Por Davi Caldas

Nas duas primeiras postagens da série estudamos um pouco sobre o argumento cosmológico. Através dele contatamos que o universo teve uma origem e essa origem se deve a um agente transcendente, poderoso e pessoal – o qual comumente chamamos de Deus. Na postagem de hoje vamos aprender sobre outro argumento: o teleológico.

Teleologia vem do grego “telos”, que quer dizer “finalidade” e “logia”, que quer dizer “estudo”. Em outras palavras, o argumento teleológico é aquele que estuda a finalidade. Mas que finalidade? Vamos entender. Quem não leu a postagem anterior, clique aqui.

O filósofo e teólogo William Paley (1743-1805) explica o argumento através da chamada “Analogia do Relojoeiro”. Nela, Paley argumenta que se alguém encontra um relógio no chão, jamais acreditará que ele se formou por meio de forças casuais da natureza. Em vez disso, concluirá que o relógio foi projetado, pois todo seu mecanismo é complexo, ordenado e apresenta uma finalidade. É claramente um projeto.

Se o relógio é um projeto, significa que houve um projetista por trás desse projeto. Uma mente responsável pela ordem do mecanismo, pela finalidade do projeto, pelo seu ajuste preciso para funcionar. Da mesma forma, ao olhar para a natureza como um todo (universo, terra e vida) é racional concluir que ela se trata de um projeto.

Do micro ao macro, a complexidade dos mecanismos que regem a natureza é enorme e eles estão ajustados de maneira precisa para possibilitar a vida. Trilhões de componentes na natureza interagem de modo organizado para que existam átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos, sistemas, organismos vivos, fotossíntese, respiração, nutrição, sangue, clorofila, oxigênio, hidrogênio, gás carbônico, água, sol, estrelas, gravidade e etc. São trilhões de sistemas biológicos atuando em trilhões de organismos que interagem e dependem uns dos outros num planeta e num universo formados por constantes matemáticas ajustadas de modo milimétrico. A aparência de projeto é algo, definitivamente, inegável.

Para Paley, assim como um relógio é claramente um projeto e precisa de um projetista, também a natureza é um projeto e teve o seu grande designer. Esse argumento pode ser resumido de várias maneiras. Uma delas considera três hipóteses para explicar esse ajuste preciso da natureza. Segue a estrutura:

(1) O ajuste preciso da natureza se deve ou a uma necessidade física, ou ao acaso, ou a um projetista;
(2) É evidente que o ajuste preciso da natureza não se deve a uma necessidade física ou ao acaso;
(3) Logo, ele se deve a um projetista.

Como podem ver, a segunda premissa é o centro do argumento. É evidente que o ajuste preciso da natureza não se deve a uma necessidade física ou ao acaso? Vamos analisar. A hipótese número um afirma que a natureza necessariamente tinha que ser da maneira como é. As constantes matemáticas referentes à força da gravidade, à força nuclear, à força eletromagnética, à velocidade da luz; à velocidade da expansão do universo, à velocidade de rotação e translação da terra, à distância do sol, o tamanho do sol, o nível de oxigênio na terra, o nível de gás carbônico, à distância da lua, tudo só poderia ser como é. Trata-se de uma afirmação difícil de sustentar, pois implica que existe uma impossibilidade física ou lógica das coisas terem saído de outro jeito. Mas não há qualquer indício para isso. Na verdade, se entendemos que toda a natureza não foi projetada, mas simplesmente seguiu o acaso, isso torna extremamente improvável que as coisas não poderiam ocorrer de qualquer outra forma. Afinal, não há algo que conduza os processos para determinados resultados.

A hipótese número dois não é mais promissora. Descartando a ideia de que as coisas só poderiam ocorrer como ocorreram, ficamos com o mero acaso. Mas a enorme complexidade dos sistemas funcionais que compõem a natureza, tanto a nível micro como a nível macro, tanto dentro da terra como fora da terra, é ainda mais improvável que tudo isso tenha surgido gradualmente através de movimentos aleatórios, casuais e sem objetivos.

Há aqui dois pontos a serem enfatizados: o primeiro tem a ver com um argumento normalmente utilizado para defender a hipótese do acaso. O argumento diz que a complexidade funcional do universo poderia ser obra do acaso por conta de uma espécie de “tentativa e erro”. Assim, bilhões de tipos de universos imperfeitos teriam surgido ao longo de bilhões de anos até que em algum momento o universo “certo” surgiu, tornando possível a existência de vida. Da mesma forma, bilhões de tipos de planetas imperfeitos teriam surgido até que em algum momento surgiu a terra, que, por sua vez, teria feito surgir bilhões de condições impossíveis para vida até chegar a uma correta. Neste ponto, haveria bilhões de “erros” até que a primeira vida surge. E esta, por sua vez, irá evoluir através de bilhões de erros em seus descendentes, sempre chegando a um momento em que algo correto surge.

