 estados norte-americanos, nos julgamentos daqueles que violavam os estatutos da educação compulsória. Nas décadas de 80 e 90, o casal produziu ainda muitas outras obras voltadas para famílias homeschoolers, com conselhos práticos, tratando de formação de valores antigos e uma pedagogia laissez faire (GAITHER, 2008, p. 133).

Destaca-se a influência de Moore para a criação da Homeschool Legal Defense Association (HSLDA) em 1983, ao defender os fundadores desta sob a justificativa de que, sem a influência do casal, eles não teriam começado a ensinar em casa e tampouco a Associação existiria (VIEIRA, 2012, p. 17). Vieira (2012, p. 18) também observa que, em 1983, mudanças na regulamentação fiscal das escolas cristãs nos Estados Unidos resultaram no fechamento de centenas delas pelo país, circunstância que levou a comunidade cristã, influenciada pelos discursos de Moore contra os malefícios do ensino regular (e público), à opção pelo homeschooling, contribuindo para que tal modalidade crescesse espantosamente nas duas décadas seguintes.

Milton Gaither (2008) avalia que no início dos anos 80, Holt e Moore tornaram-se os ativistas mais populares do movimento homeschooling. Ambos começaram com suas críticas à escola pública e gradualmente construíram a visão sobre o ensino em casa como resposta a elas. A mídia teve papel fundamental na divulgação e repercussão com polêmica de suas ideias, o que colaborou para popularizar o movimento. Ambos também despenderam atuação na criação de várias obras sobre como colocar em prática o homeschooling (livros ‗how to do‟) (GAITHER, 2008, p. 134).

– BARBOSA, Luciane Muniz Ribeiro. Ensino em casa no Brasil: um desafio à escola? Tese (Doutorado). São Paulo: USP, 2013, p. 96-98. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-07082013-134418/publico/LUCIANE_MUNIZ_RIBEIRO_BARBOSA_rev.pdf

___________

GAITHER, M.. Homeschool: An American History. New York, NY: Palgrave Macmillan, 2008.

VIEIRA, A. O. P. “Escola? Não, obrigado”: Um retratro da homeschooling no Brasil. Monografia (Graduação). Instituto de Ciências Sociais. Universidade de Brasília,/. 2012.