O erro fundamental desse argumento é que ele não simplifica o processo. Este processo de “tentativa e erro” é cego, não um processo controlado. Quando um homem, por exemplo, resolve construir uma máquina, ele pode usar o processo de tentativa e erro. Uma vez que o processo é inteligente e conscientemente guiado, cada erro cometido será colocado de lado para que não seja repetido. Assim, cada forma errada da máquina, não voltará a ser construída. Isso impede que o homem volte aos mesmos erros ou erros parecidos dezenas de vezes.

Mas o que dizer de um processo cego? O acaso não é um agente consciente, mas apenas o movimento aleatório das coisas. Assim, ele não pode simplesmente separar todos os universos, terras e vidas erradas que surgiram, deixando de lado esses erros para não tornar a repeti-los. Há, portanto, a possibilidade de o acaso cair em “erros” iguais ou semelhantes milhares ou milhões de vezes. Aumentar o tempo não impede esse cenário.

O segundo ponto a ser enfatizado é o fato de que muitas das estruturas naturais das quais estamos falando não poderiam ter evoluído gradualmente por meio de pequenas alterações que iriam se reunindo aos poucos até formar um sistema completo. Para que o universo permitisse vida, por exemplo, constantes físicas como a força gravitacional, as forças moleculares forte e fraca, a constante cosmológica e tantas outras precisaram estar milimetricamente ajustadas desde o início do universo. Uma alteração pequena em uma delas já teria levado o universo ao fracasso desde o princípio. Assim, não caberia aqui uma evolução. Também é possível encontrar estruturas com tais características em nosso próprio. O bioquímico Michael Behe chama essas estruturas de “complexamente irredutíveis”. Para que elas funcionem todos os componentes que a formam devem estar presentes no sistema. Assim, não caberia uma evolução gradual e aleatória.

A verdade é que, numa cosmovisão ateísta-naturalista, evolução é apenas um nome pomposo para um processo cego de acumulação de milhões de pequenas mutações e variações aleatórias numa espécie ao longo de milhões de anos que, por muita sorte, foram benéficas e, por muita sorte, formaram complexos sistemas de partes interatuantes com uma finalidade útil, e que, por muita sorte, contaram com a sobrevivência dessas espécies repletas de sistemas incompletos ao longo desses milhões de anos, fazendo com que, no fim das contas, uma série de acasos sem finalidade alguma produzisse uma série de sistemas com finalidades específicas, e a finalidade geral da sobrevivência. Tal processo englobou, por muita sorte, não uma espécie, mas milhões delas.

Tudo isso ocorreu dentro de um universo repleto de constantes físicas que, com muita sorte, foram finamente ajustadas por acaso para que o universo não desabasse sobre si mesmo e para que permitisse a formação também por acaso de um planeta finamente ajustado aleatoriamente ao longo de milhões de anos para que, sem que tivesse essa ou qualquer outra finalidade, acabasse possibilitando vida. Este panorama, como fica claro, é extremamente improvável.

É importante salientar que tanto em ciência como em nossa vida cotidiana nós trabalhamos com probabilidades. Geralmente não escolhemos crer em coisas que são extremamente improváveis. Por exemplo, um homem poderia alegar que caiu dez vezes em sua vida de um prédio de cinco andares e não morreu. Ora, matematicamente, é até possível que isso aconteça. Mas a probabilidade é tão absurdamente pequena, ínfima, que considerá-la torna-se irracional. Ela é praticamente uma impossibilidade.

A obrigação racional de descartar uma possibilidade extremamente improvável aumenta quando há uma ou mais opções muito mais prováveis para escolher. Este é o princípio da ciência e da tomada de decisões diárias. E este é caso aqui. As hipóteses de que a enorme complexidade funcional da natureza, milimetricamente ajustada em vários níveis, tenha surgido por necessidade física ou mero acaso são muito improváveis. Mas a ideia de que houve um projetista para essa natureza não. Como William Paley bem dizia, se olhamos para um relógio, o mais óbvio é concluir que ele foi projetado. Não é diferente em relação à natureza. Esse é o mais lógico.

Um Desafio
Proponho um pequeno desafio para entender melhor a questão de probabilidades absurdas. Arrume um dado de seis lados. Sua missão será jogar o seu dado seis vezes consecutivas e conseguir a série correta de 1 a 6. Ou seja, todas as vezes em que a sua série não começar com 1, ou começar com 1, mas não prosseguir com 2, 3, 4, 5 e 6, nessa ordem exata, sua série já deve ser contabilizada como um erro. Tente quantas vezes quiser, por quantos dias quiser. Após centenas de fracassos, reflita sobre como é muito mais improvável que todo o universo, em sua complexidade, tenha surgido sem a projeção/orientação de um ser consciente, pessoal e inteligente. Você entenderá melhor o argumento teleológico. No próximo post desta série, vamos estudar sobre mais um argumento para a existência de Deus: o argumento moral.

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Posts da Série:

Parte 1: Argumento Cosmológico

Parte 2: Fugindo do óbvio

Parte 3: Argumento Teleológico

Parte 4: Argumento Moral

Parte 5: Um mundo amoral

Parte 6: Argumento da Razão

Parte 7: A possibilidade lógica de milagres

Parte 8: Argumento da Ressurreição